Política

Eleições Legislativas: a noite que mudou o panorama político português

A noite eleitoral foi de surpresas: o PS venceu por maioria absoluta, o Chega tornou-se a terceira força política portuguesa, a Iniciativa Liberal somou mais sete deputados, o CDS-PP ficou fora do Parlamento, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português perderam vários deputados. Nenhum partido sem assento parlamentar conseguiu eleger deputados. Por Filipe Pereira e Inês Pinto Pereira

 

Sala de sessões do Parlamento (Foto: Parlamento)

Os portugueses votaram a 30 de janeiro para eleger os 230 deputados do Parlamento. 117 assentos parlamentares (119 após apuramento dos círculos eleitorais da Europa e fora da Europa)  foram atribuídos ao Partido Socialista, que venceu as eleições com maioria absoluta.

O PS, liderado por António Costa, reforçou a confiança dos portugueses e deverá governar nos próximos dois anos. Para o presidente do partido, “esta maioria só foi possível porque se juntaram ao PS milhares de cidadãos de várias origens de pensamento político e que entenderam que era o PS quem poderia garantir as melhores condições de estabilidade”.

António Costa celebra a maioria absoluta em noite eleitoral (Imagem: PS)

No entanto, Costa relembrou que a maioria absoluta exige uma responsabilidade maior e que não será só o PS a governar o país – “será uma maioria de diálogo com todas as forças políticas que representam na Assembleia da República os portugueses na sua pluralidade”.

O PS elegeu, no círculo eleitoral do Porto, 19 deputados (Alexandre Quintanilha, Rosário Gambôa, João Pedro Matos Fernandes, Isabel OnetoJoão Paulo Correia, Ana Paula Bernardo, João Torres, Tiago Barbosa Ribeiro, Cristina Mendes da Silva, Eduardo Pinheiro, Hugo Carvalho, Joana Lima, Rui Lage, Carlos Brás, Patrícia Ribeiro Faro, Carla Sousa, Miguel Rodrigues, Sofia Andrade e José Carlos Barbosa).

O Partido Social Democrata perdeu apenas 1 deputado (tem agora 78 deputados ), em comparação às eleições legislativas de 2019. Ainda assim, o  resultado (27,80%) ficou aquém dos objetivos do partido, mas Rui Rio já garantiu que o Conselho Nacional será convocado para a preparação das eleições internas, das quais sairá o sucessor do presidente do PSD.

Este mês, é definida a data do congresso para escolher o sucessor de Rui Rio na presidência do partido (Imagem: Facebook PSD)

No Porto, o PSD assegurou 14 deputados (Sofia Matos, Rui Rio, Paulo Rios, Catarina Rocha Ferreira, Afonso Oliveira, Hugo Carneiro, Márcia Passos  Paulo Ramalho,  Rui Pedro  Lopes, Germana Rocha, Miguel Santos, Pinto Moreira,  Andreia Neto e  Firmino Pereira).

O Chega tornou-se na terceira força política portuguesa com 12 assentos parlamentares, sendo que dois (Rui Afonso e Diogo Pacheco Amorim) foram eleitos no Porto. O presidente do partido, André Ventura, mostrou satisfação pelos resultados obtidos, afirmando que a vontade dos portugueses é explícita: “queremos o Chega como solução de um governo à direita”.

A Iniciativa Liberal, com apenas um deputado eleito em 2019, conta agora com oito na Assembleia da República. João Cotrim de Figueiredo declarou que o resultado da IL foi uma prova de que “é possível ganhar votos sem ser populista ou extremista e é uma da democracia em Portugal”. Carlos Guimarães Pinto e Patrícia Gilvaz foram os deputados eleitos pelo círculo eleitoral do Porto.

O Bloco de Esquerda registou a maior queda da noite eleitoral. Elegeu apenas 5 deputados, menos 19 do que nas últimas legislativas. Segundo a líder do partido, “O resultado do BE é uma derrota, e neste partido encaramos as dificuldades como são”.

No entanto, a porta-voz dos bloquistas não pretende abandonar a chefia do BE, apesar do número de votos obtidos (4,46%). Catarina Martins, assim como José Soeiro, foi eleita pelo círculo eleitoral do Porto.

Também o Partido Comunista Português reduziu para metade o número de deputados eleitos no Parlamento (12 para 6). O líder do partido acredita que o resultado do PCP nas eleições (4,39%) e a maioria do PS se deveram à “promoção de uma extrema bipolarização”.

João Oliveira, que assegurou o lugar de Jerónimo de Sousa durante a campanha, e António Filipe não mantiveram o seu assento parlamentar. Já Diana Ferreira é a deputada eleita pelo círculo eleitoral do Porto.

O PAN conseguiu garantir um único assento parlamentar, o que significa que perdeu 3, em comparação a 2019. “É com muita tristeza que assumo o mandato sozinha. Com a certeza que numa próxima eleição seremos muitos mais. Não é um fim, é um recomeço”, afirmou, a porta-voz do PAN, Inês de Sousa Real.

O Livre manteve o deputado eleito nas últimas eleições legislativas, desta vez através de Rui Tavares. O líder do partido considerou que “o partido da esquerda verde europeia regressa ao Parlamento para ficar”.

O CDS-PP não elegeu qualquer deputado, pela primeira vez, em 47 anos. O líder do partido, Francisco Rodrigues dos Santos, assumiu não “reunir condições para continuar a liderar” e, como tal, demitiu-se.

CDS-PP está ausente do Parlamento pela primeira vez desde o 25 de abril (Imagem: CDS-PP)

 

O futuro dos partidos que não alcançaram um lugar no Parlamento

Cartaz de campanha do MAS (Foto: MAS)

O Movimento Alternativa Socialista (MAS) foi o partido sem assento parlamentar com maior crescimento. O partido de Renata Cambra teve um crescimento exponencial, passando de 3.331 votos em 2019 para 5.986 votos nas eleições de 30 de janeiro.

Pedro Castro, cabeça de lista do Movimento Alternativa Socialista (MAS) pelo Porto salienta ao JUP que “foi a primeira vez que o Movimento Alternativa Socialista concorreu a todos os círculos eleitorais” , sendo a crescente implementação nacional vista como uma vitória. Tal como na entrevista publicada no JUP a 28 de janeiro, Castro volta a frisar que o principal foco da intervenção política do MAS não é as eleições, mas sim a luta no quotidiano.

Castro fala de “cálculos eleitorais” por parte do Bloco e do PCP como a causa para o chumbo do Orçamento de Estado, uma vez que os dois parceiros do PS na Geringonça, compreenderam que a proximidade em relação aos socialistas não favorecia eleitoralmente nenhuma das duas partes, o que “provocou uma confusão enorme no eleitorado de esquerda”. O membro do MAS fala da importância das sondagens como causa para a alteração das intenções de voto em prol do PS, uma vez que “as últimas sondagens já davam o PSD à frente do Partido Socialista”. Pedro Castro diz que os últimos prognósticos criaram medo “no povo de esquerda com a possibilidade de regresso ao poder da direita, eventualmente com a extrema direita.

O representante do MAS duvida que ocorra uma transformação dentro da esquerda com vista a uma oposição forte mas salientou a esperança de que a esquerda denuncie no Parlamento, “as políticas de direita deste governo, a ineficácia das decisões tomadas até agora, a incapacidade que este governo vai ter para assumir a transição energética”. Responsabiliza PS, PSD e ainda o CDS-PP (em parte) por  políticas que destroem os serviços públicos. Garante que o partido continuará a lutar contra a emigração, contra a exploração do lítio e ainda falou sobre um protesto no qual o MAS estará presente

As manifestações do Dia Internacional da Mulher terão lugar a 8 de março.

Ainda em relação ao CHEGA, Pedro Castro refere o alcance pelo partido liderado por André Ventura “um público vê grandes dificuldades para aguentar até ao fim do mês, que está farto do sistema político (…) e que vê no CHEGA uma falsa alternativa e uma voz aparentemente dissonante das demais”. Salienta que os dirigentes do CHEGA “são antigos quadros dos partidos do sistema”

Castro falou também do “perigo” que é a Iniciativa Liberal.

Por último frisa que “nos últimos anos, as políticas aplicadas por António Costa têm sido exatamente as mesmas que a União Europeia quer que sejam seguidas em Portugal”. O cabeça de lista do MAS no Porto acusa a política da UE de favorecer os interesses da Alemanha e da França, pelo que o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR)”tem uma proveniência que é essencialmente, o bolso dos trabalhadores europeus” e questionou o destino da respetiva aplicação. Diz que são as famílias representadas pelo PS e pelo PSD que vão discutir o dinheiro entre si à qual se seguirá o pagamento de uma conta que “invariavelmente, vai acabar por ser posta mais uma vez sobre as costas daqueles que menos têm, daqueles que trabalham”.

Logótipo do VOLT (Imagem: Facebook oficial do VOLT no Porto)

O VOLT participou pela primeira vez em Eleições Legislativas. Não concorreu em todos os círculos eleitorais mas alcançou 5.513 votos (0,10% dos votos no total).

Tiago Pessanha, cabeça de lista do VOLT pelo Porto nas eleições de 30 de janeiro, destaca o resultado eleitoral do partido no círculo do Porto, onde conseguiram ter votos em todo o concelho. Contudo, converge com Pedro Castro do MAS no que concerne a uma “falta de visibilidade (…) falta de abertura” em relação à cobertura mediática das pequenas forças partidárias. Segundo Pessanha, “fizeram a cobertura do candidato nacional mas mesmo assim foi muito curta”, tento em conta a complexidade do partido.

“Os objetivos, e o mais importante, são continuar as ações perto da sociedade civil. Vamos continuar a trabalhar com grande proximidade, com os sindicatos, associações, entidades, instituições e perto da sociedade civil para apresentar as nossas ideias e a nossa mensagem. Como eu disse, a nossa mensagem é essencial e fundamental para Portugal. O que o VOLT defende é, sem dúvida, a forma de fazer Portugal sair da cauda da Europa para se tornar a cabeça da Europa, mas exige o seu tempo”.

Tiago Pessanha não vê a maioria absoluta “como um bom indicativo para o futuro dos portugueses” uma vez que considera a diversidade de ideias e o diálogo fundamentais para a democracia.

Por mais do que uma vez, o cabeça de lista do VOLT pelo Porto nas últimas eleições, assinalou o papel da comunicação social nos resultados eleitorais.

Um outro fator assinalado por Pessanha foi o clima de “confronto entre as duas maiores forças políticas portuguesas (…) quase, de certa forma, imposto aos portugueses”. Salientou a importância de interação interpartidária ao invés da polarização. O representante do VOLT fala de uma relutância à mudança que pode ter fomentado um “receio que o PSD e um governo de direita acontecesse”. Segundo Tiago Pessanha, este receio e as sondagens, que projetavam uma proximidade percentual entre PSD e PS, motivaram o eleitorado de BE e PCP a escolher os socialistas.

O cabeça de lista mostrou preocupação com a eleição de 12 deputados do CHEGA.

Recusou comentar a gestão do PRR pelo Governo. Admitiu todavia  a esperança de que se evitem os erros da bancarrota decorrente da última vez que o PS governou com maioria absoluta.

Tiago Pessanha assume uma postura confiante em relação ao futuro, dando a garantia de que o VOLT irá crescer. Pessanha diz que “a partir do momento em que as pessoas tenham contacto com o programa e as ideias do VOLT, normalmente, identificam-se e gostam muito” e suportou a afirmação com a entrada crescente de membros no partido.

Artigo da autoria de Filipe Pereira e Inês Pinto Pereira