Sociedade

Jornalismo de luto: quatro jornalistas foram assassinadas

Em apenas uma semana, quatro jornalistas foram assassinadas enquanto exerciam a profissão. Francisca Sandoval, Shireen Abu Akleh, Yesenia Falconi e Sheila Johana García foram vítimas de um atentado à liberdade de imprensa.
Francisca Sandoval (Chile), Shireen Abu Akleh (Palestina), Yesenia Falconi e Sheila Johana García (México).

Francisca Sandoval

Francisca Sandoval, jornalista chilena, foi baleada na cabeça enquanto cobria as manifestações do 1º de Maio em Santiago, capital do Chile. Durante 12 dias esteve internada em estado crítico, mas acabou por não resistir aos ferimentos e faleceu, como informou o médico Daniel Rodríguez do Hospital de Emergência e Assistência Pública para a comunicação social chilena. A jornalista sofreu uma “lesão muito agressiva” no rosto que acabou por causar uma hemorragia cerebral.

Em vários pontos do país, realizaram-se vigilas em homenagem a Francisca Sandoval. Na Praça Itália, alguns manifestantes encapuzados ergueram barreiras e cortaram o trânsito. Muitos políticos chilenos expressaram a sua contestação e revelaram um ataque à democracia face ao aumento da criminalidade armada.

Mulheres penduram uma foto da Francisca Sandoval à porta do hospital onde esteve internada durante 12 dias. Créditos: Martin Bernetti / AFP

A jornalista de 30 anos trabalhava para a Señal 3 de La Victoria, um canal televisivo popular e comunitário do Chile. Em reação à morte da jornalista, o canal publicou na rede social Twitter que “a Francisca não se foi. Ela foi assassinada” e que vão fazer tudo para “encontrar a verdade”. O Presidente da República do Chile, Gabriel Boric, também comentou a perda da jornalista no Twitter. Lê-se: “A violência prejudica a democracia e magoa para sempre as famílias. O nosso compromisso é com a verdade e com a justiça e não descansaremos até o alcançar. Os meus pêsames e abraços à família da Francisca Sandoval, vítima inocente de delinquentes. Não vamos permitir tal impunidade”.

Shireen Abu Akleh

Shireen Abu Akleh, jornalista palestina-americana de 51 anos, foi assassinada na quarta-feira, dia 11, em Jenin, Cisjordânia. A jornalista cobria um ataque israelita na cidade quando foi baleada na cabeça. Shireen já exercia a profissão há mais de 25 anos no canal árabe Al-Jazeera, era conhecida pelas suas reportagens nos territórios palestinianos ocupados por Israel. O canal comentou a morte da jornalista acusando Israel de ter a assassinado a sangue frio.

“Num trágico assassínio premeditado que viola as leis internacionais, as forças de ocupação israelitas mataram, a sangue frio, a nossa jornalista”. – Al-Jazeera, canal árabe.

O canal apela ainda à comunidade internacional que “condene e responsabilize as forças de ocupação israelitas por atacar e matar deliberadamente a colega Shireen”. Em vários vídeos divulgados nas redes sociais, a jornalista aparece devidamente identificada com o colete e o capacete a dizer “Press” (“Imprensa”). O exército israelita nega todas as acusações e explica estar “a investigar o evento e a analisar a possibilidade de os jornalistas terem sido atacados por atiradores palestinianos”.

António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas, falou num comunicado oficial acerca do assunto, referindo estar “horrorizado com o assassínio”. Condena “todos os ataques e assassinatos a jornalistas” e acrescente que estes devem “poder trabalhar livremente sem assédio, intimidação ou medo”. Conclui pedindo uma investigação às “autoridades competentes” e assegura que “os responsáveis devem prestar contas”.

Os Estados Unidos da América também se pronunciaram. Karine Jean-Pierre, mais recente porta-voz da Casa Branca, enviou as condolências à família da jornalista e apela a uma investigação por “entidades independentes”. Numa conferência de imprensa dada na quarta-feira, a porta-voz defende que os EUA vão continuar a apelar à liberdade de imprensa e à proteção dos jornalistas. O governo português também condenou o ataque.

Milhares de palestinianos saíram às ruas para homenagear a jornalista tão bem conhecida no Médio Oriente. O corpo foi transportado desde o hospital até ao Palácio Presidencial de Ramallah, na Palestina, por guardas de honra.

Dois artistas sírios pintam um mural em solidariedade à jornalista assassinada na Cisjordânia. Créditos: Anas Alkharboutli/dpa/picture alliance via Getty Images

Yesenia Falconi e Sheila Johana García

Yesenia, diretora do portal de notícias El Veraz, e a sua repórter Sheila foram baleadas na segunda-feira, dia 9, quando estavam à porta de uma loja de conveniência. O assassinato ocorreu no estado mexicano de Veracruz e aumentou o número de jornalistas assassinados apenas este ano no México para 11. Na rede social Twitter, a Procuradoria Geral do Estado de Vera Cruz anuncia que começou a investigação destes “infelizes eventos” e que reuniu as diligências necessárias para “apurar as causas” e “dar a conhecer os responsáveis”. A procuradoria acredita que a sua profissão tenha sido o motivo pelo qual estas jornalistas perderam a vida. Sheila morreu no local enquanto Yesenia foi levada para o hospital, mas acabou por não resistir aos ferimentos.

A Comissão para a Atenção e Proteção dos Jornalistas de Veracruz informou num comunicado que solicitou “à autoridade ministerial que a atividade jornalística de ambas as comunicadoras seja a principal linha de investigação desse crime covarde”.

A onda de violência contra jornalistas no México tem aumentado significativamente. Na semana passada, o nono jornalista foi assassinado. O corpo do repórter Luis Enrique Ramírez, de 59 anos, foi encontrado numa estrada perto de uma sucata na cidade de Culiacan, no estado de Sinaloa. Segundo a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), o México é atualmente o país mais perigoso para os jornalistas, fora de zonas de guerra. Desde 2000, cerca de 150 jornalistas já perderam a vida no México.

Vários jornalistas iniciaram um protesto em frente ao Anjo da Independência, um monumento nacional localizado na cidade do México. O objetivo é chamar a atenção do governo para a mais recente onda de assassinatos a jornalistas. Em alguns cartazes lê-se “não se mata a verdade matando o jornalista”.

Jornalistas manifestam-se contra a mais recente onde de violência contra jornalistas em frente ao Anjo da Independência, monumento nacional na cidade do México. Créditos: Marco Ugarte / AP

A UNESCO publicou um relatório no ano passado sobre a violência contra os jornalistas. O período analisado foi entre 2016 e 2020 onde se  contabilizaram 400 jornalistas assassinados. A cada 10 assassinatos de jornalistas, em nove o assassino sai impune pelo seu crime. Os jornalistas têm sofrido com diversos tipos de violência como violência online e ameaças físicas. Segundo o relatório, os países onde mais jornalistas morreram foram o México (61), o Afeganistão (51), a Síria (34) e o Íemen (24). Os jornalistas que trabalham nas televisões são apontados como as maiores vítimas de violência contra jornalistas, seguindo-se da imprensa escrita, da rádio e da imprensa online.

O jornalismo é uma das profissões mais importantes para trazer a verdade e criar opinião pública. No entanto, esta atividade tem-se tornado perigosa para muitos. O Jornal Universitário do Porto expressa as suas condolências às famílias dos jornalistas que perderam a vida a exercer a profissão.

Artigo de Sofia Guimarães

Revisto por Inês Santos