Política

Myanmar: ondas de protesto duram há um mês

A comunidade contesta a violência do Exército sobre a população e apela ao respeito pelos direitos humanos. O Facebook bloqueou as contas dos militares para evitar a transmissão de notícias falsas e mensagens de ódio.
Por Inês Pereira
Fonte: Kaung Zaw Hein

Myanmar tem sido palco de milhares de protestos contra a repressão exercida pelos militares, no seguimento do golpe de estado que realizaram na madrugada de 1 de fevereiro.

O Exército considera que as eleições de novembro “não foram livres nem justas” e alega ter recenseado milhões de casos que constituem fraude. A Comissão Eleitoral nega que tenha havido fraude nas eleições, onde a Liga Nacional para a Democracia (LND) venceu com 83% dos 476 assentos parlamentares.

O general Min Aung Hlaing encontra-se agora à frente do país e afirma que os militares procuram uma “democracia verdadeira e disciplinada”.

A LND tem usado a Internet para alertar a população face a um possível regresso da ditadura militar, pedindo que esta se oponha às ações do Exército. Milhares de populares têm saído à rua, quase diariamente, em forma de protesto (buzinões, bater panelas, entre outras), para exigir a libertação da líder do país, Aung San Suu Kyi, e de outros dirigentes políticos.

O Facebook impôs restrições às publicações dos militares responsáveis pelo golpe de estado de forma a impedir a circulação de notícias falsas e a propagação de discursos de ódio. Segundo a gigante tecnológica, “os acontecimentos desde o golpe de 1 de fevereiro, incluindo violência mortal, precipitaram a necessidade deste bloqueio”.

Milhares de pessoas recorrem agora a ligações VPN para conseguirem aceder à Internet, cujo acesso foi bloqueado pelo Exército. Cidadãos e jornalistas têm divulgado, em fotografias e vídeos, os protestos e momentos de confronto entre a população e as forças militares. “As pessoas necessitam de saber o que sucedeu, aonde e a quem, para poder decidir o que fazer”, afirmou o jornalista Zayar Hlaing à Reuters.

A comunidade internacional condena o golpe de estado e as ações de violência dos militares sobre a população. O Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas considerou que o “uso da violência contra os manifestantes era inaceitável” e apelou a um maior respeito pelos direitos humanos.

Os ministros dos Negócios Estrangeiros do G-7 e o chefe da diplomacia europeia também se pronunciaram: “nós, os ministros dos Negócios Estrangeiros do Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos, assim como o Alto Representante da União Europeia (UE) para a Política Externa, condenamos firmemente a violência das forças de segurança birmanesas contra as manifestações pacíficas“.

“Precisamos da ação mais forte da comunidade internacional para terminar imediatamente o golpe militar, acabar com a opressão dos inocentes e restaurar o poder do povo no Estado”, disse o embaixador de Myanmar na ONU, Kyaw Moe Tun.

A junta militar viria, pouco depois, afirmar que o embaixador deixara de representar os interesses do país junto da ONU. O afastamento do diplomata acontece numa altura em que a violência sobre a população aumenta.

A situação que se vive em Myanmar é ainda um reflexo da mudança para um regime democrático iniciada em 2011, depois de 50 anos de ditadura.

Thei Sein assumiu a presidência em 2011, e implementou um conjunto de medidas que visavam, por exemplo, a libertação dos presos políticos e o fim da censura. No final do mesmo ano, a Comissão Eleitoral aprovou a legalização do partido de Suu Kyi – a Liga Nacional para a Democracia, que em 2015 viria a vencer as primeiras eleições gerais democráticas. 

As várias ações contra os militares conduziram Aung San Suu Kyi, Nobel da Paz em 1991, a ser condenada em regime de prisão domiciliária.

Desde o golpe de estado, centenas de pessoas foram detidas. A Junta Militar anunciou a imposição de estado de emergência durante um ano, ao fim do qual prometeu anunciar novas eleições. 

Artigo da autoria de Inês Pereira. Revisto por José Milheiro e Marco Matos.