Sociedade

O NARCOTRÁFICO E OS ESTUDANTES: UM RETRATO DA VIOLÊNCIA MEXICANA

Nos últimos 50 anos, registaram-se vários episódios de violência e repressão das autoridades contra estudantes e populações civis no México. O JUP fez uma análise cronológica dos principais episódios de violência no país e ouviu o testemunho de uma estudante mexicana, sobre um país onde o governo “declarou guerra ao seu povo”.
Entrevista por Mariana Gaspar.
Fotografia: Público

México: uma história violenta

Em 1968, o governo de direita fez reformas nos planos de estudos – tornando a educação apenas acessível aos estratos sociais superiores – o que provocou a mobilização de grupos de estudantes. Em consequência, morreram mais de 200 civis nas mãos do exército e da polícia mexicana, numa única “matança” na Cidade do México.

Em 1994, houve grande repressão contra as populações indígenas, em Chiapas e Águas Blancas, como resultado da guerra civil.

Registos não oficiais dizem que em Ciudad Juárez e Ecatepec desaparece uma mulher por dia. Há relatos do desaparecimento de camiões inteiros de trabalhadores.

26 Setembro de 2014. Desaparecem 43 estudantes universitários no México. Foram vistos pela última vez a serem levados em carros da polícia municipal, após uma manifestação reprimida com grande violência pelas autoridades na cidade de Iguala, na província mexicana de Guerreiro.

Um mês depois, a descoberta de vários corpos em valas comuns, perto do local onde os estudantes foram vistos pela última vez, intensifica as suspeitas sobre a morte dos desaparecidos.

8 de Novembro. O Procurador Geral da República mexicana confirmou a morte dos 43 estudantes, às mãos da guerrilha armada Guerreros Unidos, no mesmo dia do seu desaparecimento.

As autoridades mexicanas acabaram por prender o presidente do município, José Luis Abarca Velásquez, e a sua esposa, por suspeita de “autoria intelectual do sequestro”. Apesar da detenção, populações, familiares e amigos dos estudantes não acreditam nas histórias oficiais.

 

O governo mexicano “declarou guerra ao seu povo”

Alejandra Muñoz é mexicana e estudante mobilidade na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É natural do estado mexicano de Chiapas, província do sul do país, que faz fronteira com a Guatemala. No México estuda Literatura Hispanoamericana.

Em conversa com o JUP, a estudante de 22 anos conta a sua versão dos acontecimentos de Iguala, que provocaram o desaparecimento de 43 estudantes:

“Estes jovens pertenciam a uma escola rural do centro do país que havia começado uma luta em busca de melhores oportunidades de estudo e de trabalho. A comunidade estudantil tinha começado uma série de manifestações que tinham como fim comemorar o 2 de outubro de 1968, data em que o governo mexicano assassinou a sangue frio centenas de estudantes na Praça de Tlatelolco. Triste e ironicamente encontrariam um cenário semelhante na capital do seu estado, Iguala, para onde se dirigiam: o presidente do município ordenou às forças policiais que abrissem fogo contra eles e os detivesse, para de seguida os entregar ao grupo de narcotráfico Guerreros Unidos. No atentado morreram seis pessoas, três estudantes e três civis, e foram capturados 43 estudantes, declarados, segundo a versão oficial, como «desaparecidos»”.

 

Acreditas que este tipo de violência é provocada pela precariedade de vida em algumas regiões?

Sim, porque a situação social no meu país é muito complicada. É um país muito grande. Para além da pobreza e da dificuldade económica, há a estrutura social e política. A maioria das pessoas que estão em cargos políticos são corruptas e mantêm relações com grupos criminosos. Isto dá-lhes uma força e um poder perante a sociedade para que haja um grande controlo e opressão sem que haja resposta.

 

Foram encontrados restos mortais no local onde os relatos oficiais diziam que tinham deixados os corpos. As populações mexicanas acreditam nesta história contada pelas autoridades mexicanas e pelos meios de comunicação?

Não, não acreditamos. Porque houve vários desenvolvimentos (informados pelas autoridades) durante a investigação, depois do que sucedeu, que não são credíveis, porque os estudantes desapareceram nas mãos da polícia local, do governo. E logo acontece que o governo disse que não foi a polícia, que os agentes não têm nada a ver com o caso, que foram os narcotraficantes.

Então o que se passou, segundo a versão que corre nas ruas, foi que o presidente municipal mandou a polícia apanhar os estudantes e aí a polícia de Iguala entregou-os ao círculo de narcotraficantes. Esta é a grande questão que causou o escândalo, como é possível que as mesmas pessoas que estão destacadas para ajudar sejam as que te entregam à guerrilha?

 

A corrupção é um dos problemas sociais mais preponderantes no México. Os grupos de narcotráfico, como os Guerreros Unidos, costumam ter relações próximas com a policia?

Principalmente nos estados do centro, como é Iguala, e do norte do país existem laços estreitos entre ambos os lados, em que os primeiros, os narcotraficantes, oferecem benefícios económicos às autoridades, para que estas os deixem atuar livremente.

 

As autoridades policiais mexicanas divulgaram dados muito concretos sobre a forma como foram supostamente mortos os estudantes. Até agora foi identificado o ADN de um jovem de 19 anos, um dos 43 sequestrados, encontrado numa lixeira como conta o relato oficial. Acreditam que é o fim do mistério sobre o caso?

Não. A princípio houve várias irregularidades na investigação. Uma delas foi que as autoridades não atuaram dentro do prazo previsto [as primeiras 72 horas são vitais, segundo vários protocolos internacionais de defesa dos direitos humano]. Em segundo lugar, uma semana depois do desaparecimento, alguns ditos oficiais “criminalizavam” os jovens desaparecidos. Esse é um modo de atuar muito comum da polícia mexicana. Quando alguém desaparece deitam a culpa do desaparecimento a essa mesma pessoa.

Depois disso, a polícia começou a procurar lugares onde poderiam estar os estudantes. Encontraram várias valas comuns e chegaram instituições internacionais que iniciaram o processo de reconhecimentos dos corpos. E a versão do governo e das autoridades é que Guerreros Unidos levaram os jovens para uma lixeira em Colula, município vizinho de Iguala, onde, depois de assassinados, queimaram os corpos numa fogueira que durou mais de quinze horas. Mas devido à falta de regularidade da investigação não acreditamos completamente.

 

Caso Iguala: o reflexo de um país

Alejandra não vê a situação de Iguala como um caso isolado. “É uma realidade. Milhares de corpos foram enterrados em valas comuns, queimados ou dissolvidos em ácido. Milhares de pessoas foram torturadas, intimidadas ou se viram violados em alguns dos seus direitos.

Não vê que a culpa seja apenas atribuída ao narcotráfico. Acredita que esta é partilhada, “em grande medida”, pelo governo do México, que se associa aos “grupos criminosos e declarou guerra ao seu povo”.

Naquele dia, a 8 de novembro, quando o México acordou com a confirmação da morte dos 43 estudantes, Alejandra, de Chiapas, escreveu para a comunidade de Iguala:

Os mexicanos têm hoje um nó na garganta do tamanho da nossa geografia, acordamos com um grito vibrante das vozes dos nossos mortos, levantamos com as mãos tremendo, com o punho indignado, com o espírito derrubado. Hoje dizemos a Ayotzinapa: pensavam que vos enterrariam, mas vocês são semente.