Sociedade

“SINTO QUE FEZ A DIFERENÇA MAS QUE HÁ SEMPRE ALGO MAIS PARA FAZER”

Catarina Freitas, de 21 anos, celebrou o seu mais recente aniversário na Guiné-Bissau. Licenciada em Gestão pela Faculdade de Economia do Porto, encontra-se neste momento a frequentar o Mestrado em Gestão de Serviços. Mas esses são apenas dois dos desafios que sempre quis enfrentar.
Fotografia por Catarina Freitas

Considera-se uma pessoa muito ativa que gosta de estar envolvida em diversas atividades, desde o teatro, à música e ainda a ações de voluntariado. Por exemplo, durante o último ano, Catarina Freitas assumiu o cargo de Diretora Geral numa das organizações juvenis da sua faculdade, o Experience Upgrade Program (EXUP), que pretende desenvolver as soft skills dos alunos e dos seus membros, bem como o seu espírito cívico. Alegre e sempre animada, no passado mês de Agosto enfrentou um dos maiores desafios da sua vida.

A oportunidade surgiu há alguns anos atrás, através do Colégio Nossa Senhora da Bonança que frequentou até ao 12º ano. Em 2009, uma Irmã guineense decidiu levar um grupo de pessoas do colégio para a Guiné, num contexto mais informal, para trabalharem e ajudarem como fosse possível. Entretanto, a iniciativa cresceu e começou a repetir-se todos os anos. “Em 2010 a minha turma apadrinhou um menino guineense, o António, e daí surgiu a vontade de ir lá, também para o poder conhecer”.

Catarina passou o passado mês de Agosto na Guiné-Bissau, com um grupo de 5 pessoas, incluindo a Irmã que os acompanhou. “Nas duas primeiras semanas estivemos alojados na casa da mãe da Irmã, perto do centro de Bissau. A casa tinha dois quartos e alojava 18 pessoas“. Verificou que as pessoas, quando tinham capacidades para, acolhiam crianças nas suas casas. “No início achei um pouco estranho mas percebi que era uma prática comum. A mãe da Irmã, já com 73 anos, tinha acabado de acolher uma criança que, em apenas 21 dias, engordou 8kg”.

Segundo a jovem licenciada, a população guineense tinha por hábito construir anexos nos quintais ou nos espaços disponíveis. “Não tinham espaço para terem armários, os colchões ficavam uns em cima dos outros e à noite colocavam-nos no chão para dormir”. Algo que considerou curioso foi o facto de não se notar os laços de sangue entre eles. Isto é, fossem ou não familiares, todos eram tratados da mesma forma e todos sabiam fazer qualquer tarefa que fosse necessária. “Uma criança com 9 anos sabia ligar o fogão, escamar o peixe, limpar o chão…”, conta Catarina.

Durante uma semana, esteve numa “Casa de Passagem“. “Ficava numa aldeia pequena, sem luz, as crianças deitavam-se as 19 horas e acordavam quando o sol nascia”. Não havia água potável e, por isso, apenas podiam beber água engarrafada. “Muitas vezes passamos sede porque se surgisse um imprevisto e não pudéssemos ir a casa, não podíamos beber água de mais nenhum lugar”. A falta de canalização foi um dos maiores problemas que apontou. No entanto, teve também surpresas que considerou agradáveis, entre as quais a gastronomia. Catarina acabou por se revelar uma admiradora da comida local: “comíamos tudo e adorávamos, a comida era mesmo boa. A forma de eles comerem era curiosa. Existia apenas uma bacia grande com a comida, cada um tinha uma colher e comíamos todos da mesma taça, sentados à volta em bancos de madeira”.

Passou ainda uma semana no Senegal mas Catarina comentou que “as pessoas eram diferentes, já não havia, por exemplo, o espírito de acolherem as crianças nas suas próprias casas”. Durante o mês que esteve na Guiné-Bissau, deu também aulas a professores. “Nenhum deles sabia falar bem português mas alguns ainda tentavam aprender. Outros acabaram por desistir ou ensinavam crioulo nas aulas de português”, explica a jovem.

Todos os anos, o colégio organiza missões diferentes, desde transmitir os conceitos básicos sobre nutrição, ajudar em hospitais de crianças subnutridas e a ensinar as crianças. Esta última acaba por ser a mais frequente. No entanto, chegaram à conclusão que dar aulas apenas durante um mês não ia permitir alcançar os objetivos pretendidos. Decidiram, então, que seria mais rentável ensinar as pessoas que iam estar com as crianças durante o ano.“Ficamos com as educadoras de infância a ensinar-lhes jogos e formas de, com os poucos recursos que têm, conseguirem fazer algo com as crianças, porque eles lá não têm nada. Nessas aldeias, as pessoas nem formação para serem professoras têm, muitas delas nem recebem dinheiro por isso”, conta.

Catarina frisou, também, que a maior dificuldade sentida foi imaginar tudo o que veria antes de partir: “as pessoas diziam-me que só ia ver miséria mas não, aquilo é a vida deles, as pessoas estavam sempre a sorrir e sempre felizes. Conhecemos um senhor que fez questão de nos mostrar a casa dele, que não tinha as mínimas condições, mas ele levou-nos lá e ofereceu-nos as poucas coisas que tinha”.

A estudante de 21 anos deparou-se, tal como esperava, com algumas diferenças culturais durante a sua experiência na Guiné-Bissau. “As pessoas eram muito afetivas, eram capaz de me conhecer há poucas horas e já me estarem a abraçar. Quando andava na rua tinha de cumprimentar toda a gente, não podia não cumprimentar ninguém porque consideram que era falta de educação. Umas senhoras chegaram mesmo a chamar-me à atenção por ter passado por elas sem as cumprimentar”. Catarina acrescentou ainda que “as pessoas eram relaxadas mas ao mesmo tempo muito vivas, não se ouvia ninguém a reclamar, o trânsito era caótico mas mesmo assim não havia nenhum acidente. As pessoas não dormiam com as portas de casa fechadas e nunca senti nenhum tipo de perigo. Não tínhamos horários para comer, éramos capazes de jantar às 15 horas”.

A jovem afirmou que esta aventura não a mudou enquanto pessoa pois tinha passado por um longo processo de preparação. Esse processo fez com que não sentisse um choque tão intenso a nível de realidades distintas. No entanto, Catarina não deixou de apontar a humildade das pessoas como algo que a surpreendeu, neste caso pela positiva. “Éramos miúdos de 20 anos a dar aulas a professores de 40 anos e no primeiro dia estávamos bastante nervosos. Mas eles ficaram tão entusiasmados e queriam mesmo aprender. No último dia até nos fizeram uma festa enorme, notava-se mesmo a gratidão por parte deles”.

A sua experiência não podia terminar sem antes conseguir realizar o seu sonho de conhecer o António, a criança que tinha apadrinhado. “Ele fez uma viajem de 7/8 horas para chegar à nossa beira, foi das coisas que mais me marcou porque só o tinha visto em fotografias e ter a possibilidade de o conhecer foi incrível”. Atualmente, Catarina é Corresponsável no projeto de apadrinhamento de crianças da Guiné no colégio. O apadrinhamento, para além de criar um laço de carinho, permite também, com apenas com uma mensalidade de 20€ por mês, assegurar a alimentação, educação, a saúde e a segurança das crianças.

Sobre o seu mês na Guiné-Bissau, Catarina termina e diz: “Sinto que fez a diferença mas que há sempre algo mais para fazer! Quando estava a chegar ao Porto já estava a pensar o que podia fazer a seguir e para onde iria, porque fica sempre aquela vontade de conhecer e de ajudar mais”.