Política

A Alemanha depois de Merkel

Depois de 16 anos no cargo de chanceler, Merkel abandona a política. Como seu possível sucessor, Olaf Scholz enfrenta meses de negociações para formar a maioria necessária para liderar o país. Por Beatriz Carvalho

 

Angela Merkel é figura de destaque na história da União Europeia (Foto: Angela_Merkel_(9307204100).jpg/ European People’s Party/Creative Commons Attribution 2.0)

O adeus da “eterna chanceler”

Angela Merkel, considerada a “eterna chanceler” tanto na Alemanha como no exterior, liderou a nação germânica e tornou-se figura chave da União Europeia (UE) por 16 anos. No cargo, Merkel enfrentou a crise económica de 2008, a crise dos refugiados, o aumento de extremistas no seu país, o  conflito com a China bem como com a Rússia, e por fim, a pandemia. A chanceler, que continua no cargo até o partido vencedor conseguir formar uma coligação para começar a sua governação, será lembrada pelo seu protagonismo na UE e pelo “compromisso com os valores democráticos e liderança pragmática”.

Angela Merkel, Chanceler da Alemanha durante 16 anos (Foto: 12-03-06-cebit-eroeffnung-angela-merkel-21.jpg/Ralf Roletschek/Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 at)

Apesar da popularidade de Angela Merkel na Alemanha, o seu partido, CDU (União Democrata-Cristã) não conseguiu vencer as eleições em setembro. Armin Laschet pediu a demissão de presidente do partido após a derrota, não conseguiu sair da sombra de Merkel. O partido vê este insucesso como resultado das ações de Merkel, já que, segundo a CDU, a chanceler alienou vários votantes devido às suas políticas mais progressivas, como a aceitação de refugiados no país ou a aposta nas energias renováveis para combater as alterações climáticas. O vencedor da noite das eleições acabou por ser o vice chanceler e ministro das finanças em gestão, Olaf Scholz, que agora procura formar uma coligação com Os Verdes e o Partido Democrático Liberal (FDP) para obter a maioria necessária para constituir um governo. 

 

O legado de Merkel

Apesar de uma elevada popularidade interna e na Europa, Merkel deixa para trás um legado complexo. Por um lado, a chanceler apoiou medidas consideradas progressivas que não foram bem aceites pelos sociais-democratas, levando a que fosse culpabilizada por “erodir a identidade do partido”, que resultou na derrota nas eleições.

 Apesar da aposta em políticas para enfrentar as alterações climáticas, a Alemanha encontra-se numa posição desfavorável em relação a outros países pertencentes à UE, já que, segundo a Union of Concerned Scientists, foi o país europeu com maior emissão de CO2 em 2018. Embora Merkel tenha sido sempre uma figura predominante nas discussões sobre a implementação de medidas em outros países que possam diminuir o impacto de emissões de gases nocivos para a atmosfera, o esforço não é igual na Alemanha. Esta situação levou a uma onda de manifestações, principalmente da geração mais nova, que culpa o governo pelo atraso da transição energética e por um “desperdício da década entre 2010 e 2020” com uma política climática com demasiadas exceções para evitar prejuízos às grandes indústrias nacionais.

 

A missão de Scholz

Olaf Scholz, potencial sucessor de Merkel
(Foto: “2021-08-21 Olaf Scholz 0309 (rectangle).JPG”/ Michael Luncan/ Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 de)

O Partido Social-Democrata (SPD) foi o grande vencedor da noite eleitoral. Com 25,7% dos votos, o SPD voltou ao grande palco político enquanto o CDU (partido de Merkel) teve o seu pior resultado (24,1%). As conversas entre social-democratas, Os Verdes e o Partido Democrático Liberal (FDP) para formar uma coligação  decorreram durante algumas semanas até a coligação “semáforo” ter sido apresentada ao público pela primeira vez.

O ainda vice chanceler destacou que o foco deste novo governo é “trazer à Alemanha o progresso e a modernização necessária”. Apesar do otimismo que rodeou as negociações, os Verdes tiveram como demanda para participar na coligação a antecipação para 2030 do cessar do uso do carvão, entre outras medidas que pretendem compensar o atraso da última década no combate às alterações climáticas no país.

 O maior problema será conseguir arranjar fundos públicos para financiar estas medidas, já que as exigências do FDP incluíram o não aumento dos impostos e o aumento do salário mínimo. Embora uma coligação alternativa entre estes dois partidos e o CDU fosse uma aposta menos popular, não é algo que estivesse completamente descartado e por isso as semanas de negociações foram extremamente importante para que Scholz e o SDP conseguissem encontrar pontos em comum entre os social-democratas, os verdes e os liberais de forma a chegar a acordo sobre o futuro do governo e do país.

Artigo da autoria de Beatriz Carvalho. Revisto por Filipe Pereira e Inês Pinto Pereira