Autárquicas 2021 Política

Autárquicas2021: Vale de Cambra

Localizado junto à Serra da Freita, a 53 quilómetros do Porto, o concelho de Vale de Cambra resulta da confluência entre montes e vales. Desde as zonas mais altas e rurais até à várzea onde se encontra o centro da cidade e a sede do município, muitos são os desafios que a autarquia tem pela frente. Nas eleições do próximo dia 26 de setembro os valecambrenses vão às urnas para decidir qual dos candidatos é o mais competente para os ultrapassar. Por André Almeida.
Vale de Cambra
Foto: André Almeida

É no sudeste da Área Metropolitana do Porto (AMP) que encontramos a única Câmara Municipal governada exclusivamente pelo CDS-PP na região. Vale de Cambra foi inclusive o concelho que garantiu a vitória mais expressiva entre os municípios da AMP, com 65,4% dos votos, nas eleições de 2017. Bastante longe ficou o PSD com 17,5% e o PS com 11,3%. José Pinheiro é o homem por detrás do executivo cambrense desde 2013, altura em que afastou os sociais-democratas do poder local após 20 anos.

Desde as primeiras autárquicas após a ditadura do Estado Novo, Vale de Cambra esteve sempre nas mãos dos sociais-democratas ou dos centristas. Ambos os partidos já venceram por seis vezes neste município, sendo que atualmente o CDS-PP pretende conquistar o terceiro (e último) mandato para José Pinheiro, à frente do executivo cambrense.

Atualmente, os centristas dominam não só o executivo, como também a assembleia municipal e a maioria das assembleias de freguesia. Apenas Macieira de Cambra foge à tendência e é liderada por um presidente socialista. Em todas as outras (União de Freguesias de Vila Chã, Codal e Vila Cova de Perrinho, Roge, São Pedro de Castelões, Cepelos, Junqueira e Arões) é o CDS-PP quem governa.

Vale de Cambra é um dos municípios onde há também uma maior afluência às urnas em dia de autárquicas. A abstenção inclusive diminuiu em 2017 (34,2%) – ano em que um presidente concorria para a reeleição. Apenas Arouca, Paredes, Vila do Conde e Santo Tirso registaram valores menores.

Retrato atual do município

Vale de Cambra
Foto: André Almeida

Uma vitória neste concelho é importante para todos os partidos devido ao seu forte tecido empresarial. Desde o setor das madeiras, até à automação, passando pelas embalagens e pela metalomecânica, Vale de Cambra está entre os municípios da Área Metropolitana do Porto com maior volume de negócios feitos pelas suas quatro maiores empresas.

Veja-se que a autarquia possui também a quinta maior média de salários ganhos mensalmente da AMP (1.107,90€), apenas atrás do Porto, Matosinhos, Maia e Vila Nova de Gaia. Destaca-se também o facto de ser o concelho com a menor taxa de desemprego da região, com cerca de 3,2% – um valor bastante abaixo do que se encontra nos restantes municípios. 

Desde as primeiras autárquicas após a ditadura do Estado Novo, Vale de Cambra esteve sempre nas mãos dos sociais-democratas ou dos centristas. Ambos os partidos já venceram por seis vezes neste município, sendo que atualmente o CDS-PP pretende conquistar o terceiro (e último) mandato para José Pinheiro, à frente do executivo cambrense.

Contudo, Vale de Cambra conta apenas com com 21.279 habitantes, segundo estimativas os Censos 2021, um valor que representa uma quebra de mais de 1.500 pessoas desde 2011 – dos piores registos do distrito de Aveiro – e que põe a nu um dos problemas que o município precisa de resolver nos próximos anos: o despovoamento. Apesar do crescimento populacional que tem ocorrido desde 2017 na Área Metropolitana do Porto devido à imigração, o número de cambrenses continua em queda – algo que se prolonga desde o início do século. O centro urbano até registou recentemente um aumento populacional, mas as freguesias mais rurais tiveram perdas bastante acentuadas.

É em Vale de Cambra também que encontramos o maior índice de envelhecimento da região, sendo que para cada 100 jovens existem 247,8 idosos, valor que é apenas de 161,7, em média, na AMP. Fatores que podem justificar isso são a própria localização do concelho na região, as fracas acessibilidades, transportes e oferta habitacional, tal como afirmou Carlos Brandão, diretor da Associação Empresarial de Cambra e Arouca (AECA), ao jornal ‘Notícias de Aveiro‘, sobre a situação dos dois concelhos do sudeste da região. “Temos de ter uma política de habitação e transportes para fixar as pessoas. Não há disponibilidade de pessoas para trabalhar“, disse. 

A autarquia possui também a quinta maior média de salários ganhos mensalmente da AMP (1.107,90€), apenas atrás do Porto, Matosinhos, Maia e Vila Nova de Gaia.

As dificuldades de Vale de Cambra vêm a par de problemas que já estão associados à sub-região de Entre o Douro e Vouga, como a fraca acessibilidade ao Porto. Veja-se que não há uma ligação ferroviária direta entre estes concelhos do sul da AMP até ao centro da metrópole. Vale de Cambra e Arouca inclusive não possuem ferrovia. Ora isto, segundo o presidente da AECA, condiciona o investimento nestes municípios. Assim sendo, afigura-se aqui outro desafio para o qual a autarquia cambrense deve responder nos próximos anos, de modo a aumentar o fluxo de pessoas no concelho e a fixá-las’.

Recentemente, com a valorização turística da Serra da Freita, têm surgido oportunidades para fazer isso mesmo e dinamizar o turismo nesta zona. O executivo de José Pinheiro aproveitou então para lançar uma Estratégia para o Turismo de Vale de Cambra, de modo a aproveitá-las. Veja-se também que é neste concelho que a avaliação bancária das habitações é mais baixa na região, o que pode ser vantajoso para captar e fixar a população jovem, que não consegue encontrar casas a preços acessíveis no centro da AMP.

Outra característica da autarquia que pode ajudar a servir esse propósito é o facto de os impostos locais estarem no mínimo. Em 2019, o executivo camarário baixou o IMI e a derrama no concelho, o que não comprometeu as contas municipais, que são das que possuem uma maior em receita em percentagem das despesas.

A nível de ensino, Vale de Cambra tem também bons indicadores. É o município da Área Metropolitana do Porto com a menor taxa de retenção e desistência de alunos do secundário, com apenas 5,2% – longe da média da AMP que é de 10,9%. Já a escolaridade média dos habitantes no concelho (9,6 anos de escolaridade) encontra-se um pouco abaixo do total da região (10,3), no entanto regista um resultado melhor do que as autarquias vizinhas, Arouca e Oliveira de Azeméis.

Em contrapartida, é o concelho que possui a menor percentagem de empresas no setor da cultura e desporto. O investimento camarário nestas categorias ficou também, em 2019, abaixo da média da AMP, no entanto, o município ficou ainda à frente de várias congéneres.

Candidatos à presidência de Vale de Cambra

Vale de Cambra
Foto: facebook/José Pinheiro

José Pinheiro (CDS-PP)

Depois de oito anos à frente da Câmara valecambrense, José Pinheiro volta a apresentar-se como candidato nas eleições autárquicas para um possível último mandato. Com o objetivo de garantir estabilidade no concelho e continuar o projeto iniciado em 2013, o candidato diz ter conseguido ao longo da sua presidência “fazer obra, pagar aos fornecedores num prazo de sete dias, investir em todas as freguesias, (…) e conseguir ter a Câmara Municipal com a melhor situação financeira dos últimos vinte anos”.

O seu programa autárquico pretende consolidar o trabalho feito nos últimos anos. A conclusão de obras em curso, como a requalificação do antigo cinema de Vale de Cambra num centro de artes e espetáculos, são metas para os próximos quatro anos. Em entrevista ao jornal ‘A Voz de Cambra’, referiu também a aprovação da Estratégia Local de Habitação como algo a ter impacto na vida dos cambrenses no futuro.

Frederico Martins (PSD)

Vale de Cambra
Foto: facebook/Frederico Martins

Os sociais-democratas tentam recuperar Vale de Cambra através da candidatura de Frederico Martins, engenheiro civil de 44 anos. Nascido em França, mas residente no concelho desde 1883, o candidato pretende fazer com que os valecambrenses tenham orgulho na sua terra. “Vale de Cambra, há algum tempo a esta parte, tem vindo a ser ultrapassada no que toca ao desenvolvimento social e económico”, afirma.

Em entrevista à rubrica “Na cadeira da presidência“, do jornal ‘A Voz de Cambra’, disse que a sua primeira medida a tomar caso chegue à liderança da Câmara Municipal será saber em que ponto estão as contas do município e, a partir daí, “corrigir o que está menos bem feito” e ir ao encontro do seu plano autárquico, que será apresentado em breve.

O candidato confessou ainda que não gosta que Vale de Cambra seja tratado como um concelho do interior mais profundo do país, quando na verdade este está a 30 quilómetros do mar.

Tiago Fernandes (‘Todos por Vale de Cambra’, PS)

Vale de Cambra
Foto: facebook/Tiago Fernandes 2021

Os socialistas procuram a sua primeira vitória em Vale de Cambra com Tiago Fernandes, um candidato independente com uma lista própria, que segundo o líder distrital “é uma abertura do Partido Socialista à sociedade civil para a criação de um novo projeto para Vale de Cambra”. Tem 28 anos, estudou Direito e fundou a Rede Scientiae, uma associação que aproxima jovens e empresas. A sua candidatura pretende “renovar o território” cambrense e afirmar o concelho na região.

A sua decisão de se candidatar à autarquia deve-se, segundo Tiago Fernandes, ao facto de “Vale de Cambra estar parada no tempo e não ter uma visão e uma estratégia clara para o seu futuro”. Se vencer as eleições pretende que o concelho esteja mais integrado na Área Metropolitana do Porto, criar um cluster tecnológico que dinamize a capacidade empresarial do município e traga valor acrescentado, promover novos desportos no concelho, etc.

Germano Dias (CDU)

Vale de Cambra
Foto: facebook/CDU – Vale de Cambra

A quarta força política nas últimas autárquicas em Vale de Cambra apresenta-se este ano com Germano Dias na corrida à presidência da Câmara. O especialista químico de 57 anos tem como slogan para esta campanha “a força de abril a construir o futuro”.

Entre diversas propostas apresentadas no programa do partido, destaca-se a tentativa de reabrir o SAP em Vale de Cambra, revitalizar a estrada que faz ligação entre Vila Cova de Perrinho e Vale de Cambra, promover a fixação de novas empresas no concelho, criar um campeonato de futebol municipal, incentivar a criação de um berçário e creche a preços acessíveis e dinamizar workshops sobre variados temas para os jovens.

Paulo Renato Oliveira (Bloco de Esquerda)

Vale de Cambra
Foto: facebook/Bloco de Esquerda Vale de Cambra

Natural de Vale de Cambra, o professor de 47 anos apresenta-se como a aposta dos bloquistas para conquistar a autarquia. Candidata-se porque reconhece vários problemas no concelho, entre eles o escasso número de habitação pública e o desordenamento do território. “O interior do concelho está desertificado e a parte urbana muito desordenada e caótica”, afirma.

As propostas que o Bloco pretende levar a cabo em Vale de Cambra caso vença passam pela criação de habitação pública, combater a especulação imobiliária, requalificação da escola básica de Vila Chã, reforçar as rotas e horários dos autocarros para o interior do concelho, insistir na requalificação da linha do Vouga, e ainda, dinamizar áreas como a saúde, ação social, ambiente, educação, cultura e desporto.

Jorge Costa (CHEGA)

Foto: facebook/CHEGA – Vale de Cambra

Natural de Alpiarça, mas a viver em Vale de Cambra desde os 19 anos, o funcionário dos CTT revelou ao jornal ‘A Voz de Cambra’ que o que motiva a sua candidatura são “as pessoas e contribuir para melhorar Vale de Cambra, a todos os níveis”.

Ainda pouco se sabe sobre o programa do CHEGA para o município. Contactado pelo JUP, o partido não respondeu até à data da publicação deste artigo.

Artigo da autoria de André D’Almeida. Revisto por José Diogo Milheiro.