Politicamente Correto

Politicamente Correto: Uma rolha para não deitar tudo cá para fora

O líder do partido de extrema-direita ameaçou suspender os militantes que publiquem qualquer tipo de crítica, com o intuito de denegrir a imagem do partido, nas redes socias e imprensa. O objetivo é acabar com a tensão interna que se verifica há meses.
Ilustração: Soraia Ramalho

 

“Não vai ser uma brasileira que vai mandar nos destinos de um partido nacionalista”. As palavras são de Filipe Melo, candidato à distrital de Braga do CHEGA, e desencadearam uma revolução no partido de André Ventura. A mensagem, publicada na conta de Facebook do candidato, tinha como alvo Cibelli Pinheiro de Almeida, presidente da Mesa da Assembleia Distrital minhota.

Para Filipe Melo, Cibelli estaria a fazer de tudo para adiar as eleições, usando e abusando de “todos os argumentos”, pois saberia “que a derrota está iminente”. O candidato acabou por se arrepender das palavras proferidas e decidiu trocar um ataque xenofóbo por um misógino. “Não vai ser uma senhora que vai mandar nos destinos de um partido nacionalista”, reformulou no post.

André Ventura decidiu agir. Não contra o discurso com teor discriminatório – embora o estatuto do partido condene, veemente, “todas as formas de racismo, xenofobia e de qualquer forma de discriminação” -, mas sim contra aquilo que considera ser um “descontrolo” e “guerrilha interna nas redes sociais”, que se tornou no quotidiano do partido e “isso é inadmissível”.

Através de uma diretiva, enviada aos militantes do partido por email e agora disponível no website do CHEGA, o deputado único tentou resolver o problema da tensão interna com uma ameaça: “A partir das 00h do dia 2 de dezembro, serão imediata e severamente sancionadas todas as publicações de militantes que se destinem a continuar este permanente clima de guerrilha, que favorece os que querem perpetuar a confusão interna e destruir o CHEGA” – podia ler-se no documento original, a que o Expresso teve acesso.

As sanções severas a que a missiva, assinada por Ricardo Regalla, diretor nacional de Relações Públicas e Protocolo do CHEGA, se refere compreendem a suspensão de militantes de qualquer órgão ou atividade do partido por um período de 30 dias – a chamada “lei da rolha”, que alguns críticos internos de Ventura encaram como uma tentativa de suprimir a liberdade de expressão.

Referências ofensivas a membros ou dirigentes do partido, “episódios ou narrativas sobre a vida interna” do mesmo, bem como publicações, em qualquer espaço de acesso social, que tenham como objetivo denigrir a imagem do CHEGA e dos respetivos órgãos, são tudo situações passíveis de sanção, de acordo com a diretiva, e, em caso de reincidência, o militante ou dirigente pode mesmo vir a ser expulso do partido.

Em declarações à revista SÁBADO, André Ventura reiterou que “na última convenção autárquica, os delegados propuseram e foi aprovado um reforço das sanções sobre as violações comportamentais e disciplinares no partido”. No entanto, esta limitação às críticas dos militantes do partido pode ser vista como uma violação da “liberdade de discussão e reconhecimento do pluralismo de opiniões”, bem como o “respeito pelas várias tendências e linhas de opinião política”, presentes no Estatuto do CHEGA.

Para o deputado, é necessário estar atento aos “adversários e não em travar guerrilhas internas”, mas nem todos os dirigentes do partido parecem seguir esta linha ideológica. É o caso de Patrícia Sousa Uva. A ex-mandatária nacional da candidatura presidencial de André Ventura abandonou o partido, segundo apurou a SÁBADO, por um leque de razões, que culminaram na forma como a “lei da rolha” seria executada – “as sanções iam ser aplicadas a uns e a outros não, de forma injusta”, afirmou fonte da direção nacional do CHEGA à revista.

Uma lei antecipável

Na II Convenção Nacional do CHEGA, as críticas a André Ventura acentuaram-se e o deputado único só conseguiu aprovar a sua direção à terceira tentativa. Fotografia: Pedro Nunes/Expresso

E para quem pensar que esta “lei da rolha” é uma vã ameaça de André Ventura – que, só este ano, já usou a carta da demissão três vezes -, engane-se. A diretiva já conhece três vítimas, de acordo com o jornal i: uma em Setúbal, outra no Algarve e a terceira em Beja.

Embora não se conheça a identidade das duas últimas, a revista SÁBADO identificou a primeira. Trata-se do presidente da Mesa da Assembleia da Distrital de Setúbal, Bento Marçal Martins, que diz ter recebido a notícia através de um amigo: “Ninguém me avisou de nada. Foi um amigo que me disse: ‘já viste isto no site?’”

O ainda militante do CHEGA afirma que André Ventura “está mais preocupado a correr com quem critica o que está mal” do que resolver os problemas de financiamento de, por exemplo, distritais, que têm afetado o bom funcionamento interno do partido. Bento Marçal Martins relembra ainda que assistiu a familiares serem presos pelo regime autocrático em vigor antes do 25 de abril e sabe o que “não é viver em liberdade”. “Não vai ser agora o sr. Ventura, que se diz democrata, a meter-me rolha alguma”, afirmou o presidente da Mesa da Assembleia de Setúbal do partido de extrema-direita.

No entanto, as contestações ao líder do CHEGA não são de agora – muito menos as acusações de supressão de liberdade individuais. Em julho, Manuel Pinho abandonou o partido devido à falta de democracia em que este opera, levantando questões sobre a transparência das suas eleições internas. O antigo vice-presidente da Comissão Política do Porto teceu várias críticas a André Ventura e acusou-o de suprimir os seus opositores, mudando as regras de forma a não ter ninguém a disputar-lhe a liderança.

Na altura, Manuel Pinho denunciava uma “lei da rolha” envolta no partido, “concretizada em ameaças de expulsão a militantes”. “Na verdade, a liberdade de expressão é um dos valores que eu mais prezo. Se um partido não sabe ouvir os seus militantes, não é um partido democrático. Não aceito a proibição de tecer comentários na página oficial do CHEGA que me foi imposta, após ter feito um comentário que não põe em causa os estatutos do partido”, escreveu Manuel Pinho, que afirmava ter-se instalado um “sistema autocrático no próprio partido”.

Desde esse mês até agora, a presidência de André Ventura sofreu várias provações. Exemplo disso foi o ambiente de tensão palpável na II Convenção Nacional do CHEGA, onde se acentuaram as críticas ao deputado único do partido e a sua direção só conseguiu ser eleita à terceira tentativa – depois de André Ventura ter ameaçado demitir-se da presidência, caso o impasse não fosse ultrapassado.

Manuel Pinho acreditava que o CHEGA era “um partido diferente, que contava com todos”, mas afirmou ter-se enganado. “Fica o essencial para perceber o descontentamento de alguém que acreditou em si”, rematou, dirigindo-se a Ventura.

Do extremo ao centro – a “lei da rolha” no PSD

Os deputados do PSD devem contactar a assessoria de imprensa do partido antes de falarem com qualquer órgão de comunicação social. Fotografia: José Sena Goulão

O acordo entre o PSD e o CHEGA pode ter-se circunscrito aos Açores, mas, a nível nacional, a “lei da rolha” parece ser uma similaridade entre ambos os partidos. É que, em fevereiro, Rui Rio enviou aos restantes 78 deputados do seu partido um comunicado que estabelecia as novas regras de comunicação do mesmo.

De acordo com o documento que a revista VISÃO obteve, daquele dia para a frente, todos os contactos com órgãos de comunicação social deveriam ser articulados “através da assessoria de imprensa” do partido – em resumo, os deputados não teriam a liberdade de comunicar diretamente com a comunicação social.

Para Rui Rio, presidente do PSD, o objetivo desta reformulação interna seria assegurar “a coerência política e a eficácia da mensagem” e garantir a “ampla difusão da mesma”, de forma a dar destaque “ao trabalho desenvolvido nas comissões, através da imprensa local e dos meios de comunicação digital”, para que os seus eleitores pudessem saber os trabalhos e projetos políticos que o partido tinha para o país de modo mais coerente e organizado.

No entanto, Luís Menezes, uma das vozes mais ativas contra Rui Rio, discordou.

Através do Twitter, o antigo deputado da XI e XII legislaturas, perguntou se estava “tudo maluco”, lamentando o “triste caminho” que os sociais-democratas estavam a seguir. Luís Menezes relembrou ainda que, nos cinco anos em que esteve no Parlamento, sob a liderança de Manuela Ferreira Leite e Pedro Passos Coelho, nunca foi “proibido de falar sobre assunto nenhum” – e o mesmo aconteceu com todos os outros deputados.

Artigo escrito por Ricardo Silva. Revisto por Pedro Valente Lima.

Este artigo é da total responsabilidade da APA – Academia de Política Apartidária