Sociedade

Depois da guerra, restam ainda a fome e a doença no Afeganistão

Quase meio ano depois da retomada do poder no Afeganistão pelos talibã, o país atravessa por severas dificuldades que acentuam a crise humanitária da região. A falta de financiamento e a crise económica afetam diretamente a vida da população, 98% não tem o suficiente para comer e 9 milhões de pessoas estão “desesperadas, à beira da fome”, enquanto a restante ajuda humanitária combate o inverno rigoroso da região, numa autêntica “corrida contra o tempo”.
© UNICEF/UN0562569/Romenzi
Modaseer senta-se em frente à entrada da clínica Mirza Mohammad Khan, apoiada pela UNICEF, em Kandahar, enquanto acompanha a sua mãe para uma consulta pré-natal. Fonte: Alessio Romenzi

 

“O mundo não pode ficar de braços cruzados quando no Afeganistão há 9 milhões de pessoa desesperadas, à beira da fome”, alertou na semana passada o porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) de Itália, Andrea Lacomini.

Estima-se que a quase totalidade da população afegã (98%) não tem o suficiente para satisfazer as suas necessidades básicas de alimentação. Esta é “uma das crises mais graves da história”, com “uma duplicação dos casos de desnutrição aguda grave e isto é apenas o começo”, acrescenta Lacomini.

“As crianças são quem paga o preço mais alto: 3,9 milhões sofrem de desnutrição grave”, salientou o responsável, “Este ano, um milhão de crianças no Afeganistão morrerão de desnutrição aguda grave. As camas hospitalares estão sobrelotadas. Há pais sem trabalho, face a uma economia de rastos e com filhos famintos”, e como consequência, “muitas famílias que não têm dinheiro para alimentar os filhos” ficam tão desesperadas que “vendem os mais pequenos, [registando-se um] aumento do trabalho infantil e dos casamentos precoces”.

A Organização das Nações Unidas (ONU) pronuncia-se igualmente sobre a mesma matéria, avisando que a situação atual país “está a aproximar-se de uma catástrofe” e que “a fome poderá matar mais pessoas do que décadas de guerra”.

Ajuda Humanitária

Perante a necessidade extrema de ajuda, os trabalhadores humanitários não só enfrentam a falta de financiamento, como também o rigoroso inverno da região que agrava as dificuldades já previamente existentes. Conciliam-se a estes fatores a falta de meios entre a população para o aquecimento das habitações e da comida, que gera mais pressão e dependência sobre os esforços humanitários.

“Isto é uma corrida contra o tempo, receio que talvez não consigamos acompanhar” refere Shelley Thakral, chefe de comunicações do Programa Alimentar Mundial (PAM) no Afeganistão. “Precisamos de ir ter com famílias em áreas muito difíceis de alcançar. É inverno, faz frio e neve”, descreve. “Nós não temos os fundos necessários e pedimos 2.6 mil milhões de dólares para expandir na medida que devemos em 2022”, acrescenta Thakral, “Neste momento, não estamos nem perto disso”.

Tal como na questão alimentar, a UNICEF alertou para a vulnerabilidade das crianças e os riscos associados à sua condição desprotegida.

“As crianças afegãs estão cada vez mais vulneráveis a doenças e enfermidades devido à combinação mortal de desnutrição crescente, uma crise alimentar sem precedentes, seca, interrupções em centros vitais de saúde e nutrição, falta de acesso e má qualidade de serviços de água e saneamento, e o inverno devastador .”

As temperaturas baixas aumentam o risco de doenças, predominantemente  respiratórias, como a pneumonia e a doença respiratória aguda, entre outras complicações de saúde nesta faixa etária.

“Estamo-nos a aproximar de um momento crítico para as crianças do Afeganistão, já que o inverno traz consigo uma infinidade de ameaças à sua saúde”, refere Abdul Kadir Musse, representante da UNICEF no Afeganistão, realçando emergência da situação atual. “Não há tempo a perder. Sem uma ação urgente e concertada – incluindo a garantia de que temos os recursos para implantar transferências adicionais de dinheiro e suplementos de inverno – muitas das crianças do país não viverão para ver a primavera”.

Financiamento internacional

A retomada do poder por parte dos Talibã no ano passado significou o fim da grande maioria do financiamento internacional, que constituía 80% do orçamento público do país e o funcionamento das suas instituições públicas e políticas.

A suspensão da atribuição de fundos ao país é uma consequência clara da ilegitimidade declarada pela comunidade internacional, que não reconhece o governo talibã.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, solicitou a “comunidade internacional a fortalecer o seu apoio ao povo afegão”, enfatizando a libertação dos fundos congelados pelo Banco Mundial e Estados Unidos, num momento em que o país do Médio Oriente está “no fio da navalha”.

“Instamos os talibãs a aproveitarem este momento e conquistarem a confiança e a boa vontade da comunidade internacional, reconhecendo – e defendendo – os direitos humanos fundamentais que pertencem a todas as meninas e mulheres”, referiu o diplomata português.

De modo a garantir o financiamento de ajuda humanitária, a Comissão Europeia anunciou que vai voltar a ter uma representação física e uma presença “mínima” em Cabul, a capital do Afeganistão.

Peter Stano, porta-voz dos Assuntos Externos da comissão, explica, porém, que “A nossa presença mínima em Cabul não deve ser entendida, de forma alguma, como um reconhecimento”.

Os esforços diplomáticos entre a comunidade internacional e o governo talibã continuam na procura de um consenso que se encontra dependente da garantia e defesa dos direitos humanos da população afegã.

 

Escrito por Vicente Oliveira Ribeiro

Revisão por Beatriz Oliveira