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Um (novo) capítulo na história do Afeganistão

Um artigo de Afonso Morango.

Outrora uma encruzilhada nos caminhos da Rota da Seda, o território do Afeganistão sempre fez parte da história de grandes Impérios, desde o legado de Alexandre, o Grande e a ferocidade dos Mongóis, até aos Impérios Soviético e Britânico. No entanto, apesar de todas as incursões ao longo dos milénios, o “cemitério de impérios” nunca se deixou controlar e os afegãos, muitas vezes refugiados nas suas cordilheiras, mostraram ser o típico povo que não se governa nem se deixa governar.

Em 1979, numa tentativa de manter o Afeganistão “à esquerda”, a União Soviética ocupou o território montanhoso. Demorou pouco mais de uma década para que o exército soviético compreendesse que nunca conseguiria dominar aquele país perante a resistência feroz das guerrilhas do Islão. Após a retirada das forças russas, o país mergulhou num reinado de terror, fruto das disputas entre os diversos grupos de Mujahideen, terminando apenas com a ascensão fulgurante dos talibãs, que acabariam por dominar o território.

Os talibãs, ou “estudantes da religião”, prometeram restaurar a ordem e a justiça. Dotados de um arsenal militar e de um vasto espólio de guerra, tomaram Kandahar, a antiga capital real, e, dois anos mais tarde, Cabul. Uma vez no poder, os talibãs instauraram a sua interpretação extremista e brutal da lei islâmica, submergindo o país num regime de desbrio e fanatismo.

Contudo, no início do século XXI, a humanidade iria assistir ao episódio que moldaria as décadas vindouras. A 11 de setembro de 2001, a Al-Qaeda, uma rede de extremistas islâmicos, perpetrou um dos maiores atos de terrorismo da História. Quando o regime talibã se recusa a entregar Bin-Laden, os Estados Unidos e toda a sua rede de Aliados invadem o Afeganistão, iniciando uma guerra que duraria duas décadas e que terminou há dias. O mundo declarava guerra ao terror.

Em julho de 2021, vinte anos de desmesuradas perdas e avultados gastos depois, Joe Biden anuncia a retirada das forças norte-americanas do território afegão, suscitando reações por parte de toda a comunidade internacional e muitos perguntaram-se para que teria servido o esforço de milhares ao longo dos últimos vinte anos.

Mais um império tinha caído aos pés do caráter afegão e muitos temem agora um novo período da idade das trevas. Os líderes políticos já foram evacuados e milhares de famílias afegãs tentam de tudo para fugir do que aí vem. As imagens são verdadeiramente avassaladoras e o desespero é transparente para todo o globo quando vemos seres humanos agarrados com as suas vidas aos aviões que abandonam o Afeganistão.

A Europa já se prepara para uma nova crise de refugiados e um novo desafio político e social sem precedentes, agravado pelo papel desempenhado pela Turquia em crises anteriores e a ausência de um líder como Angela Merkel, particularmente numa Alemanha em clima eleitoral.

O avanço absolutamente incessável e aterrador de uma organização religiosa e extremista sobre um Estado que nunca existiu desvenda alguns dos problemas criados ao longos dos últimos vinte anos. A invasão do Afeganistão em 2001, embora tenha levado à captura de Bin Laden e ao cessar da exportação da Al-Qaeda, não alterou a natureza do Estado afegão nem a capacidade das suas forças de segurança e os resultados são claramente visíveis agora. As forças ocidentais falharam e, em mais um dos seus rasgos de brilhantismo, Donald Trump assinou um controverso acordo com as forças talibãs em 2018, acordo esse em que só o ex-presidente norte-americano deve ter acreditado.

A verdade é que, depois de vinte anos sob uma “democracia ocidental” e de contínuos bombardeamentos, o povo afegão está cansado e não será de estranhar a falta de resistência por parte das forças afegãs, treinadas pelos Estados Unidos e NATO, à incursão talibã até Cabul. Foram mais duas décadas a tentar resolver um problema num país do Médio-Oriente partindo de uma perspetiva ocidental e mais uma invasão precipitada dos Estados Unidos sem plano de saída.

É certo que se avizinha um período de governação pelas forças talibãs sem resistência, mas o que preocupa verdadeiramente as Nações Unidas e toda a comunidade internacional são as violações dos direitos humanos, em particular das mulheres e das crianças. Neste momento, os talibãs dizem o que mais agrada à comunidade internacional, prometendo uma transição pacífica, mas a História já nos mostrou que confiança é um luxo ao qual não nos devemos atrever.

É tempo agora da comunidade internacional unir-se verdadeiramente e agir em conjunto. Os direitos humanos são a base da vida e devem ser defendidos a todo o custo. A situação é desoladora e é absolutamente urgente que nos asseguremos que o Afeganistão não continua um porto seguro para terroristas, porque, na verdade, nunca deixou de o ser. Os problemas que se avizinham, fruto dos eventos das últimas duas semanas, serão agoniantes e aflitivos, desde logo a questão da droga, principal financiadora dos talibãs. O Irão, lar de minorias alvo da opressão dos talibãs, deverá ser um ponto fundamental da cooperação ocidental e a Arábia Saudita, que financia o Paquistão e ajuda na disseminação do fundamentalismo islâmico, presente nos talibãs, no Daesh e na Al-Qaeda, não pode continuar a passar despercebida.

Neste momento, a política externa da União Europeia face a esta situação é praticamente inexistente e a NATO e todos os seus aliados seguem a palavra norte-americana, sendo que os Estados Unidos terão, portanto, um importante papel moderador nos próximos tempos, bem como a China, cujos interesses estratégicos na região já são bem conhecidos.

Neste momento, a prioridade deve ser ajudar quem precisa e tirar do país quem assim o deseja. Os refugiados afegãos não são uma novidade e é dever absoluto daqueles que têm a capacidade de fazer promessas, cumpri-las. Devemos proteger e integrar aqueles que procuram abrigo e é imperativo que não continuemos a alimentar a ficção de que o Afeganistão é um país seguro. É, sim, um Estado pária governado pelo terror talibã que merece toda a nossa atenção. As ainda recentes promessas talibãs já foram quebradas e os inúmeros relatos de violações dos direitos humanos já são bem conhecidos em todo o mundo. O Ocidente não pode compactuar com um regime opressor e terrorista. Os Estados Unidos e o mundo Ocidental têm estado em défice estratégico e soluções eficazes urgem. É fundamental que, por motivos estratégicos e hipócritas, Washington não ceda ao governo talibã. Mais do que nunca, são os direitos humanos de milhares de inocentes que estão em jogo e a dignidade humana que deve ser protegida e assegurada àqueles que não o conseguem fazer. É fundamental que não deixemos a História repetir-se e que não deixemos passar impunes novas falas promessas.

 

Artigo da autoria de Afonso Morango