Sociedade

Guerra na Ucrânia: Atualizações do Conflito – 5º mês

O conflito armado entre as forças russas e ucranianas entrou recentemente no seu quinto mês de duração. Enquanto que os principais ataques e bombardeamentos ocorrem no leste do território ucraniano, os efeitos e consequências da guerra alastram-se progressivamente e redefinem o equilíbrio internacional de poder. A crise humanitária evolui com a própria intensidade do conflito, cujas consequências vitimizam um número cada vez maior de pessoas.

A guerra na Ucrânia entrou recentemente no seu quinto mês de duração, numa altura em que os combates entre as forças ucranianas e russas continuam a ser disputados no leste do país. Foram vários os acontecimentos que alteraram o teatro das operações militares na Ucrânia no decorrer do último mês de conflito, entre os quais destacamos aqueles mais relevantes:

  • 04 de Julho: O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, confirmou o controlo russo sobre a cidade de Lysychansk e a subsequente perda da região de Lugansk para os russos.
  • 08 de julho: A administração de Joe Biden anunciou um pacote de ajuda militar à Ucrânia no valor de 400 milhões de dólares, incluindo o sistema de lançamento de foguetes HIMARS (High Mobility Artillery Rocket System).
  • 11 de julho: As forças russas atacaram a cidade de Kharkiv com lançadores de mísseis múltiplos, atingindo várias áreas residências da cidade, afirmou o Governador regional Oleh Syniehubov. No mesmo dia, Vladimir Putin expande o acesso rápido à cidadania russa a todos os cidadãos ucranianos, podendo assim recorrer a procedimentos de passaporte simplificados.
  • 14 de julho: Após o ataque de mísseis russos que vitimou 20 civis na cidade de Vinnytsia, os  EUA, em conjunto com outras 44 nações, concordaram uma investigação coordenada sobre os suspeitos crimes de guerra russos praticados na Ucrânia.
  • 16 de julho: O Ministro da Defesa russo Sergei Shoigu ordenou a “intensificação das ações das unidades militares em todas as áreas operacionais” no território ucraniano.
  • 19 de julho: Vladimir Putin encontrou-se com os líderes do Irão e da Turquia, contando com o apoio declarado do Irão na guerra contra a Ucrânia.
  • 20 de julho: EUA anunciam o envio de mais 4 sistemas HIMARS
  • 22 de julho: Reunidos na cidade de Istambul, as delegações russas e ucranianas finalizaram os acordos que resultaram na retoma das exportações de cereais armazenados nos portos ucranianos .
  • 23 de julho: Horas após o acordo sobre os portos ucranianos, ataques aéreos russos atingem o porto de Odessa.
  • 25 de julho: A empresa russa Gazprom anunciou que iria reduzir o fluxo de gás no gasoduto Nord Stream 1 para apenas 20% da sua capacidade.
  • 26 de julho: Como resposta à medida anterior, os ministros da União Europeia com a pasta da Energia estabelecem um acordo de emergência para racionar o gás natural dos estados-membros.
  • 28 de julho: Mísseis russos atingem as regiões de Kiev e Chernihiv. Por sua vez, as autoridades ucranianas anunciam uma operação militar para liberar a região ocupada de Kherson.
  • 29 de julho: Autoridades ucranianas e russas acusam-se mutuamente pelo bombardeamento que resultaria na morte de dezenas de prisioneiros de guerra ucranianos.
  • 30 de julho: Zelensky declara a evacuação obrigatória de civis localizados na região oriental de Donetsk.
  • 01 de agosto: O primeiro carregamento de cereais ucranianos desde o início da guerra deixa o porto de Odessa. Os EUA anunciam um pacote adicional de ajuda militar com um valor estimado de 550 milhões de dólares.
  • 04 de agosto: A Amnistia Internacional publicou um relatório que denuncia uma série de práticas do exército ucraniano, entre as quais o posicionamento de tropas e equipamentos militares em áreas residenciais, escolas e hospitais, representando assim um risco para a população.
  • 05 de agosto: As autoridades ucranianas denunciaram um bombardeamento russo responsável pelo dano causado a uma linha de alta tensão na central nuclear de Zaporíjjia. Mais tarde, as autoridades russas iriam responsabilizar as forças ucranianas pelo mesmo bombardeamento na central nuclear.

Avanços no terreno

Com o objetivo de consolidar os territórios localizados no leste do território ucraniano, nomeadamente a totalidade do Donbas, o Kremlin continua a utilizar as suas forças terrestres, meios aéreos e unidades de artilharia nas suas manobras militares na respetiva região.

Em desvantagem numérica e com uma menor capacidade militar face ao gigante russo, as forças ucranianas têm mantido as suas posições defensivas, lançando inclusivamente algumas contraofensivas no leste e sul do país, dificultando e retardando os avanços russos desejados.

Entre os movimentos registados no último mês de conflito, o Ministério da Defesa do Reino Unido concluiu que o avanço russo na cidade de Bakhmut, situada no Oblast de Donetsk, representa o “eixo mais bem sucedido na região do Donbas” no mês passado, um avanço que se traduz apenas em 10 km registados pelos serviços de inteligência britânicos.

Também no leste da Ucrânia, o Instituto para o Estudo da Guerra (Institute for the Study of War – ISW) aponta na sua mais recente atualização da guerra para os bombardeamentos russos na cidade de Izium, contudo, não registando um avanço terrestre por parte das forças russas na cidade.

© 2022 Institute for the Study of War and AEI´s Crticial Threats Project

Em Slovyansk, um avanço russo em pequena escala foi acompanhado pelo bombardeamento de alvos entre ambas as cidades de Izium e Slovyansk, ao longo da fronteira do Oblast de Kharkiv-Donetsk, avança o mesmo instituto. Outros ataques terrestres foram igualmente registados no leste e sul de Bakhmut e a noroeste e sudoeste da cidade de Donetsk.

Na cidade de Kharkiv, as forças russas não efetuaram quaisquer avanços notáveis sobre as linhas de combate ativas, mantendo a pressão sobre as forças ucranianas através do bombardeamento e reconhecimento aéreo na região e atingindo áreas residenciais no centro da cidade com sistemas de lançamento múltiplo de foguetes (MLRS, na sigla inglesa).

No sul do território ucraniano, as forças russas focam-se na consolidação e fixação do território ocupado, prevenindo assim as contraofensivas ucranianas na região. Uma série de bombardeamentos russos foram também registados nas regiões de Dnipropetrovsk, Mykolaiv e Odessa, através do uso de artilharia e mísseis. 

Segundo o mesmo instituto, as forças ucranianas têm-se focado na destruição de armazéns de armamento e no ataque às posições militares russas, usufruindo da posse do sistema de lançamento de foguetes norte-americano HIMARS, que possibilita ataques à distância e simultaneamente aprimora a capacidade ofensiva das forças ucranianas.

Após as recentes acusações entre a Rússia e a Ucrânia sobre o bombardeamento da central nuclear de Zaporíjjia, recentemente, as forças russas anunciaram que irão reforçar a defesa antiaérea em redor da central nuclear.

Crise Humanitária

A crise humanitária na Ucrânia tem vindo a ser determinada pela própria evolução do conflito e as suas graves consequências desencadeadas.

No seu relatório mais recente, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (ENUCAH) realça que os “combates ativos no oblast de Donetsk e intensificação dos ataques à cidade portuária de Mykolaiv, no sul, estão a exacerbar a gravidade e a escala das necessidades humanitárias.”

Esta mesma intensificação e o consequente mandato de evacuação dos residentes situados no Oblast de Donetsk representa, segundo o Escritório da ONU, uma carga extra sobre “comunidades de acolhimento, receção e centros coletivos” já anteriormente pressionados.

Source: OCHA

Estima-se que, fruto do conflito, cerca de 15.7 milhões de pessoas encontram-se atualmente em estado de necessidade. Segundo o portal online do Alto-comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), foram já registados mais de 6,4 milhões de refugiados provenientes da Ucrânia, acrescentando-se a estes cerca de 6,65 milhões de pessoas deslocadas dentro do país.

Em adição a estes números, considera-se que cerca de 10,2 milhões de ucranianos enfrentem necessidades alimentares de subsistência, 12,1 milhões necessidade de assistência médica e cerca de 6,2 milhões necessidade de abrigo. Apesar dos impedimentos administrativos e inseguranças no terreno, o ENUCAH estime que cerca de 400 organizações humanitárias já conseguiram assistir cerca de 11,7 milhões de pessoas.

Desde o inicio do conflito no dia 24 de fevereiro que a ONU registou a morte de 5,237 pessoas (entre as quais 311 eram crianças) e o ferimento de outras 7,257 pessoas (entre as quais  376 são crianças).

Segundo os dados do ENUCAH, cerca de 5,7 milhões de crianças foram afetadas desde o inicio da guerra, com o Escritório da ONU realçando as consequências do conflito na educação das crianças e jovens ucranianos em idade escolar: “A capacidade de aprender é severamente afetada pela exposição aguda e contínua a traumas relacionados com conflitos e stress psicológico, levando a um risco de abandono escolar e de mecanismos de resolução negativos.”, aponta o Escritório da ONU no seu relatório.

Reação Internacional:

A organização não governamental Amnistia Internacional publicou recentemente um relatório que denuncia algumas das práticas do exercito ucraniano. Segundo a organização, as ações descritas representam um risco elevado para a segurança dos civis ucranianos.

“Os militares ucranianos colocaram civis ucranianos em perigo ao estabelecer bases e operar sistemas de armas em áreas residenciais – inclusive em escolas e hospitais – ao tentar repelir a invasão russa”, lê-se no relatório, que aponta tais ações como violação do direito internacional humanitário, “pois transformaram objetos civis em alvos militares”.

O relatório da organização não foi bem recebido pelas autoridades ucranianas e por Volodymyr Zelensky, que acusou a organização de tentar “amnistiar” a Rússia e de transferir a responsabilidade do agressor para a vítima.

Apesar da polémica gerada, que inclusivamente resultou na demissão da diretora-executiva da organização, Oksana Pokalchuk, a Amnistia Internacional “mantém plenamente” as suas conclusões, com Agnès Callamard, secretária-geral da Amnistia, afirmando que tais conclusões estão “assentes em provas obtidas durante investigações de grande amplitude submetidas às mesmas normas rigorosas e processos de verificação que caracterizam o trabalho da Amnistia Internacional”.

No campo da política internacional, a guerra da Ucrânia continua a provocar a redefinição da relação entre as principais potências mundiais, que tentam proteger os seus interesses políticos, juntamente com aqueles dos seus aliados.

Na semana passada, e pela primeira vez desde o inicio da guerra, o Kremlin acusou os EUA de estarem envolvidos diretamente no conflito armado entra a Rússia e a Ucrânia, após um alto funcionário da inteligência militar ucraniana afirmar que os EUA e o Reino Unido fornecem “informações minuto a minuto, em tempo real, de todos os tipos”, em entrevista ao Telegraph. 

“Esta é a prova definitiva de que Washington, apesar das alegações da Casa Branca e do Pentágono, está diretamente envolvido no conflito na Ucrânia”, anotou Igor Konashenkov, porta-voz do Ministério da Defesa da Rússia.

Inserido no contexto de apoio militar à nação ucraniana, os EUA anunciaram ontem o maior pacote de fornecimento de armas desde o início da guerra. O pacote avaliado em mil milhões de dólares inclui novos sistemas HMARS, munições, veículos, entre outros equipamentos, avança o Público. Acrescenta-se ainda a este valor cerca de 4,5 mil milhões de dólares em apoio financeiro, anunciou o Banco Mundial, com fundos provenientes dos EUA.

Na passada terça-feira, Volodymyr Zelensky instou os países ocidentais a proibir a entrada de cidadãos russos no seu território, uma ideia com alguns adeptos entre os estados europeus, entre os quais a Estónia e a Finlândia, que deixaram de emitir vistos a cidadãos russos.

“Os Estados-membros têm bastante margem para diminuir ou parar a emissão de vistos de longa duração”, esclareceu Anitta Hipper, porta-voz, dos Assuntos Internos da União Europeia, acrescentando também que “haverá sempre categorias de pessoas para as quais têm de se emitir vistos, como casos humanitários, familiares, jornalistas ou dissidentes”.

Por sua vez, o Kremlin considerou a medida proposta por Zelensky como “irracional”, com o porta-voz Dmitry Peskov afirmando que “Qualquer tentativa de isolar a Rússia ou os russos é um processo que não tem perspetivas.”, avança a agência de notícias Reuters.

 

 

Escrito por Vicente Oliveira Ribeiro

Revisão por Beatriz Oliveira