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O vírus e a fome: infortúnios da Invicta infetada

O Porto é um dos concelhos mais afetados do país, e os sem-abrigo estão nesta fase especialmente vulneráveis. O voluntariado procura adaptar-se às novas circunstâncias. Por Olívia Almeida
A situação dos sem-abrigo fica particularmente fragilizada com a pandemia do Covid-19. Fonte: scmp.pt
A situação dos sem-abrigo fica particularmente fragilizada com a pandemia do Covid-19. Fonte: scmp.pt

Take away and take it free!

Uma das medidas de contenção do surto foi o fecho dos restaurantes, que apenas passaram a poder ter serviço take away ou entrega ao domicílio. Assim, dada a descida histórica de circulação de pessoas e as suas ofertas aos que vivem na rua, os sem-abrigo tornaram-se mais vulneráveis do que já eram.

Deste modo, muitas das cozinhas decidiram pôr “mãos à obra” no que toca a ajudar quem mais precisa. No Porto, um desses grandes exemplos é a cozinha do Oficina, um restaurante de renome.

Voluntariado persiste apesar da pandemia

Pela mesma razão, existem também voluntários que se oferecem para combater não o vírus mas a fome, a qual quando não satisfeita é mais mortífera do que a própria pandemia.

Mariana Castro Moura é um desses casos exemplares: na zona da Boavista entrega sozinha doze refeições por dia, as quais são financiadas através de apoios que consegue angariar.

Formada em Direito, já conhece todas as zonas onde se encontram os sem-abrigo e afirma que o facto de os “bebedouros da cidade terem sido desligados e terem perdido o acesso aos centros comerciais para encher as garrafas nas casas de banho aumentou-lhes os problemas“.

Forças armadas e de segurança conjugam esforços

É de sublinhar, no entanto, o facto das Forças Armadas, segundo anunciado pelo Governo, se encontrarem preparadas caso haja escassez de voluntários auxiliares da população sem-abrigo, especialmente para a distribuição de comida.

A declaração do estado de emergência veio condicionar a permanência de pessoas na via pública, mas o trabalho dos agentes de autoridade não passa pela simples expulsão dos sem-abrigo da rua, pois, e como reconhece Carlos Feijó, agente principal da Polícia de Segurança Pública (PSP): “nós temos consciência que eles não têm mais nenhum sítio para onde ir”.

Hospital Joaquim Urbano disponibiliza quarenta camas

Outras 40 camas estão igualmente disponíveis num Centro de Emergência montado no antigo Hospital Joaquim Urbano, em Bonfim, onde se reúnem atualmente os restaurantes solidários do Porto. A Santa Casa da Misericórdia da cidade não foge ao movimento criado e providencia dez camas para os sem-abrigo da cidade que possam vir a ficar infetados com o covid-19.

De hotéis de luxo a abrigos de grupos de risco

Na sequência do combate à pandemia do covid-19, não faltaram hotéis a oferecer alojamento para os profissionais de saúde que dele necessitassem. O Hotel Moov Porto Norte foi um deles.

A colossal quebra de reservas que se tem vindo a verificar levou a que este hotel cancelasse todas as outras que ainda tinham previstas para libertar o edifício e colocá-lo à disposição dos profissionais de saúde. Quanto aos seus colaboradores, voluntariaram-se de imediato, de forma também a manterem o seu emprego, para deixarem as suas habitações e também se acomodarem no hotel, sustentando assim todos os serviços. A empresa em questão avançou igualmente estar a ser executado um rigoroso plano de contingência no hotel.

Artigo de Olívia Almeida. Revisto por Miguel Marques Ribeiro