Política Sociedade

O RETRATO DE 40 ANOS DE REVOLUÇÃO

São três ex estudantes da UP que recordam os últimos anos da ditadura de Salazar, o dia da revolução no Porto e os primeiros passos em liberdade, numa história que ainda se continua a escrever.

“Hoje faz falta justiça social, estamos muito longe de a conseguir”, “É preciso ter vontade de mudar”, 40 anos depois da revolução de Abril de 74 é o que ainda falta cumprir, nas palavras da professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Isabel Duarte e do funcionário do Parlamento Europeu, Renato Soeiro, que naquela manhã de 25 de abril acordaram na incerteza da mudança.

Nas faculdades não havia aulas, em Lisboa alguma coisa tinha acontecido, dizia-se. Não se sabia o quê ao certo. Falava-se em militares, no nome do Spínola, mas havia também a possibilidade de alguma coisa relacionada com a extrema-direita, até porque a mais recente referência de um golpe militar havia sido no Chile, em 1973, que instaurou a ditadura de Pinochet. Na dúvida, os caminhos iam dar ao Piolho, centro da vida estudantil e política da época, Isabel Duarte recorda as palavras de um amigo “vocês estavam com uma luz lindíssima”, numa espécie de “pronúncio” do que estava a acontecer.

A partir do meio da manhã, depois da certeza da viragem democrática, a Avenida dos Aliados tornou-se ponto de encontro de muitos revolucionários, embora a polícia tenha começado a “carregar sobre os manifestantes, os militares intervieram para repor a ordem” e “portanto o dia que começou com a polícia a perseguir-nos acabou connosco a perseguir a polícia”, como contou o professor da Faculdade de Economia da UP, e antigo estudante, Augusto Santos Silva.

Num círculo de desobediência, onde os militares desobedeceram aos superiores e o povo, por sua vez, desobedeceu ao MFA (Movimentos das Forças Armadas) ao sair à rua em massa, a GNR e PSP acabaram impotentes perante a força da população, como recorda Renato Soeiro, “os polícias habituados a bater na malta, perceberam que não tinham hipótese porque estava tanta gente na rua e foi no processo de povo na rua que se conquistou tudo”.

O Porto estava já cheio de pessoas, que não imaginaram, na semana anterior, estar ali. Rumou-se à Praça da República para saudar os militares, seguiram-se as ocupações das antigas instalações do regime. Era o 25 de abril a eternizar-se como o dia em que a ditadura terminou, e foi para Isabel Duarte “a euforia completa, de cada vez que encontrávamos alguém que só tínhamos encontrado antes do 25 de abril, a primeira reação era um abraço como se não nos víssemos há muito tempo”. Os dias a seguir foram de encontros, afinal havia sempre alguém a chegar.

Os dias da Liberdade

Os primeiros dias em democracia foram intensos, havia tanta coisa para fazer, havia tanto para descobrir, foi tempo para viver a cidade, para fazer coisas, “as pessoas perceberam que podiam fazer coisas, por mãos à obra”. Para Renato Soeiro, foi uma época de inversão de papéis sociais, e assim de construção de novos paradigmas, “ocuparam-se imensos edifícios vazios, as mulheres começaram a por mãos às obras, iam para as reuniões de comissão de moradores e os homens para as reuniões sindicais”. De repente “nós não tínhamos nada e queríamos ter tudo”.

Foram, para Isabel Duarte, dias de viragem, de discussões acesas, de reestruturação da própria universidade, “virou-se tudo do avesso, fomos buscar o professor Óscar Lopes a casa, que tinha sido proibido de ensinar, havia reuniões gigantescas onde se faziam remodelações de cursos com toda a gente a participar de braço no ar (…) naquele período dormia pouco, havia muitos ciclos de cinema, filmes repostos sem cortes da censura, as comissões de moradores, o projeto SAAL”.

Depois do 25 de Abril, faziam-se exigências, alunos e professores estavam pela primeira vez juntos, ao mesmo nível, Augusto Santos Silva lembra que chegaram, alunos e professores, a estudar juntos “foi construir tudo do zero (…), virámos tudo ao contrário (…) havia práticas de estudo em conjunto, porque havia professores que diziam, eu do século XX não sei nada, então estudávamos juntos”.

Aquela madrugada incerta de 1974 acabou por ser o fim do passado sombrio e clandestino de quem lutava por liberdade, hoje para Santos Silva “tão natural como o ar que respiramos”. Quarenta anos depois muito caminho foi desbravado, mas as lutas continuam, revestidas de um carácter diferente. Hoje, para Renato Soeiro, “temos que mudar a política para passar ao paradigma da solidariedade” e para isso, hoje, basta votar. “Uma das belezas da democracia é que cada pessoa tem um voto e o Belmiro de Azevedo tem o mesmo voto que a sua caixa de supermercado que ganha o salário mínino“.