Sociedade

Ações do Presente a pensar o Futuro: Consumo

O consumo como parte determinante da sociedade contemporânea - questionado há décadas - é colocado em xeque diante das desigualdades amplificadas em uma pandemia que dura há mais de um ano. De que forma isto modificou a percepção de milhões de pessoas sobre suas prioridades e valores? Por Laís França.
Ilustração: Rachel Merlino

 

O antropoceno impõe mudanças climáticas e um colapso ecológico lembrado anualmente por cientistas e pesquisadores. O jornal The Guardian apresentou um relatório da empresa de seguros Swiss Re, que demonstra que 20% dos países do mundo estão em graves riscos ambientais devido à degradação dos ecossistemas. Mais da metade da produção económica global depende do equilíbrio e funcionamento da biodiversidade, no entanto, nenhum dos objetivos acordados na última década para proteção ambiental foram atingidos completamente (pela segunda década consecutiva).

A Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu diversas estratégias na sua Agenda para 2030, entre elas o ODS 12 – Produção e Consumo Sustentáveis. Este objetivo incorpora a necessidade de alcançar a gestão sustentável e o uso eficiente dos recursos naturais, evitar o desperdício e a mudança para padrões mais sustentáveis de produção e consumo. Mas de que forma isto se manifesta em mudanças reais?

A posição dos atores públicos e privados é fundamental para a redução das desigualdades estruturais provenientes do sistema de capital e consumo atual. Jason Hickel, antropólogo da London School of Economics, salienta que em qualquer apresentação que faça sobre as questões do consumo e a emergência climática alguém aponta a responsabilidade dos problemas atuais sobre a superpopulação do planeta. A esta colocação ele responde: “o verdadeiro problema é que existem muitos ricos”. O gasto médio anual de um residente em um país desenvolvido é de 28 toneladas de bens materiais. Em contraste, as pessoas em países em desenvolvimento consomem menos de duas toneladas por ano. Para o especialista, o consumo precisa ser reduzido em 75% da média atual. 

Para uma mudança estrutural exige-se ações estruturais por parte dos governos, empresas e cidadãos. Ao falarmos da dimensão individual da nossa participação nestes indicadores, considera-se a transformação de paradigmas comportamentais. 

Alyne Costa, filósofa dedicada a estudar o Antropoceno nos últimos oito anos, afirma em entrevista que “não podemos mais ver a natureza como um cenário inerte. Pense por exemplo no coronavírus ou no dióxido de carbono: a maneira como eles vêm se comportando tem causado mudanças profundas no nosso modo de vida, o que permite dizer que eles vêm agindo sobre nós e exigindo transformações para que possamos melhor coexistir”. Sua tese de doutorado, premiada no Brasil, repensa  a relação entre seres humanos, natureza e conhecimento científico.

Projetos de economia circular e colaborativa permitem que o consumo seja repensado para práticas mais sustentáveis, e as empresas verdes (green economy) também modificam as suas produções em busca de menos impacto ambiental. Mas é preciso considerar que o consumo ético pode levar a um viés: o consumidor muitas vezes compensa o benefício de se tornar verde consumindo mais. Este comportamento contraditório foi constatado em uma pesquisa, que demonstra que atitudes responsáveis precisam considerar também a redução do consumo.

O minimalismo como método:

Esta noção de simplicidade, tradicionalmente atribuída à cultura tradicional japonesa da filosofia Zen, obteve alcance global com o movimento de pessoas que incorporam o lema “menos é mais”. A sua adaptação para a cultura ocidental baseia-se na consciencialização das escolhas, que substituem os impulsos contínuos que permeiam as compras realizadas online ou em grandes centros comerciais. Este método sensibiliza tanto sobre as decisões individuais de dar menos valor aos objetos quanto para o posicionamento político que um cidadão pode ter.

Seja na moda, alimentação, eletrônicos, móveis ou outros bens materiais, plataformas e redes de apoio tem facilitado a prática do minimalismo na rotina:

  • Troque e doe seus utensílios
  • Compre usados
  • Compre de pequenos produtores
  • Repense sobre qualidade x quantidade

Em Portugal, a Rede Social do município de Esposende criou a Loja Social em 2011, pioneira neste modelo de empreendedorismo social baseado na colaboração. Este ano completam dez anos de atuação, em que o premiado projeto possibilita o acesso a bens de primeira necessidade por parte das famílias do concelho que comprovadamente apresentem carências socioeconómicas, bem como a possibilidade de troca de todo o tipo de bens à comunidade em geral. No último mês, a celebração deste marco incluiu a inauguração de novas instalações e o novo nome Loja Social + Colaborativa para ampliar a prática em uma plataforma integrada de trabalho voluntário, permutas e ação social.

 

Texto de Laís França. Revisto por Inês Santos.