Politicamente Correto

Politicamente Correto: O terror teve um nome na Ucrânia e chama-se Holodomor

Conhecido como a Grande Fome, o Holodomor marca um período negro da história da Ucrânia do século XX. Recentemente, a questão foi levantada na esfera pública e continua a haver dúvidas e desconhecimento deste fenómeno. O que é certo é que, entre o reconhecimento e o negacionismo, as opiniões dividem-se.
Ilustração: Soraia Ramalho

A palavra ‘Holodomor’ designa o genocídio do povo ucraniano, entre 1932-1933, às mãos da União Soviética. Segundo o Museu do Holodomor, estima-se que tenham morrido mais de sete milhões de pessoas na Ucrânia e ainda três milhões de ucranianos que habitavam outras regiões históricas, como o Norte do Cáucaso, Kuban, Baixo Volga e Cazaquistão. Contudo, segundo a Universidade do Minnesota, as investigações mais detalhadas apontam para um total de quase quatro milhões de mortes – embora “os historiadores concordem que, tal como noutros genocídios, nunca se conhecerá o número exato”.

A Ucrânia estava sujeita às imposições da URSS, uma vez que se encontrava anexada desde 1922. No entanto, as más colheitas de 1931 levaram à incapacidade de cumprir o plano de coleta do governo soviético. Estaline apertou as medidas e a fome começou a sentir-se, aliada a manifestações dos camponeses e à recusa em aplicar os planos. Receando o crescimento do nacionalismo ucraniano, que exigia a independência, o líder soviético terá utilizado a fome para manter o domínio sobre o povo e as medidas repressivas acentuaram-se.

Mother of the year 33, de Nina Marchenko

O Holodomor foi um genocídio?

ge·no·cí·di·o

(geno- + -cídio)

nome masculino

  1. Destruição metódica de um grupo étnico ou religioso pela exterminação dos seus indivíduos.
  2. [Por extensão] Exterminação de uma comunidade de indivíduos em pouco tempo.

“genocídio”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.

A questão prende-se, por isso, com a existência de intencionalidade na sujeição do povo ucraniano à Grande Fome. Raphael Lemkin, autor da palavra “genocídio” e promotor da Convenção das Nações Unidas para a prevenção e repressão deste crime, considera que o Holodomor é um “clássico exemplo do genocídio soviético”. “É a mais longa e alargada experiência de Russificação – a destruição da nação ucraniana.”

Os ucranianos seguem esta linha de pensamento e, em 2006, reconheceram que o Holodomor foi, de facto, um genocídio, com a lei sobre “O Holodomor de 1932-1933 na Ucrânia”, aprovada a 28 de novembro do mesmo ano. Em 2010, o Tribunal de Recurso de Kiev declarou que a Grande Fome foi planeada para impedir um movimento de libertação nacional e prevenir a independência da Ucrânia, confirmando a existência de “intencionalidade genocida”.

Atualmente, 16 países, incluindo Portugal, reconhecem o Holodomor como o genocídio do povo ucraniano.

Nobody wanted to die, de M. Chervotkin

A polémica atual

Recentemente, Francisco Louçã recuperou, n’O Tabu da SIC Notícias, um discurso de Aline Beuvink na Assembleia Municipal de Lisboa, em 2019. A deputada do Partido Popular Monárquico (PPM) procurava explicar a origem da expressão “os comunistas comem criancinhas”, mostrando que a base desta frase se encontra no canibalismo provocado pelo “desespero da fome” durante o Holodomor. Por sua vez, Louçã levou à letra e criticou os “setores da direita” que “acreditam nas suas lendas mais sanguinolentas”.

Não tardou em surgir uma onda de indignação, que se estendeu das redes sociais aos média. Aline Beuvink reagiu ao comentário, através de uma publicação no Observador: “Ora, se o Senhor Presidente da República tem um Conselheiro de Estado que ri de um genocídio que Portugal reconheceu, este Conselheiro está a fazer o quê?”. Já Inna Ohnivets, embaixadora da Ucrânia em Portugal, redigiu um artigo no Público, onde procurou explicar a o acontecimento histórico.

“Ao divulgar informação sobre o Holodomor como um ato de genocídio, a Ucrânia pretende dar a conhecer à comunidade internacional o facto de que a fome continua a ser utilizada como uma arma”, considera a embaixadora.

Do outro lado da moeda, o jornalista Pedro Tadeu defendeu, em artigo publicado no Diário de Notícias, que “sobre o Holodomor não há certeza sobre a dimensão do crime”. Citou, no mesmo artigo, diversos historiadores, entre os quais Robert Conquest e Arch Getty, que consideram que a morte em massa de ucraniano não se deveu a um plano genocida, mas à “rigidez estalinista” e ao “interesse soviético”.

“Todos estes casos, incluindo o eventual Holodomor, devem ser estudados com seriedade e lealdade, nunca com histeria ideológica. Os mortos merecem-no e, se pudessem pronunciar-se, certamente dispensariam a manipulação política em curso. É esse o meu simples e modesto ponto”, escreve Pedro Tadeu.

Memorial às vítimas do Holodomor, Kiev. Fotografia: FASBAM

Com ou sem intenção genocida da União Soviética, é certo que a Ucrânia passou por períodos de grande fome no início da década de 1930. Hoje, as vítimas são recordadas e dignificadas no Museu do Holodomor, em Kiev, capital ucraniana.

Artigo da autoria de Hugo Santos. Revisto por Pedro Valente Lima.

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