ALEXANDRA LOPES: “NÃO SOMOS EDUCADOS PARA A DIFERENÇA” – Jornal Universitário do Porto
Sociedade

ALEXANDRA LOPES: “NÃO SOMOS EDUCADOS PARA A DIFERENÇA”

Em entrevista ao JUP, Alexandra Lopes reflete sobre preocupações com a integração das pessoas com deficiência em várias vertentes e os objetivos do primeiro congresso Internacional Deficiência e Cidadania – Desafios da (A)Normalidade nas Sociedades Contemporâneas, que se vai realizar nos dias 5 e 6 de setembro na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

A professora e Doutora Alexandra Lopes é coordenadora do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto e juntamente com Ana Catarina, Alice Ribeiro, Filipe Batista, Pedro Barbosa e Rute Lemos organizaram esta conferência.

Quais as razões para que o título esteja inglês bem como a ficha de inscrição?

Os motivos vêm da própria plataforma que não nos permite trabalhar em formato bilingue. Por causa da impossibilidade de ter as duas línguas,  do congresso estar pensado para ser internacional e também para atrair participantes de vários países o inglês apareceu como a opção por ser uma língua universal, falada e compreendida por um grupo maior de pessoas.

O congresso vai ser em inglês?

Não, não vai ser em inglês na sua totalidade. Poderá haver algumas sessões em inglês, nomeadamente aquelas proferidas por participantes de países com língua diferente do português. A conferência inaugural vai ser proferida pelo professor Mark Priesley – é, provavelmente, o maior especialista a nível mundial na temática da deficiência com o cruzamento com a questão das políticas públicas, e é o diretor da rede europeia – Academic Network of European Disability.

É importante a pergunta que faz, independentemente da língua ou dos idiomas que vão ser usados para os trabalhos no congresso, na medida em que há que garantir o bom funcionamento da plataforma relativamente às diversidades de perfis que nos podem consultar. A limitação da plataforma de eventos é que só pode estar numa língua.

 

Uma das temáticas que atravessa todo o congresso é precisamente a temática ampla da exclusão e daquilo que são os fatores que excluem os indivíduos.

 

O inglês não vai se tornar uma barreira para a participação na conferência?

A questão da língua é fundamental. Vou ser honesta, não é tanto o inglês que me preocupa, mas outras questões: Quem não ouve? Não ouve em português nem inglês, e até o congresso poderia estar em chinês que não eles não compreendiam. Quem não ouve fica automaticamente excluído. Mas como é que nós ultrapassamos esta barreira?

 

Há um desencontro tremendo entre aquilo que são os princípios que estão consagrados na lei e aquilo que são os princípios do politicamente correto e aquilo que são, efetivamente, as condições que nós temos para colocar isso em prática.

 

Podemos recorrer a um intérprete de língua gestual portuguesa?

A primeira ideia foi essa, mas os orçamentos disponíveis são proibitivos. Como é que nós ultrapassamos barreiras que são para todos os efeitos intransponíveis, mesmo quando temos tudo consagrado na legislação, quando temos tudo ou praticamente tudo consagrado no discurso politicamente correto? Há uma dimensão que não está, efetivamente, calculada que é dos recursos materiais, financeiros que são necessários para fazer as coisas como sabemos fazer. Não se trata de não haver sensibilidade ou preocupação com o acumular de fatores de exclusão, mas trata-se efetivamente de ter que lidar com barreiras, que para todos os efeitos, não estão ao nosso alcance. E este tema vai ser debatido no congresso.

Será que a exclusão é um fator ou atrás dela vêm outros? 

Uma das temáticas que vai ser debatida é a da exclusão bem como os fatores que excluem os indivíduos. O que acontece com o contexto ciência é que nós, frequentemente, assistimos, como nos chamamos na sociologia, cluster de desvantagem, ou seja, à deficiência depois acumulam-se ou acrescentam-se uma série de outros fatores de desvantagem que acabam por transformar em fatores de exclusão. Há alguns deles motivados pelo próprio contexto de deficiência, outros pela falta de respostas adequadas, que permitam, mesmo em contexto de deficiência, a cedência a alguns recursos.

O que está implantado na lei podemos encontrar na prática? 

Há um desencontro tremendo entre aquilo que são os princípios que estão consagrados na lei e aquilo que são os princípios do politicamente correto e aquilo que são, efetivamente, as condições que nós temos para colocar isso em prática.

 

Nós não crescemos, não somos socializados, não somos educados para a diferença e concretamente para os contextos de vida, de cidadãos com deficiências. E as pessoas não pensam nesta questão.

 

O acesso à formação é todo igual?

O acesso efetivo que as pessoas com deficiência em Portugal têm à formação, nomeadamente à formação à língua. Infelizmente por falta de recursos nós professores não podemos oferecer aos alunos, por exemplo invisuais que estejam a aprender estatísticas uma série de ferramentas para que possam entender.

Porquê o assunto da deficiência em discussão?

Uma das motivações que nos levou a organizar esta conferência é realmente encontrar um espaço para sem tabus assumirmos todos que toda a gente sabe como fazer as coisas; neste momento não há dúvidas nenhumas como fazer bem as coisas para gerar ambientes inclusivos e em que todos possam participar e atingir o seu máximo potencial. Não há ninguém, neste momento, que não saiba. Porém, não basta discursar, não basta fazer na lei, é preciso dotar as instituições dos recursos necessários para colocar a lei em prática.

 Será que é dada formação aos professores no geral da deficiência? 

Um dos temas que vai ser debatido é o facto de não ser dada formação aos professores. Eu, enquanto docente nunca tive nenhuma formação para a questão geral da deficiência em contexto de ensino e muito menos para a especificidade de vários tipos de deficiências. Diariamente o docente é visto como responsável e um ser iluminado como se tivesse nascido com todas as competências para lidar com todas as situações. Isto não é verdade, não basta colocar as coisas na lei, não basta falar nas rádios, nas televisões e nos jornais da importância da inclusão e da importância da participação, é preciso criar ferramentas para que isso efetivamente aconteça. Por exemplo, é preciso formar os agentes educativos. Devemos começar por formar os docentes, os funcionários e todos os agentes que pertencem à rede educativa.

A sociedade atual está preparada para acolher pessoas com deficiências?

Existe um défice de formação para a cidadania. Nós não crescemos, não somos socializados, não somos educados para a diferença e concretamente para os contextos de vida, de cidadãos com deficiências. E as pessoas não pensam nesta questão.

A Sociedade é traçada por desigualdades e elas fazem parte do nosso ADN enquanto sociedades humanas. Dentro do campo das deficiências há desigualdades, muitas vezes gerado dentro do próprio universo da deficiência.

Isto é um problema de cidadania, não de economia.

 

O mercado de trabalho está preparado para admitir pessoas com limitações?

A integração no mercado de trabalho é feita com a colocação dos indivíduos numa posição de clara desvantagem, sobretudo num tempo em que a economia privilegia o tempo, a rapidez, o imediato, a deficiência automaticamente está associada ao devagar, ao atraso na entrega do produto, o que origina mais recursos, mais tempo disponibilizado – lógica economicista muito intrínseca àquilo que nós somos como sociedade que coloca automaticamente estes indivíduos numa profunda desvantagem.

Os números das estatísticas de inserção da população com deficiência no mercado de trabalho são escandalosos.

Será que os espaços públicos estão adaptados para conseguirem responder às necessidades de todos os cidadãos?

A vivência no espaço público pode ser tremendamente afetada, como também a nossa capacidade para usufruir do espaço público, se o mesmo não estiver adaptado às características especificas de cada indivíduo. Por exemplo: se eu preciso de uma cadeira de rodas para me deslocar e se os passeios não têm rampas com a inclinação apropriada e a dimensão certa para eu me poder locomover em segurança eu objetivamente sou impedida de atravessar a rua.

Os estudantes de sociologia que têm algum tipo de limitação ao nível da mobilidade a maior parte deles nunca foram ao departamento de sociologia, porque o departamento localiza-se no último piso da torre B, onde o único acesso é pela escada de caracol interior da torre B. Nem podem usar os elevadores do edifício principal para se deslocarem até à torre. Isto é um fator de exclusão angustiante.

Será que é só falta de formação para com a deficiência?

Não, há uma série de perguntas que vão ser respondidas, ou pelo menos debatidas ao longo do congresso, contando com a ajuda de participantes de diversas sensibilidades, focos disciplinares. Será que é só falta de recursos? Será que é só falta de formação para a deficiência, para a inclusão em termos gerais? Será que é uma questão de falta de vontade?

Quem tem efetivamente a obrigação, constitucionalmente definida, de zelar por mim enquanto cidadã é o estado.

 

Inicialmente o trabalho começa pela escola, qual é o papel da mesma no tema da deficiência?

Porquê a escola não está a conseguir dar resposta às especificidades de alguns cidadãos que podem aprender, por exemplo o inglês? A única alteração que é preciso ser feita é adaptação. Porquê que a escola não está a adaptar? Onde está o ensino adaptado? Se a escola fizesse isso, os indivíduos quando entrassem no mercado de trabalho seriam igualmente competentes como qualquer outro cidadão.

Na maioria das vezes os alunos com necessidades educativas especiais no ensino secundário são “empurrados” para cursos profissionais por acharem que eles não têm capacidades, qual a sua opinião?

Infelizmente, acontece isso. O trabalho de inclusão e adaptação às necessidades de cada aluno devem ser feitas inicialmente na escola, para que no futuro eles consigam progredir.

 

Nós não devemos pensar na sociedade como um comboio.

 

Os alunos com necessidades educativas especiais só se podem candidatar com o estatuto na primeira fase do concurso de acesso ao ensino superior, o que acha dessa medida?

Estamos a falar do estado. Quem tem efetivamente a obrigação, constitucionalmente definida, de zelar por mim enquanto cidadã é o estado.

Isto é um problema de cidadania, não de economia. Enquanto nós tivermos as nossas oportunidades de cidadania condicionadas pelas características com que nascemos ou que ao longo da nossa vida por alguma razão acabamos por desenvolver, nós então não estamos a falar verdadeiramente de cidadania, mas de diferentes cidadanias.

Os cidadãos portadores de deficiência têm as mesmas oportunidades do que os restantes?

As da primeira têm mais oportunidades, do que os restantes. Nós não devemos pensar na sociedade como um comboio, não podemos ter isto a funcionar dessa maneira. E eu insisto que muitas das dificuldades que efetivamente depois, nomeadamente no mercado de trabalho alguns indivíduos sentem dificuldade na integração no mercado trabalho devido ao trabalho que está feito para trás, as raízes.

 A admissão de pessoas com deficiências no mundo trabalho é visto com naturalidade?

A empregabilidade de pessoas com deficiências deve ser encarada com normalidade, visto elas serem competentes para o cargo e não pela deficiência. Nem o empresário deve ser referido como um herói ou um ser iluminado, porque é perfeitamente normal a admissão de indivíduos. Isto deveria ser trabalhado para deixar de ser uma questão e passar a ser normal.

Porquê que os alunos com necessidades educativas especiais são apelidados de “coitadinhos”?

É uma questão cultural. Na cultura cristã, católica durante largos séculos a deficiência era explicada como tendo uma origem divina. O estatuto dos indivíduos com deficiência foi sempre um estatuto que oscilava entre uma certa misericórdia coletiva em relação a alguém que é incapaz e que portanto é um “coitadinho” e um certo registo de uma quase condenação na medida em que se entendia que a deficiência era uma forma de castigo divino. Um castigo que por vezes não era feito no próprio indivíduo, mas castigo por pecados que a sua família tinha cometido. Esta explicação foi dominante durante séculos, nomeadamente nos países cristãos / católicos.

Não se percebe que em pleno século XXI quando as coisas estão razoavelmente bem resolvidas no plano lega, no plano que são os regulamentos, os documentos enquadradores, quando aí conseguimos mais ou menos livrar dessa lógica caridosa, assistencial do “coitadinho”, como é que se explica que ainda tenhamos esse registo tão presente naquilo que é a prática.

A falta de formação pode ser um dos fatores apontados para esta situação.

 

Somos todos iguais, todos normais, mas todos diferentes.

 

Concorda com a inclusão de crianças com necessidades especiais numa turma onde estão alunos sem especificidades?

Sim, a criança deve ser inserida numa turma onde existem crianças que não possuem necessidades, mas nunca pode cair em esquecimento a alteração do processo curricular ou dar instrumentos para que a criança possa aprender.

Uma criança invisual precisa de instrumentos específicos e sem eles não vai poder aprender como os restantes, o que pode originar comentários de exclusão. Alunos com algum tipo de especificidades devem estar inseridos em turmas onde estão outras crianças que não possuem qualquer tipo de problema, mas eles precisam que seja adicionado recursos. Se não, estamos a ensinar às nossas crianças o oposto daquilo que devia ser ensinado. A adaptar as coisas às necessidades de cada um é importante para naturalizar a deficiência.

Quais são os objetivos do congresso?

O congresso vai ser de registo provocatório para abanar consciências, para convidar as pessoas a pensarem fora das suas zonas de conforto, porque nós acabamos por entrincheirar muito nas nossas posições.

Não queremos ser mais um espaço debate, para mais uma vez lidar com o politicamente correto que já está mais consagrado no discurso oficial.

O nosso objetivo é também colocar o dedo nas feridas que estão ainda bem abertas neste domínio, chamar a atenção para aquilo que são as reais necessidades, que devem ser reais prioridades, em termos de intervenção, se vamos efetivamente aceitar, como diz o título do nosso congresso, abraçar os desafios que cidadania coloca. A dicotomia normal e anormal está presente, como o certo e o errado…somos muito dicotómicos. Deveríamos pensar nisto como continuo, e não dicotomia. Somos todos iguais, todos normais, mas todos diferentes. E nesse sentido somos todos anormais. Temos todos especificidades, singularidades. Somos todos cidadãos.

O programa completo do congresso pode ser consultado no site do evento.