Sociedade

Meu sangue: estigma social e desigualdade de género

Em pleno século XXI, a desigualdade de género permanece. Lentamente, vão surgindo novas formas de combater os problemas relacionados: disponibilização de produtos menstruais gratuitos, consciencialização de diferenças salariais, manifestações, documentários educativos. Por Beatriz Oliveira.
Presskit “O Meu Sangue” / Tota Alves

Verifica-se que a desigualdade de género tem vindo a arrastar-se pelos tempos de hoje, moldando-se conforme o ambiente social que atravessa. Tal como Luís de Camões escreveu: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, mas o problema nunca cessou. Apesar da lenta evolução, presencia-se uma crescente tentativa em acabar com a raiz deste mal. Uma das razões pela qual se vive ainda esta desigualdade é a falta de informação, o desconforto em falar sobre temas que afetam apenas um dos géneros. 

Observando uma linha do tempo de eventos, só em 1893 é que pela primeira vez, as mulheres na Nova Zelândia tiveram o direito de voto. Em cada país, este direito foi alcançado, custosamente, mais tarde. O país mais recente a englobar o voto das mulheres foi a Arábia Saudita, em 2015. Já em Portugal, Carolina Beatriz Ângelo (1879-1911) foi a primeira a votar devido a um lapso que encontrou na legislação eleitoral. Foi a primeira mulher portuguesa a votar em eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, o que mereceu a cobertura da imprensa europeia. Nas décadas seguintes as mudanças na lei eleitoral permitiram que algumas mulheres pudessem votar. Mas somente após 25 de Abril de 1974, houve a total abolição das restrições ao voto feminino. Não seria de esperar que os restantes problemas associados à diferença de direitos deixassem de existir. 

Por outro lado, de forma inevitável, caso se tenha nascido com o par de cromossomas iguais (XX), não existem muitas escolhas sobre a menstruação a partir de uma certa idade. Deste modo, seria de esperar que já existisse disponibilidade de produtos menstruais gratuitos. Recentemente, esta medida foi tomada na Escócia, para todas, e também na Nova Zelândia, apenas para estudantes, tendo já existido uma proposta semelhante que foi recusada em Portugal. 

Neste contexto, discutimos sobre este tema com Tota Alves, que além de ser ativista feminista, realizou a série O Meu Sangue, disponibilizada gratuitamente na plataforma RTP Play. Nesta série documental, fala-se sobre a menstruação e as perspectivas de pessoas de idades e contexto diferentes. A questão central que apresenta o documentário é a seguinte: “como é que algo tão natural, que gera vida, pode causar repúdio ou nojo?”

 

No documentário “O meu sangue”, uma das perguntas que se coloca é o porquê da menstruação continuar a ser um tabu na sociedade. Na tua opinião, qual o principal motivo?

O principal motivo da menstruação ser um tabu na sociedade é porque é um sangue que sai da vagina. Todas as pessoas sangram de muitos sítios diferentes: sangramos do joelho se cairmos. Esse sangue já não é considerado tabu e nesse caso, ninguém os esconde nem têm vergonha deles. Mas este sangue em particular, como sai da vagina, é todo um problema.

O principal motivo da menstruação ser um tabu na sociedade é porque é um sangue que sai da vagina.

Recentemente, a Escócia passou a ser o primeiro país a tornar gratuito o acesso a produtos menstruais. Também a Nova Zelândia passa a oferecer estes produtos nas escolas. Ambas as medidas são vistas de forma positiva, mas há sempre quem critique, justificando ser uma despesa sem sentido. Quem tem esta opinião terá tido menos educação, menos experiência no que toca a este tema? Em geral, homens, uma vez que nunca tiveram essa experiência?

Presskit “O Meu Sangue” / Tota Alves

Acho que o argumento económico que as pessoas dão à gratuitidade dos produtos menstruais é bastante mesquinho. Se formos a analisar esses dados, esses custos são à escala de uma migalha. Não é nada que seja impossível e o nosso Serviço Nacional de Saúde já disponibilizou gratuitamente o acesso a preservativos e pílulas. Portanto, existe espaço para que haja gratuitidade de produtos que se consideram de saúde básica. Não percebo porque é que há esse tipo de argumentos. Em relação às pessoas que são contra, sim, são maioritariamente homens que – na minha opinião – não tem grande contribuição a dar a esta discussão, porque não é algo que eles vivem.

A propósito dessa medida, chegou a ser feita essa proposta da tua iniciativa através do bloco de esquerda. Houve bastante apoio? Verifiquei que o PS e CDS ambos votaram contra.

Sim, eu e outras companheiras – Catarina Maia, Clara Não, e Patricia Lemos – fizemos um projeto-resolução com o BE, com a deputada Sandra Cunha. Fizemos dois na verdade: um sobre o diagnóstico precoce de endometriose e o seu tratamento, sendo que este foi aprovado, embora ainda sem efeito prático visível. E outro sobre a gratuitidade de produtos de recolha menstrual em cuidados de saúde primários: em centros de saúde e escolas; sendo que essa proposta foi chumbada. Fiquei muito admirada com o voto contra do PS, que se justifica dizendo que essa proposta já exista no orçamento do Estado, ainda que não tenha sido aplicada.

A proposta que eles têm nem sequer é concreta, é muito vaga. Falam em higiene íntima feminina e não sei bem em que é que isso se concretiza. Na prática não aconteceu de todo. Portanto, estamos a falar no campo do imaginário e não das coisas concretas. O projeto-resolução foi feito na procura da necessidade de se pensar seriamente sobre isto, e de levar a palavra menstruação ao parlamento. Não é higiene íntima feminina, é menstruação. É algo que tem um nome e que tem de ser falado como tal para combater este estigma e tabu.

Na escola, pela experiência que tive, penso que se dá mais importância à educação sexual, doenças transmissíveis, entre outros. Mas nunca, em nenhum momento, falamos muito sobre a menstruação, nem sequer das consequências, como as dores, que por vezes não deveriam ser consideradas normais. De um modo geral, ainda não temos muita educação nas escolas sobre isto.

Concordo, nem na escola nem nos centros de saúde. Na escola, nós aprendemos aquilo a que se chama o sistema reprodutor. Aquilo que nos dizem é que a menstruação é o que nos permite sermos mães. Dizem-nos isto, aos 11/12 anos e acho que é correto que se diga, mas essa é apenas uma das características e valências da menstruação. No entanto, não se finda aí. A menstruação é muito mais do que isso, é um reflexo da nossa saúde, é uma forma de conhecermos melhor o nosso corpo, é a libertação. Aliás, a menstruação é apenas uma parte do ciclo menstrual, é algo que tem toda uma complexidade muito grande, que nos permite conhecer de diferentes maneiras; implica a questão hormonal, por exemplo. No entanto, nos centros de saúde as consultas de planeamento familiar são só para as raparigas e que por si só é uma demonstração de um sistema de saúde machista, que vê a reprodução como única e exclusiva responsabilidade das mulheres. 

Depois, existe um grande impingimento da pílula, mal uma rapariga diz que sim, que tem a sexualidade ativa há logo uma tentativa de fazer com que tome a pílula, como se não houvesse outros métodos contraceptivos e não explicam realmente como funciona. Não dizem que a menstruação vai parar, por exemplo. Não dão informação suficiente sobre o próprio ciclo menstrual, ou não tentam explicar o que é ou descobrir as origens das dores ou das espinhas. De repente, a pílula é um medicamento para tudo e mais alguma coisa.

A menstruação é muito mais do que isso, é um reflexo da nossa saúde, é uma forma de conhecermos melhor o nosso corpo, é a libertação.

Falando novamente na escola, quando foi a primeira vez que te falaram sobre feminismo? Por exemplo, por experiência própria, parece que nas aulas de história passamos sempre à frente as sufragistas, todo o movimento feminista, focando-se mais na História de Portugal, e há muita coisa que fica por dizer.

Sou uma apaixonada por história e a minha licenciatura é precisamente em História e vivi com muita tristeza esses factos que indicaste. O desprezo total pela História das mulheres e das pessoas comuns. Aquilo que se passa, são os supostos heróis, supostos monarcas e dirigentes do país e dá-se muito pouco valor ao que se chama a História da vida privada. No meu curso tinha muito interesse e fiz trabalhos sobre práticas de higiene no séc. XVIII. Há muitos outros temas a serem abordados de um ponto de vista histórico.

Quanto ao feminismo, quando andei na escola, o feminismo ainda era um palavrão que não estava tão divulgado como agora. Felizmente, essa palavra agora está na boca de mais gente. Descobri o feminismo não pela escola mas através de militância que comecei muito nova, aos 15 anos já estava organizada e já ia a debates. Na altura haviam algumas organizações que já não existem e em 2007 fiz a campanha Sim Ao Aborto, ao referendo. Desde nova que estes assuntos fazem muito parte da minha vida e agora tenho quase 31 anos e sinto que metade da minha vida já foi nesta luta por uma sociedade mais igualitária.

À medida que se avança com este tipo de medidas, relativamente à educação e disponibilização de produtos menstruais, parece que há sempre uma força de sentido contrário, a impedir o desenvolvimento. Por exemplo, nas últimas eleições a quantidade de votos que a extrema direita teve.

Sim, acho que nenhum direito é eterno e garantido. É muito importante lembrarmo-nos e celebrarmos as vitórias, como a questão do referendo do aborto, por exemplo. Muitos direitos que vemos hoje como garantidos, podem de momento deixarem de existir, refiro-me ao caso da Polónia que teve um retrocesso recente na lei de aborto. É de continuar a luta pelos nossos direitos e lembrar que os direitos que temos agora foram frutos de uma luta que deve ser eternamente celebrada, e não esquecer todas as pessoas que fizeram parte dela.

Muitas vezes na internet e pelas redes sociais, sinto que há esta nova “onda” de feministas e acho muito bonito isso, mas não podemos esquecer das senhora que estão em casa, sem acesso a redes sociais ou smartphones, e que também lutaram pelos nossos direitos, para que hoje as nossas preocupações fossem para além do direito a voto, que hoje é garantido.

É de continuar a luta pelos nossos direitos e lembrar que os direitos que temos agora foram frutos de uma luta.

Recomendas algum livro ou filme em particular que te tenha inspirado?

Ando bastante mergulhada em cinema feminista, feito por mulheres, sobre mulheres. Isso dá uma qualidade aos filmes que muitas vezes me emocionam pela profunda relação que conseguimos estabelecer com aquelas personagens. De fácil acesso, aconselho muito o filme Atlantique, disponibilizado na Netflix, que se passa no Dakar. Também aconselho o filme, que está na plataforma Filmin, Corpo Celeste de Alice Rohrwacher, também sobre uma menina que menstrua, sendo uma das histórias que engloba. Quanto a séries, Fleabag e I May Destroy You. Relativamente a livros, por acaso acabei de ler um ontem, que foi bastante acessível e pequeno, é o Como Educar para o Feminismo, de Chimamanda Ngozi Adichie. É uma carta que a autora escreveu para uma amiga que teve uma filha e lhe perguntou como é que ela poderia educar a filha quanto a este tema. A autora divide esta carta em quinze sugestões de pensamentos para a educação da filha.

Como foi a experiência de entrevistar várias pessoas diferentes para a série O Meu Sangue? Em particular, quando acabei de ver, deparei-me com vários temas que nunca tinha ouvido falar, como por exemplo o ritual angolano que se menciona: Fico.

Procurei criar uma narrativa de ping pong em que as pessoas que entrevistei iam se contradizendo umas às outras, ou acrescentado novas formas de ver a menstruação, sem qualquer tipo de moralismo. O caso do Fico, foi um de muitos exemplos que celebram a menarca (primeira menstruação), pelo mundo todo. Também uma das mulheres que entrevistei, referiu que menstruar é ser mulher, quando logo a seguir apresento uma mulher que nunca menstruou e também um homem que menstruou, criando contradições e explorando o conceito. Uma das coisas em comum, que todas referiram foi a cor do período, o vermelho forte nos lençóis e nas cuecas. No último episódio da série apresento a Sónia, que é uma pessoa cega e que nunca teve essa experiência.

 

Texto de Beatriz Oliveira. Editado por Laís França.