Sociedade

Trinidade e Tobago – o palco da violência de gênero

Trinidade e Tobago, as duas ilhas Situadas nas Caraíbas, têm sido palco de vários episódios de feminicídio e violência contra as mulheres. Crimes como o sequestro, violação e assassinato não são incomuns na região. Por Inês Santos.
Imagem de protesto extraída da conta de Twitter @karishmaa_m

Atualmente, as ilhas estão a lidar com uma onda de assassinatos e de violações de mulheres. O problema não é recente, mas tornou-se mais frequente nos últimos meses. As mulheres da região queixam-se da falta de proteção e de ação por parte do governo.

Em novembro de 2020, a jovem Ashanti Riley, de apenas 18 anos, desapareceu depois de entrar num táxi Private Hire perto de sua casa. Ashanti estava a caminho do aniversário da sua avó, mas nunca chegou ao destino. O seu corpo foi encontrado a 4 de dezembro, cinco dias após o seu desaparecimento, depois de ter sido espancada e esfaqueada.

A autópsia  revelou vários ferimentos no seu tórax e abdômen, assim como traumatismo contuso no lado esquerdo do tórax. O condutor do táxi, Luciano Quash, de 33 anos, foi acusado do assassinato da jovem. Como mais tarde foi descoberto, condutor já era conhecido na comunidade como um predador depois de ter sido acusado de violar uma menor em março do mesmo ano.

Dois meses depois, a 29 de janeiro deste ano, Andrea Bharatt, de 23 anos, desapareceu. A jovem foi vista pela última vez a entrar num táxi com uma colega depois do trabalho e nunca voltou para casa. A amiga de Andrea foi deixada pouco tempo depois à porta de casa e desde então não se sabe onde possa estar. Ao final da tarde, o pai da vítima ligou à filha e um homem desconhecido atendeu avisando que, se o regate não fosse pago, as orelhas da jovem seriam cortadas e enviadas à família.

O seu corpo foi encontrado em estado de decomposição 6 dias após o desaparecimento, num precipício nas  “Heights of Aripo” em Arima. A morte da jovem causou uma grande revolta na população, dado que um dos suspeitos do crime enfrenta 70 acusações nos tribunais de Trinidade e Tobago e recebeu várias fianças por parte dos magistrados em ambas as ilhas. Dentro das acusações, estão crimes como violação, sequestro, agressão sexual grave, tráfico de droga e porte de arma. Até à data, dois suspeitos do crime morreram.

Várias vigílias à luz de velas e protestos silenciosos tomaram conta das ruas de inúmeras partes do país. Os protestos silenciosos ocorreram à frente da Red House, sede do Parlamento da Républica de Trindade e Tobago, desde que o corpo de Andrea Bharatt foi encontrado até ao dia do seu funeral. Os apelos para proteger as mulheres e também para educar os homens ficam mais altos a cada dia.

Uma fonte local que não quis se identificar revelou ao JUP que, no dia do funeral de Andrea, a 12 de Fevereiro, mais de 300 negócios fecharam portas como sinal de respeito pela jovem e também como forma de mostrarem apoio ao fim da violência de gênero.

No dia 13 de fevereiro, uma ONG intitulada de “Tobago Men Making A Difference”, organizada pelo ativista comunitário Jaiye Melville, realizou uma caminhada solidária apelando ao fim do crime e violência contra as mulheres. Empresários, ativistas comunitários, políticos e também líderes religiosos fizeram parte do evento solidário.

Muitas tem sido também as reações por parte dos usuários das redes sociais, que as utilizam como forma de protesto, de denúncia e até mesmo como meio de pedir orações para as famílias das vítimas.

Também famosos, como é o caso da rapper Cardi B, que tem ascendência do país, foi ao seu Twitter para falar sobre a situação. Em resposta a uma utilizadora que postou a fotografia de uma vigília, a rapper escreveu “Sinto que neste ano e no ano passado vimos tantos crimes nojentos e maldades acontecerem devido à pandemia … Odeio que pessoas indefesas, especialmente mulheres, estejam a passar por esse mal…”.

O que aconteceu no país após a comoção sobre a morte de Andrea Bharatt?

Mesmo após a morte Andrea, os sequestros no país continuaram a aumentar. Na semana passada, três homens foram detidos após alegadamente terem assaltado duas mulheres e as terem tentado sequestrar, em Port of Spain, capital do país.

De acordo com o jornal Loop, em declarações à polícia, as vítimas contaram que estavam a caminhar no passeio quando um carro parou ao seu lado. Dois homens saíram do veículo e agarraram nas carteiras das duas mulheres, anunciaram o assalto e começaram a puxa-las para dentro do carro. As vítimas resistiram e desencadeou-se uma luta. As mulheres conseguiram escapar dos seus agressores e começaram a correr pela rua a gritar. Testemunhas contactaram a polícia, que mais tarde intercetou o veículo com os suspeitos.

Na mesma semana, o jornal Trinidad Express noticiou a tentativa de sequestro de um jovem de 17 anos. A polícia relatou que o jovem estava a caminhar para uma savana perto de sua casa quando um veículo parou ao seu lado. O adolescente contou que lutou contra os homens e que saltou do veículo em movimento. Pouco depois foi abordado por uma mulher, que entrou em contacto com a sua mãe e foi levado à esquadra para apresentar queixa.

Em resposta aos vários apelos da sociedade para legalizar a utilização de armas não letais como forma de dar às mulheres uma oportunidade de luta, o Concelho de Segurança Nacional do país aprovou o uso de gás pimenta. Contudo, o Primeiro-Ministro informou pouco tempo depois que serão necessárias autorizações para o uso da arma não letal como utensilio de autodefesa. O Primeiro-Ministro não avançou um prazo, apenas afirmou que o caso está a ser tratado como prioridade.

Em 2020, 45 mulheres e 2 jovens foram assassinadas no país.  Segundo o jornal Trinidad Express, o país apresentou um total de 528 casos relatados e denunciados de violência doméstica em 2020, registando assim um aumento de 296 casos face às  232 denúncias em 2019.

Artigo da autoria de Inês Santos. Revisto por Amanda Silva.