Sociedade

“A INCLUSÃO DEVIA ESTAR NO ADN DE TODOS OS JORNALISTAS”

O jornalismo inclusivo é aquele que ouve todas as personagens envolvidas, não descriminando sexo, idade, etnia ou condição social. O JUP colocou o tema em debate e ouvir as opiniões das jornalistas Ana Cristina Pereira e Vanessa Ribeiro Rodrigues, e de Nuno Silva, da SOS Racismo.
Fotografia por Michel du Cille - The Washington Post.

O jornalismo inclusivo é a prática da atividade informativa que não exclui qualquer fonte, acontecimento ou perspetiva. É o jornalismo que ouve todas as personagens envolvidas, não descriminando sexo, idade, etnia ou condição social. É a prática do jornalismo humano em estado puro.

O JUP ouviu os esclarecimentos de duas jornalistas e de um membro da SOS Racismo sobre as dimensões e dinâmica de uma prática jornalista que é ainda exceção à regra.

 

Ana Cristina Pereira, jornalista do Público e co-autora do livro “Todas as Vozes”, acredita que “as redações tendem a não espelhar a diversidade da sociedade”. A estrutura e a composição das mesmas dita este fenómeno: “Por norma, quem trabalha nas redações faz parte de uma elite que conseguiu frequentar o ensino superior e aguentar estágios não-remunerados. Olhando em volta, quem está dentro delas bem pode perguntar: onde estão os cidadãos de etnia cigana, de origem africana ou asiática, com alguma deficiência ou assumidamente muçulmanos?

A falta de contacto com os grupos mais vulneráveis é a principal razão que a jornalista aponta para o “distanciamento” que vê nos meios de comunicação. Apesar da inconsciência que acredita existir, Ana Cristina destaca o dever dos jornalistas “se informarem e domarem os seus próprios preconceitos.”

Mas até que ponto é que a atividade jornalística é responsável pela formação destes mesmo preconceitos na sociedade? Ana Cristina considera que a forma com que meios de comunicação abordam um assunto pode criar imagens negativas sobre uma dada realidade, também condicionada pelas experiências de cada um.

Destaca o caso das últimas eleições europeias, onde “os extremistas rugiram contra a «diferença»” e os partidos nacionalistas cresceram com uma massa de apoiantes nova e revoltada. “Nós, jornalistas, temos de refletir sobre o papel que, com ou sem querer, desempenhámos nisso tudo”, afirma a jornalista do Público.

 

Nuno Silva, jurista e membro da SOS Racismo, vê que o jornalismo, “como qualquer forma de comunicação e importante instrumento democrático”, pode ser uma “arma” de contrapoder face à emergência de associações extremistas, xenófobas e racistas na Europa. “Acredito que uma sociedade bem informada, porque mais esclarecida, estará igualmente mais protegida da linguagem de propaganda, discriminatória, violenta, típica deste tipo de associações.”

Nuno considera “importantíssimo” que o jornalismo construa uma plataforma que dê voz a “esses muitos «outros» que normalmente estão afastados do espaço mediático ou que apenas o ocupam para ilustrar campos marginais e de violência”. Destaca o caso das comunidades ciganas, uma vez “que a sua presença nos media só se faz sentir quando associada a fenómenos marginais ou como motivo de chacota pseudo-humorista”, afirma.

Ana Cristina e Nuno partilham a ideia de que a referência à nacionalidade, cor de pele ou pertença a grupos minoritários nos meios de comunicação é irrelevante no contexto da notícia. “Quando, para se relatar a ocorrência de um crime, se refere que o presumível agressor é “romeno” ou “português, de origem africana”, não se está a enriquecer a informação transmitida, mas sim a incentivar a construção de estereótipos”, defende Nuno Silva.

O membro da SOS Racismo acredita que o jornalismo interativo e, sobretudo, a multiplicação de redes sociais tornam mais fácil e representativa a participação de cidadãos e cidadãs. Nuno Silva revela, no entanto, a preocupação de que estas formas de comunicação sejam “muito incipientes e pouco significativas”, no que diz respeito à presença de minorias na discussão e a sua participação pública.

Para o jurista a “concentração da propriedade dos meios de comunicação e precariedade laboral” são os dois principais entraves à “liberdade e independência do trabalho jornalístico”.

 

Para Vanessa Ribeiro Rodrigues, jornalista independente e escritora, o “jornalismo de inclusão devia estar no ADN de todos os jornalistas”. No entanto, a jornalista acredita que “nem todos os jornalistas têm essa preocupação”. Culpa da falta de tempo, “da celeridade com que fluem os acontecimentos”, da redução de pessoal nas redações. Culpa do “pouco espaço que existe para pensar de que forma os jornalistas são mediadores das realidades e analisar que tipo de jornalismo fazemos”.

Vanessa considera que a exclusão nos meios de comunicação é reflexo desta “geração de órgão de informação”, onde os “muitos ou poucos cliques online e as partilhas nas redes sociais” são a principal preocupação. O compromisso com o relato inclusivo devia ser permanente, não apenas quando surgem as “reportagens especiais”, defende.

Como jornalista independente, o seu trabalho tem sido “tentar desconstruir estereótipos e preconceitos sobre o «Outro», sempre em prol de uma “mudança social”. Vanessa quer que as notícias “tenham um impacto direto, que façam as pessoas pensarem e refletirem sobre questões que desconhecem ou sobre estereótipos”. Foi para isso que trabalhou no Brasil e na Palestina. Foi para isso que dedicou mais tempo, mais investigação e mais reflexão.

Olhando para o jornalismo inclusivo português no panorama europeu, Vanessa acredita que “temos um longo caminho para galgar”. Destaca projetos independentes nacionais como a Revista CAIS e da IM Magazine, contudo “estes são uma ínfima parte do que poderia ser”, adverte. “Na sua raiz o jornalismo deveria ser de inclusão, se surge esta necessidade de criarmos alternativas de jornalismo mais inclusivo, e se estamos a ter esta discussão, é porque os media não estão a cumprir o seu papel”, conclui.

Para além de jornalista, escritora e documentarista, Vanessa Ribeiro Rodrigues é também professora no curso de Jornalismo na Universidade Lusófona do Porto. Como docente, acredita que a formação sensibilizada para a inclusão é a base de qualquer profissional. Segundo a jornalista, em jornalismo estas considerações são uma “obrigação e uma responsabilidade”.

 

“Eu tenho que analisar as minhas emoções e usar essas emoções para garantir que eu conto a história da maneira correta, para garantir que o meu sentido de respeito e o meu sentido de dignidade para mostrar ao mundo imagens e para fazer o que é correto em cada assunto.” Michel du Cille, fotojornalista, vencedor de três prémios Pulitzer