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OS TESOUROS DO CENTRO HISTÓRICO DO PORTO

O Dia Nacional do Centro Histórico encheu a cidade de atividades e serviu de pretexto para falar das potencialidades e fragilidades daquele que é um dos tesouros do Porto e Património Mundial da Unesco desde 1996.
Fotografia: Joana Gordinho

São séculos de história e “estórias” que percorrem as calçadas gastas do Centro Histórico do Porto, com uma área tão vasta, que vai desde a Torre do Clérigos à Ribeira, das Virtudes à Batalha e que junta vários estilos arquitetónicos, desde o barroco, ao manuelino.

Igrejas, jardins e até instituições ligadas à Universidade fazem parte do centro histórico portuense, sendo esta diversidade o que torna, para o arquiteto Rui Loza, uma “obra” transversal a várias épocas, a vários séculos.

Em 1996, várias foram as entidades que, coordenadas por Rui Loza, trabalharam na candidatura do Centro Histórico a Património Mundial da UNESCO. Uma candidatura que teve em conta uma noção muito específica de património que “deixa de ser o monumento isolado para ser o conjunto, o sítio em si”. Aliás, a preocupação central desta candidatura era valorizar a vida da cidade, uma cidade feita de pessoas, onde o importante era, segundo Rui Loza, “reabilitar o existente conferindo-lhe condições de habitabilidade, condições de utilização capaz de responder às necessidade atuais (…) a candidatura é apresentada com uma ideia transversal de um centro histórico habitado”, um centro histórico que “não é fóssil”, mas antes “uma comunidade, de uns milhares de pessoas, de atividade de rio, de rua, de comércio”, que conferem a este sítio uma personalidade única e muito própria.

Apesar das diversas fases pelas quais o centro histórico foi passando, nomeadamente no que se refere à habitação, população e questões sociais, o processo de manutenção deste local não está concluído.

Hoje, novos problemas apareceram e por isso é preciso olhar para as potencialidades do centro histórico, que para Rui Loza estão no “associativismo que ainda prevalece no Porto como o musical de Miragaia, ou o centro social de Santana”, para além de “muitas instituições locais, de rua e de esquina, microuniversos que organizam redes de solidariedade”, que tornam este cosmos tão especial, assim como no turismo, que com conta e medida pode ser, para o arquiteto, uma porta aberta para a revitalização.

Para o coordenador da candidatura à UNESCO, embora as questões de habitação tenham sido solucionadas (nomeadamente depois do 25 de Abril com Fernando Távora), apesar da perda de população do centro histórico, Rui Loza acredita, ainda assim, que o desafio agora está em captar novas populações, “passou-se de uma etapa onde havia um problema de hipertensão para um problema de hipotensão, portanto é preciso injetar mais vitalidade”.

Vitalidade, perdida com a construção do Porto de Leixões e com o desaparecimento da Alfândega, que deslocou do centro histórico uma grande massa de população. Esta é uma das etapas a ultrapassar, invertendo a situação através da implementação de outros serviços que atraiam pessoas ao mesmo tempo que as fixam. Rui Loza destaca que no futuro deve pensar-se em cinco eixos centrais: “a preservação do edificado e da população residente, o turismo, as indústrias criativas e o rio Douro” como polos que devem ser trabalhados e potenciados garantindo a vida saudável do centro histórico portuense.