Sociedade

Ações do presente a pensar o futuro: Cidades

O avanço dos problemas ecológicos e sociais nos últimos anos provocou a necessidade de repensar o modo de organização da sociedade e a relação dos cidadãos com as suas cidades. Apresentamos alguns modelos urbanísticos que buscam soluções para o bem-estar e a sustentabilidade. Por Júlia Maciel.
Ilustração: Rachel Merlino

A emergência climática e crises como a pandemia atual trazem questionamentos e reflexões sobre as vivências do futuro. Filmes de ficção científica exibiram cidades flutuantes, carros voadores, entre outras tecnologias. Mas há debates na comunidade acadêmica sobre alternativas sustentáveis e eficientes e como aplicá-las. Abaixo, alguns destes modelos de cidades concebidos para o presente e o futuro: 

Smart cities

As cidades inteligentes procuram resolver  as novas preocupações do século: economia, sustentabilidade e qualidade de vida. Assim, nesse futuro, os municípios usam energia renovável, diminuem as emissões de gases de efeito estufa, tratam do lixo e incentivam um estilo de vida saudável. A união entre tecnologia e planeamento urbano inclui também transformações que reduzem a burocracia e aumentam a interação digital entre os munícipes e os servidores públicos. Contudo, o maior desafio desses municípios é conciliar os desejos da administração pública com soluções tecnológicas exequíveis.

A planificação das Smart Cities necessita, ainda, da participação activa dos moradores. Para isso, no modelo bottom-up, são utilizados diferentes sensores, sistemas de monitoramento e redes móveis para coletar dados – os quais são aplicados no processo de desenvolvimento de novas soluções urbanas. No entanto, a recolha destes dados pelo poder público deve utilizar modelos transparentes nos seus termos de uso e aplicabilidade para não incorrer no uso indevido e infringir os direitos de privacidade.

No centro de Portugal, Aveiro é considerada a cidade inteligente do momento. Este mês, o projeto Aveiro Tech City recebeu reconhecimento pela Universidade de Harvard, na terceira edição dos Annual City Innovation and Innovator Awards, no qual a cidade portuguesa foi distinguida pela forma como conseguiu envolver as pessoas. A iniciativa tem como objetivo “construir e entregar uma cidade mais conectada e inteligente” e almeja fazer uso da tecnologia para resolver as necessidades dos cidadãos.

“Escolhe participar!”

Eleito pela ONU como uma das 40 melhores práticas de gestão pública, os Orçamentos Participativos (OP) são outra maneira de ouvir as necessidades da população; e em Portugal, já são vários os concelhos que implementaram esse mecanismo. 

“Lisboa participa”, por exemplo, é o portal de participação da capital portuguesa. O canal digital permite a intervenção pública ativa em parte do orçamento municipal, no qual os cidadãos podem propor e eleger projetos de interesse para a cidade.

A edição de 2021 aborda temas de combate às alterações climáticas, implementação de energia limpa, sustentabilidade ambiental, mobilidade inteligente e a prática de desporto, bem como a promoção do bem-estar. O projeto recebeu 251 propostas e neste momento está em fase de análise técnica. O calendário completo pode ser visto aqui

Acessibilidade e proximidade

Trabalho, lazer, estudo e descanso foram algumas das esferas do quotidiano que sofreram mudanças devido à Covid-19. Contudo, a pandemia não mudou aspectos somente da porta para dentro. No espaço urbano, tudo precisou ficar mais perto e acessível, subitamente, a fim de evitar o uso excessivo dos transportes públicos.

A partir desse pensamento, o  urbanista Carlos Moreno apresentou em 2019 a noção de “cidade de 15 minutos”, a qual propõe que a essência da experiência urbana esteja a uma caminhada de distância, ou a cidade de proximidades.

Fonte: Paris en Common via Archdaily

“Temos de avaliar bem como usamos o nosso espaço. Para que serve esse espaço? Quem está a usá-lo e como?”, são as palavras do urbanista parisiense sobre quais são os primeiros passos para criar essa estrutura, focada menos nos carros e mais nas pessoas. A planificação inclui um processo de descentralização, criando serviços básicos para cada vizinhança, transformando ciclovias em espaços de lazer e estimulando negócios locais.  

Batizada de “ville de quart d’heure”, Paris foi a primeira cidade a implementar esse modelo sob forma de planeamento urbano anunciado na campanha de reeleição da prefeita, Anne Hidalgo. A autarca anunciou que o processo de revitalização tem o objetivo de tornar a capital mais eficiente, além de criar áreas social e economicamente diversas. Hidalgo também anunciou outras estratégias como estimular o home office, plantar mais árvores e a criação de ciclovias em todas as ruas da cidade.

“Revolução civilizacional”

Em contrapartida ao conceito de Moreno, a cidade futurista da Arábia Saudita terá 170 km de extensão, em forma de uma longa linha, e capacidade de abrigar 1 milhão de habitantes. O megaprojeto chamado “The Line” foi apresentado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman no começo de 2021 que ambiciona tirar do papel os planos de sustentabilidade já há muito discutidos. 

Assim, The Line será “zero carros, zero estradas, zero emissões de CO²” e preservará 95% das áreas naturais da região. A planificação implementará um Hyperloop, que será responsável por permitir que os moradores atravessem a cidade de uma ponta a outra em menos de 20 minutos. Além disso, toda a infraestrutura da cidade será subterrânea e os sistemas serão operacionalizados por inteligência artificial.

“Devemos transformar as cidades em cidades do futuro”, disse o líder do país,  mencionando uma “revolução civilizacional”. A construção será financiada pelo Fundo Saudita de Investimento Público e estará localizada em Neom – noroeste do país.

A construção vai gerar 380 mil empregos e sua contribuição para o PIB é estimada em 180 bilhões de riayls (aproximadamente 40 milhões de euros), de acordo com o conselho da empresa criada pelo governo saudita para gerir o projeto de construção da cidade-região. 

O direito ao lugar

Ao mesmo tempo em que novas tecnologias surgem, a necessidade do sentimento de pertencimento entre os moradores cresce. Nessa lógica, o projeto LigAções reflete sobre a assimetria presente nas grandes cidades e áreas urbanas.

Constituída por diferentes organizações da sociedade civil do centro de Portugal, a iniciativa é autora da Carta Aberta Pelo Direito do Lugar, que objetiva contribuir para o reforço da cultura democrática e a consciência cidadã no país. O texto protesta contra questões como a falta de emprego, a bolha imobiliária, além de denunciar o consequente êxodo das regiões urbana e rural. 

“Da nossa parte, há uma firme determinação em lutar para que todas as pessoas, quer habitem em zonas rurais quer habitem em zonas urbanas, vejam reconhecido e protegido o seu direito ao lugar”, diz a Carta.

“Na nossa perspectiva, ter direito ao lugar é ter a possibilidade de ‘viver no lugar’ e de ‘viver o lugar”, Carta Aberta pelo Direito do Lugar.

Resoluções, no entanto, também são contempladas pelo projeto, sendo o  incremento da oferta de habitação de renda controlada e a maximização dos espaços públicos algumas delas. Quanto ao último, a Carta fala sobre a criação de pequenos jardins e hortas urbanas comunitárias. Nesta perspectiva, a horta comunitária do Porto representa uma concretização dos ideais do LigAções. 

O que antes era entulho, tornou-se vida na escarpa das fontainhas. Lá, moradores e jovens decidiram ocupar o espaço abandonado e iniciar ações de cultivo. A área pode ser frequentada por todos que desejarem ajudar ou simplesmente aproveitar da liberdade proporcionada pelo rio Douro em meio ao confinamento. 

Atualmente, os ocupantes temem pela expulsão e aniquilação do projeto pela autarquia. Carlos Nelson, morador das Fontainhas, em entrevista ao Jornal da Tarde, pede “não nos tirem daqui”. 

A horta comunitária das fontainhas é um exemplo de espaço de autogestão e é conhecido por ser um lugar de troca de ideias e valores. O projeto ainda ajuda a comunidade, pois muitos dos produtos lá cultivados são postos para doação às famílias carentes. 

Texto de Júlia Maciel. Editado por Inês Santos e Laís França.