Política

Chipre: Extrema direita cresce, partidos tradicionais mantêm maioria

O centro-direita mantém maioria no parlamento, mas perde força. Partidos pequenos crescem numa eleição que marca o início de um período de testes importantes para o Presidente do Chipre. Por Filipe Pereira

O partido Manifestação Democrática (DISY), força de centro-direita, venceu as eleições parlamentares do Chipre, realizadas a 30 de maio, com 27,77% dos votos. Em 2º lugar, ficou o Partido Progressista dos Trabalhadores (AKEL), partido comunista do Chipre, com 22,10% dos votos. 

A eleição foi apenas para 56 dos 80 lugares do parlamento, uma vez que os restantes estão destinados à câmara da comunidade turco-cipriota, abolida desde a década de 1960, pelo que 24 assentos permanecem vagos.

O ato eleitoral ficou ainda marcado pelo crescimento da Frente Popular Nacional (ELAM), um partido nacionalista anti-imigração. O ELAM obteve 6,78% dos votos. Por sua vez, os tradicionais DISY e AKEL perderam 2,9% e 3,3% dos votos.

O sistema de governo do Chipre

O Chipre é o único país da União Europeia com um regime presidencial, ou seja, em que o Presidente é simultaneamente o chefe de governo e o chefe de Estado. A eleição parlamentar serve para determinar a composição da Casa dos Representantes do Chipre, órgão responsável pela emanação de leis, bem como pela aprovação das propostas de lei do governo (incluindo o Orçamento de Estado). 

Como nota Yiorgos Kakouris, jornalista colaborador do projeto Europe Elects, as legislativas são semelhantes a um referendo para medir a popularidade do governo atual. 

O Governo é constituído pelo Presidente e pelos Ministros nomeados pelo chefe de governo, geralmente membros de partidos que apoiam o Presidente na respetiva eleição.

Uma nova Aurora

A eleição ficou ainda marcada pela perda de força eleitoral dos dois maiores patidos do país (DISY e AKEL) e, em contraste, pelo crescimento da extrema direita nacionalista e antimigração, representada pelo ELAM. O partido liderado por Christos Christou alcançou 6,8% da votação, quase o dobro da percentagem alcançada pelo mesmo partido nas eleições de 2016 (3,7% dos votos).  

Christos Christou, líder da extrema-direta cipriota. Fonte: Site oficial do Parlamento do Chipre

O ELAM surgiu como uma filial do Aurora Dourada da Grécia, partido neo-Nazi cujos líderes foram condenados por gestão de uma organização criminosa, em 2020. A condenação dos líderes da extrema direita grega levou o ELAM a distanciar-se cautelosamente do discurso do Aurora Dourada.

A corrupção foi um tema central, em particular na retórica dos partidos mais pequenos. Foram dirigidas acusações ao DISY, motivadas por uma investigação independente, publicada pela Al Jazeera, a um programa de investimento para obtenção de cidadania cipriota. A investigação descobriu documentos do Estado, reveladores de que 2500 pessoas pagaram para receber cidadania cipriota, incluindo pessoas associadas ao crime organizado. A investigação salienta que o processo foi facilitado por Oficiais do Estado, advogados e até políticos.

O que reserva o futuro?

Andos Kyprianou, líder do AKEL, admitiu que o resultado não foi o esperado  e que será examinado “cuidadosamente”, para que se tirem as devidas conclusões. Nos últimos dias de campanha, o Presidente do DISY apelou aos apoiantes tradicionais que não permitissem que o Parlamento se transformasse num conjunto de partidos pequenos e fraturados que bloqueassem o processo legislativo.  

Nicos Anastasiades, Presidente do Chipre. Fonte: balkaneu.com

O resultado eleitoral dificulta a passagem de legislação emanada pelo DISY no Parlamento, o que já acontecia antes das eleições de 31 de maio, nomeadamente com a rejeição inédita do Orçamento de Estado para 2021.

Depois de ter conhecimento dos resultados, o Presidente do Chipre, Nicos Anastasiades, apelou ao patriotismo das forças políticas, “pondo de lado as intenções pré-eleitorais”. O Presidente do Chipre  salientou ainda a intenção de reunir com os líderes dos partidos com assento parlamentar. As eleições presidenciais estão marcadas para 2023 e Anastasiades já anunciou que não se irá candidatar a um 3º mandato.

Artigo da autoria de Filipe Pereira. Revisto por José Milheiro e Marco Matos.