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PÚBLICO PRESENTEOU PORTO COM FESTIVAL P

O Festival P decorreu no sábado, dia 3 de março, no Hard Club. O evento teve lugar pela primeira vez na Invicta, depois de ter sido um sucesso em Lisboa, e tinha como mote "Um dia para falarmos de tudo". Por Carolina Nogueira e Raquel Santos.

O evento, que assinala o 28º aniversário do jornal Público, vai já na sua segunda edição. Desta vez, o Mercado Ferreira Borges foi o local escolhido. O festival contou com três palcos, onde se desenvolveram algumas conversas sobre cultura, política, youtubers e jornalismo.

As boas vindas no átrio

Com um programa vasto e diversificado, o festival do Público iniciou com algumas palavras de boas-vindas proferidas pelo seu mais recente diretor, David Dinis, que explicou que a iniciativa tinha como objetivo a proximidade com o leitor, assim como apelar à memória, que “é o tema e o elemento essencial do jornalismo”.

A sessão de boas-vindas decorreu no átrio, local onde também estava o bar do Bartoon. O mítico cartoon estava num recorte, apoiado a uma estrutura que se assemelhava a um bar, com três cadeiras. Os leitores podiam sentar-se e tirar fotos com a personagem e até interagir com Luís Afonso, o cartoonista responsável.

Em duas paredes opostas expunham-se diferentes obras. Do lado direito, uma exposição intitulada “28 fotografias para o público” – uma compilação de fotografias emblemáticas dos mais conceituados fotojornalistas do jornal – e, do lado esquerdo, uma infografia destacava-se, relativa ao tema “28 anos em que o mundo mudou ainda mais”.

Conversas de última página

O primeiro debate do dia teve lugar na primeira sala destinada para o efeito. Com o nome “Conversas de última página”, o debate juntava o cronista do Público Rui Tavares e o cartoonista Luís Afonso, os residentes da última página do jornal.

Ambas as personalidades revelaram que a comunicação que têm com os leitores era muito boa, sendo que por vezes recebiam cartas de leitores a congratular o seu trabalho ou a criticar algum aspeto. As críticas, afirmaram, também são importantes para o processo de crescimento e amadurecimento.

Uma questão que é posta em cima da mesa é como o cronista e o cartoonista lidam com o erro. Ambos respondem com naturalidade: foram aprendendo a lidar. Realçaram que o aspeto mais importante desta questão fulcral é não se deixarem levar pelas notícias falsas, trazendo a temática das fake news ao de cima. A conclusão foi que, tanto na elaboração de uma crónica como de um cartoon, é importante ter as informações corretas ou rapidamente serão desacreditados. Os erros de português são outro tipo de falha que devem ser evitados, especialmente a escrever para um jornal que chega a muitos leitores.

Ambos os convidados confessam que às vezes a análise que se faz de um determinado tema acaba por demorar mais do que fazer a crónica ou o cartoon.

Ressalvaram ainda que é importante fugir de antipatias e simpatias, a objetividade deve ser a máxima a seguir.

Terminado o debate, e como prática geral que se verificou em todos os debates do evento, a conversa é aberta ao público. Não faltam perguntas dos leitores e, também, alguns desabafos sobre como o jornal Público e, particularmente a última página, são uma boa companhia. As referências às ligações políticas de Rui Tavares foram também chamadas a responder a certas questões.

Fonte: Fotogaleria PÚBLICO
Fonte: Fotogaleria PÚBLICO

Cultura: como programar a partir do Porto

Nesta conversa, moderada por Inês Nadais, editora de Cultura do Público, João Ribas, diretor do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, começa por destacar que “há uma diferença entre a definição de cultura a nível político e a nossa própria definição, que é arte”. Enfatiza o interesse e a dinâmica da qual é dotada a cidade do Porto a nível cultural e classifica este rápido desenvolvimento como um “desenvolvimento à moda do Porto”. Esta definição é complementada por António Jorge Pacheco, que nos diz que “a Cultura pode não significar propriamente arte, mas o que nós programamos é arte”. O diretor artístico da Casa da Música faz também referência ao antes e depois da cidade do Porto, destacando o projeto Porto 2001, o nome dado à iniciativa Porto Capital Europeia da Cultura 2001 e que visava envolver mais a população e trazer animação à cidade através das artes.

Foi já na voz de Nuno Carinhas que se fizeram realçar algumas vantagens do Teatro Nacional de São João. O diretor artístico sublinha o facto de não se tratar apenas de um projeto de acolhimento, pois é também uma casa de produção. “Teatro é uma linguagem de passagem e precisa de exercício. Privar as pessoas desse exercício não é correto”, diz-nos. Tiago Guedes, que deu a cara pelo Teatro Municipal do Porto, acaba a destacar a vontade que sempre existiu de fundir os dois teatros (Rivoli e Campo Alegre) e confessa que “existe uma relação muito saudável entre todas as instituições”.

Um café com ativismo

Em simultâneo com o debate cultural, decorreu no átrio uma conversa acerca de ativismo. Amanda Ribeiro, subdiretora do P3, foi a escolhida para moderar o debate entre Maria Pinto Teixeira da “Animais de Rua” e Diogo Vieira da Silva, coordenador europeu do “Tudo Vai Melhorar”.

Um tópico que não pôde ficar de fora foi de que forma o mediatismo contribuía para o ativismo. O debate sobre esta questão originou um consenso, com ambos os oradores convidados a concordarem que o mediatismo é positivo para o ativismo desde que usado de forma correta, já que a internet pode ser um auxiliador de uma causa ou gerar ruído em volta da mesma.

As redes sociais foram assim mencionadas neste contexto e chegou-se à mesma conclusão: são positivas desde que usadas com discernimento. Como ferramenta de poder numa era mediatizada, acarreta determinados perigos.

Os convidados foram, posteriormente, questionados acerca do papel dos jovens no ativismo. Muitas vezes se diz que os jovens não se interessam pela política ou pelos assuntos prementes da sociedade. Maria Teixeira e Diogo Vieira concordaram uma vez mais: o ativismo é uma intervenção política, embora o seja de uma forma pouco convencional.

 

Fonte: Fotogaleria PÚBLICO
Fonte: Fotogaleria PÚBLICO

A política na era da pós-verdade

Mais um debate, desta vez moderado por Sónia Sapage, editora da Política do Público. É Marina Costa Lobo, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que inicia esta conversa e menciona a vertente negativa que a pós-verdade adquiriu com o aparecimento da Internet, podendo até ser relacionada com o conceito de fake news.

Paulo Rangel concorda com Marina Costa Lobo. Acredita que, de facto, as redes sociais introduziram um mecanismo novo, onde colidem várias versões. Ainda assim, mostra conhecimento acerca da existência de “uma grande autorregulação entre jornalistas e até dentro dos próprios jornais”. O eurodeputado do PSD afirma que os líderes utilizam estes novos meios para obterem os resultados pretendidos.

Quando Francisco Assis, eurodeputado do PS, assume a palavra, é com convicção que diz que “pós-verdade sempre existiu”. Assume que as únicas diferenças que, nos nossos tempos, são notáveis são as condições de produção e receção da informação, devido às redes sociais.

No entanto, é Marina Costa Lobo que levanta a questão de um mundo que alberga atores falsos na Internet: “Há humanos na internet mas há um conjunto ainda maior de máquinas”. Relembra a existência de um leque de valores éticos que deveriam de ser respeitados e menciona o fator neutralidade que está a faltar a este círculo de redes sociais. “As pessoas atrevem-se a escrever na internet aquilo que seriam incapazes de dizer num espaço público”, diz-nos Francisco Assis. Na opinião da investigadora, “a questão da pós-verdade é uma tentativa de mudar o sistema”, ou seja, as pessoas agem e apoiam o modo de vida com que elas se identificam, pois encontram-se cansadas de aceitar os “discursos feitos” como verdades absolutas.

Rir, pensar e aprender: para que precisamos dos youtubers?

De volta à sala 1, depois de uma pausa para almoço, é altura de falar sobre youtubers. Os convidados são Catarina Oliveira, do canal “C Feliz”, o responsável pelo canal “Tubalatudo” e Hugo van der Ding, da “meia desfeita”. Yolanda Tati chega mais tarde e junta-se ao painel.

C Feliz é um canal acerca da vida de Catarina Oliveira, uma jovem de cadeira de rodas, que aborda temas como acessibilidades e problemas do dia-a-dia que a youtuber tem de enfrentar. Tubalatudo é um canal de tutoriais que ensina a criar os seus próprios brinquedos e engenhos. Hugo van der Ding é um ilustrador responsável pela famosa “A criada malcriada”. Yolanda Tati tem um canal que se caracteriza por reflexões e conversas, onde partilha os seus valores.

Veio a debate a possível existência de um mau YouTube. Tubalatudo aproveitou uma metáfora para expor a sua opinião. Considerou que o YouTube é uma biblioteca e não é um mau livro que torna toda a biblioteca má. Assim, acendeu-se a conversa com o exemplo dos vídeos que correm o mundo de jovens a ingerirem detergente, e percebe-se que é o público geral que procura esse tipo de vídeos.

A questão da ética e da moralidade também não fugiu da ribalta. Os oradores chegaram a um consenso na decisão de que, como criadores de conteúdo, têm uma responsabilidade acrescida no que colocam na internet já que influenciam os seus fãs.

É ainda abordada a questão de como viver do YouTube. Tubalatudo é o único dos convidados que vive do YouTube e das receitas que este origina. Todos os oradores concordam que viver do YouTube é uma realidade que parece promissora, mas que é muito complicada de atingir e que não pode ser tida como o objetivo máximo da criação de um canal.

Quando a conversa foi aberta ao público, os convidados invertem os papéis e perguntam quem na audiência é que possui um canal do YouTube. Começa assim uma conversa pautada pela forte interação dos YouTubers com os leitores do jornal.

Fonte: Fotogaleria PÚBLICO
Fonte: Fotogaleria PÚBLICO

Público: passado e futuro

O último debate serviu para falar do verdadeiro motivo deste festival: o Público. Com o título “PÚBLICO: passado e futuro” e moderado pelo próprio diretor David Dinis, que esteve sempre presente nas diversas atividades que ocorreram ao longo do dia, teve como convidados Vicente Jorge Silva, primeiro diretor, Jorge Wemans e Joaquim Fidalgo, ex-diretores adjuntos e ex-provedores do jornal e Nuno Pacheco, ex-diretor e atual redator principal.

Nesta conversa viveu-se um clima muito forte e de grande união – “sentido de amor à camisola”. Foram relembrados momentos do passado, nomeadamente o nascimento do Público, e foram feitas retro e introspetivas das relações que este jornal diário conseguiu criar e manter desde a sua existência, começando nos leitores até às próprias redações, mostrando, assim, uma quebra nos regionalismos.

Contudo, não só de debates se fez a festa. Para os assinantes do jornal, houve sessões “especiais”: Showcooking de gastronomia do Médio Oriente com os chefes do restaurante Mezze, de Lisboa, Provas de Vinhos com Luís Cerdeira (enólogo) e Bento Amaral (diretor dos Serviços de Certificação do IVDP), Bar Bartoon, Exposições e Fotoconcerto com Pedro Abrunhosa foram algumas atividades às quais os seguidores ativos também tiveram direito.

Este artigo é da autoria de Carolina Nogueira e Raquel Santos.