Política

Alemanha: A saída de Merkel e o futuro da UE

Em breve, diremos adeus a Angela Merkel, a chanceler que fez história na Alemanha, e marcou o rumo da UE, numa altura delicada da história do projeto europeu. Por Ricardo Terrinha
Encontro entre Merkel e Macron [Foto: Lusa/EPA]

Dezasseis anos depois

A liderança de Merkel e a sua capacidade de negociação e de afirmação foi interna e externamente reconhecida, marcando o progresso da Europa, enquanto comunidade que se pretende agregadora. 

A 26 de setembro de 2021, realizar-se-á a votação para eleger o novo chanceler da Alemanha.  Angela Merkel deixou claro, em setembro de 2018, que não se recandidataria, fruto de resultados eleitorais menos positivos pelo seu partido, o Partido Democrático Cristão (CDU). 

Merkel é licenciada em física e doutorada em física quântica, o que terá contribuído para sua visão pragmática, desapaixonada e estratégica de temas importantes, alguns até fraturantes, como por exemplo, o da emigração. 

A chanceler, que tomou o rumo do seu país aos 51 anos, lidera a Alemanha desde 2005, depois de crescer sob o regime comunista da Alemanha Oriental. A preponderância do cargo, não só está patente na Alemanha, onde é popular, mas também na União Europeia. Ao longo dos anos, foi responsável pela tomada de decisões de relevo, como em 2011 quando desenvolveu um programa para acabar com a energia nuclear na Alemanha.

A saída de Angela Merkel não constitui apenas uma preocupação para os alemães. A sua não recandidatura deixa perspetivar uma maior influência de Emmanuel Macron nos desígnios de liderança da União Europeia. 

Suceder a Merkel é um desafio complexo e exigente, e sabendo-se que as preocupações do Presidente francês se centram nas questões internas, o futuro da União Europeia torna-se mais incerto.  

Ao longo de 16 anos, a chanceler alemã revelou-se determinante para muitas negociações e decisões, que visaram garantir o sucesso da União Europeia.

Crise Migratória 

Em 2015, o continente europeu assistiu a uma das maiores crises migratórias desde a Segunda Guerra Mundial. A guerra na Síria e os conflitos no Afeganistão e no Iraque levaram mais de um milhão de imigrantes a pedir asilo na Europa. Perante o desespero dos que, sem teto, iam chegando, Angela Merkel respondeu de forma assertiva. 

Contra todas as expetativas, e em rutura com a forma de agir de outras épocas, a chanceler alemã, não tendo consultado especialistas na matéria, decidiu alterar as leis migratórias da Alemanha, adotando uma política ousada de portas abertas. 

De acordo com os dados da Eurostat, a Alemanha foi o país do continente europeu a receber mais pedidos de asilo, totalizando 476 mil pedidos dos 1,3 milhões de imigrantes. No entanto, apesar do reconhecimento que obteve no palco mundial, não se viu livre de duras críticas na frente interna. 

Fim do uso de energia nuclear na Alemanha

Angela Merkel pautou-se sempre por um estilo sóbrio e neutro, o que lhe permitiu, mesmo perante temas delicados, nunca ver a sua figura nem popularidade junto do povo alemão abalada de forma relevante. 

Na opinião de Andrea Römmele, professora de ciências políticas da Escola de Hertie, em Berlim, a chanceler alemã revelou ter a capacidade particular de adaptar as suas políticas às dos parceiros da União Europeia, muitas vezes mudando a sua perspetiva em relação a determinados assuntos. 

A sua habilidade e perícia política estiveram bem patentes na questão da energia nuclear. Após o tsunami no Pacífico e o consequente desastre nuclear em Fukushima, em 2011, lançou o desafio de a Alemanha eliminar todas as centrais nucleares até 2022. Associado a isso, comprometeu-se a garantir uma política de investimento em energias renováveis.

Ocupando o lugar cimeiro no uso deste tipo de energia, 46% da energia consumida na Alemanha é  proveniente de fontes renováveis, um número elevado para um país sem recursos energéticos hídricos.

A eliminação de centrais nucleares, e subsequente transição energética, apenas foi possível uma vez que ocorreu uma intensificação do abastecimento de gás russo. Através do gasoduto submarino Nord Stream, a Alemanha recebe diretamente gás proveniente da Rússia, desse modo conseguindo suprir todas as suas necessidades energéticas. 

Crise Europeia

Quando em 2008, a crise económico-financeira se instalou a nível mundial, Angela Merkel somava apenas 3 anos de mandato. Principal defensora e engenheira do plano da recuperação e das políticas de ajuda aos diferentes países da UE, a chanceler alemã solidificou a sua imagem como uma das principais líderes mundiais. O brio nas políticas de resposta garantiu aos alemães o apoio que necessitaram. 

Porém, o sucesso na gestão da crise económica de 2008 não assegurou o seu êxito na tentativa de fortalecer a União Europeia. No entanto, a sua sagacidade e tenacidade são reconhecidas como presentes em diversos momentos ao longo dos seus mandatos e marcam inquestionavelmente o legado de Merkel, que ficará para a história.

Artigo da autoria de Ricardo Terrinha. Revisto por José Milheiro e Marco Matos.