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“A Terra esgotou a sua paciência, e nós também!”

“A Terra esgotou a sua paciência, e nós também”. É este o lema que lidera o movimento estudantil que visa alertar para as alterações climáticas, sensibilizando e educando os agentes sociais. Por Carina Seabra.
Foto: Lusa/Mário Cruz

A 19 de Março de 2021, os diferentes núcleos da GCE, bem como as organizações que a subscrevem, uniram-se no formato presencial e, principalmente, no meio digital, servindo-se da sua voz crítica para que pudessem contrariar a ação do Climate Clock, que teima em acelerar – cada segundo desperdiçado alinha-se com um aumento da temperatura global.

As ações físicas tiveram lugar no Algarve, Aveiro, Lisboa, Mafra e Montijo. Digitalmente, ativistas das redes do Alcácer do Sal, Bragança, Caldas da Rainha, Coimbra, Entroncamento, Évora, Guimarães, Lamego, Odemira, Pico, Porto, Setúbal e também Viseu movimentaram-se no sentido de responder à convocatória global da Fridays for Future, disseminando a educação ambiental, vociferando que não aceitarão mais promessas vazias, hashtag que liderou o movimento, e reunindo cartazes e fotografias em larga escala, apelativas à justiça climática.

A Greve Climática Estudantil procura reivindicar principalmente que, às transformações sofridas pelo planeta Terra e motivadas essencialmente pela ação humana e pela industrialização, se aliem mudanças ao nível institucional, governamental e cívico.

A ebulição dos movimentos sociais em defesa do meio ambiente

Em março de 2018, Greta Thunberg, uma jovem estudante sensível às causas ambientais e às fracas políticas orientadas nesse mesmo sentido, incorre num momento de resistência, faltando às aulas para, em conjunto com vários outros jovens ativistas, se impor perante o parlamento sueco. A jovem procurou, desta forma, quebrar com a inércia e  insuficiência de ações públicas  na questão das alterações climáticas. 

Dada a urgência do tema, surgem as Fridays for Future, um movimento que se caracteriza pela ausência contínua dos estudantes às aulas, ao longo de várias sextas-feiras, para que possam lutar pela ação imediata dos governos. Este método de protesto tem sido difundido pelas diferentes partes do globo, chegando a Portugal pela voz impactante da Greve Climática Estudantil (GCE).     

A atuação da Greve Climática Estudantil

A GCE consiste numa coletividade estudantil que procura, por meio da formação de vigílias, orientação de palestras académicas e ação em virtude da conscientização face ao meio ambiente, combater as políticas que estimulem o incremento da emissão de gases de efeito de estufa. 

Fazem parte do manifesto da GCE a suspensão da dragagem do rio Sado e dos investimentos no ramo da aviação, bem como a da promoção da utilização de combustíveis fósseis, já que, através deles, estamos a contribuir para a destruição de ecossistemas e potenciação das emissões, ou seja, para que mais grãos se dissipem.

Em função do confinamento global motivado pela pandemia do vírus SARS-COV-2, houve uma redução considerável da emissão desses gases, mas, com a reabertura das indústrias, aliada à produção massiva, são previstas repercussões catastróficas para o ambiente.

Desde as primeiras marchas do clima até ao despontar de uma crise de saúde que abalou o mundo inteiro, o relógio continuou a contar. Com o fogo a avançar, arderam florestas, derreteram calotes polares, extinguiram-se espécies, furaram-se terras em busca de petróleo e foram emitidos mais gases com efeito de estufa do que nunca” CGE

O Climate Clock conta apenas seis anos restantes

Por via da colaboração entre diversos artistas, cientistas e ativistas, surge, em 2019 e às mãos de Gan Golan e Andrew Boyd, o Climate Clock. Este instrumento encontra-se exposto em Nova Iorque e dita quanto tempo resta à humanidade para que possa combater o impacto da ação humana no planeta Terra, cujas consequências se encontram expressas no rápido aumento da temperatura global. Quando o famoso relógio marcar as 00h00, o planeta Terra terá atingido um aumento total de 1,5ºC da sua temperatura, momento em que serão irreversíveis as catástrofes climáticas que se farão notar ao nível global.

É, na perspetiva dos inúmeros ativistas ambientais que se aliam a esta causa, fulcral que possamos todos entender o impacto que cada indivíduo isoladamente possui na promoção do equilíbrio dos ecossistemas. Também o papel da diversidade enquanto fator da vida se mostra fundamental, já que, como nos diz o economista Rogério Roque Amaro, “quando perdemos diversidade, caminhamos para a morte”, pelo que é o dever de todos nós promover a ação social orientada no sentido da colmatação dos dezassete objetivos do desenvolvimento sustentável, propostos em 2015 pela ONU.

 Da revolução industrial chegaram-nos inúmeras vantagens, como é o caso do aumento da esperança média de vida, contudo, o fenómeno do envelhecimento demográfico também se orientou nesse sentido e as alterações comportamentais dos indivíduos, acompanharam o processo. Anos depois, contamos com inúmeras crises sanitárias, políticas e sociais, incluindo a crise ambiental, que continua a agravar-se. A ampulheta que dita o tempo de vida sustentável que ainda despendemos encontra-se cada vez mais escassa. É urgente a consciência para a mudança social, porque a Terra esgotou a sua paciência, e nós também.

Artigo de Carina Seabra. Revisto por Amanda Ribeiro Silva.