Política

Rússia: Inimigos do Estado, espiões, e o fim de Putin?

Os protestos pela libertação de Alexei Navalny, rosto da oposição ao regime de Vladimir Putin e vítima de envenenamento em agosto do ano passado, deixaram o Kremlin numa situação delicada. Com o mundo inteiro a ver, até que ponto é possível oprimir a vontade do povo?
Por José Diogo Milheiro
Kremlin, Moscovo.
Fonte: Getty Images

 

A invenção da nova Rússia

“Pouco passava da meia noite quando, no dia 27 de Fevereiro de 2015, Boris Nemtsov, político liberal outrora apontado como futuro presidente da Rússia, foi baleado quatro vezes nas costas ao passar por uma ponte a escassa distância do Kremlin.”

Assim começa A Invenção da Nova Rússia, de Arkady Ostrovsky, que, algures num registo entre o jornalismo histórico e um sentimento de “estrangeirismo no seu próprio país”, explora como uma nação que rejeitou a ideologia comunista acabou por aceitar viver numa ditadura, controlada por Vladimir Putin e pelos oligarcas que o apoiam.

Descendente direto e orgulhoso da escola dos serviços secretos do tempo da guerra fria, o presidente russo encarna ao mesmo tempo o ressentimento soviético face ao Ocidente e as fantasias de estatuto e influência no mundo que a Rússia perdeu depois da queda do muro em 1989.

Não admira, por isso, que o seu manifesto eleitoral de 1999, quando sucedeu a Boris Ieltsin, o primeiro presidente eleito da história da Federação Russa, sublinhasse a importância de “consolidar a esfera de influência no estrangeiro próximo”, e, ainda, de “reestabelecer a autoridade do Kremlin, submetendo os oligarcas e os governadores regionais ao regime da democracia soberana”.

Se no plano internacional a Rússia foi eclipsada pela China enquanto a grande potência de resistência à dinâmica unipolar que os Estados Unidos adquiriram desde o fim do século XX, dentro de portas o regime de Putin mantém-se implacável face aos seus opositores e críticos, controlando os meios de comunicação social e fazendo uso da força quando necessário. A expressão “democracia soberana” nunca fez tanto sentido.

Silenciados

Boris Nemstov é apenas um de muitos casos (des)conhecidos de supostos inimigos do Estado a morrer, desaparecer ou a ser alvo de ataques “misteriosos” nos últimos anos.

A 1 de novembro de 2006, Alexander Litvinenko, outro ex-agente do KGB e do FSB e, mais tarde, jornalista, escritor e consultor dos serviços de inteligência britânicos, adoeceu repentinamente depois de ter sido envenenado com polónio-210, um composto químico radioativo a partir do qual é possível matar 10 milhões de pessoas, com apenas um grama.

Litvinenko viria a tornar-se no primeiro humano a morrer da síndrome aguda de radiação induzida pelo composto. O inquérito às causas da sua morte viria a ser concluído em 2016, concluindo-se que o assassinato teria sido levado a cabo pelo Serviço Federal de Segurança do Estado russo, mas o principal suspeito nunca seria julgado.

A Constituição Russa proíbe a extradição dos seus cidadãos, pelo que o pedido do Reino Unido para a mesma foi recusado, contribuindo para o deteriorar das relações entre os dois países.

A 4 de Março de 2018, Sergei Skripal, antigo espião russo e agente duplo ao serviço do MI6 nos anos 90, e a sua filha Yulia, foram envenenados em Salisbury, no Reino Unido, onde Sergei se tinha estabelecido em 2010, com o mesmo agente nervoso com o qual, a 20 de Agosto de 2020, Alexei Navalny, principal figura da oposição ao regime de Vladimir Putin, seria envenenado em Tomsk, na Sibéria, e que o KGB usava nos tempos da União Soviética para silenciar vozes incómodas.

Alexei Navalny, líder da oposição russa. Fonte: BBC

A Rússia de Putin     

Se na primeira década após a queda do muro a nova Federação Russa viveu no caos político e económico, os primeiros anos do século XXI foram marcados por uma onda de progresso. Segundo o Banco Mundial, o povo russo viu o rendimento per capita triplicar e a percentagem de cidadãos a viver abaixo do limiar da pobreza passar de 29% em 2000 para 10,7% em 2012. Vladimir Putin, com a preciosa ajuda dos preços historicamente elevados do petróleo, receberia os louros pela melhoria generalizada da qualidade de vida.

Ian Bremer, autor de Nós Contra Eles: o fracasso do globalismo, e fundador do Eurasia Group, uma empresa de consultoria e investigação geopolítica, refere que, nos últimos anos, os preços baixos do petróleo e as sanções do Ocidente após a anexação da Crimeia, debilitaram a capacidade estatal para proteger os cidadãos. O aumento dos gastos militares também não terá ajudado, e nem a subida nas taxas de imposto sobre os mais ricos conseguiu contrariar a tendência de estagnação.

Os salários dos funcionários públicos, que representam quase um terço da população trabalhadora, deixaram de ser indexados à inflação, deteriorando o seu poder de compra, e contribuindo para o sentimento de desagrado para com o Kremlin que se vem agravando nos últimos anos, à medida que o governo de Vladimir Putin vai restringindo a liberdade dos cidadãos e discriminando minorias.

Protesto pelos direitos LGBTI+
Fonte: Reuters

 

Em 2012, três ativistas do grupo Pussy Riot foram presas por se terem manifestado contra o apoio do líder da Igreja Ortodoxa Russa à recandidatura de Putin.

Em 2017, foi proibida a prática religiosa às testemunhas de Jeová.

Em 2019, foi aprovado um conjunto de leis que eliminou o direito de falar sobre “relações não tradicionais”, ou “propaganda gay”, como o governo lhe chama.

Foi por isso algo surpreendente que, quando em 2020, Vladimir Putin propôs uma revisão da Constituição que, com efeito, lhe permitiria ficar no poder até 2036, quase 78% dos eleitores tenha votado a favor.

Alexei Navalny: o pior pesadelo do Kremlin

O reinado de Putin parecia eterno, até que, no ano passado, uma nova história de repressão química à dissidência veio incendiar a opinião pública russa. As suspeitas de que o envenenamento de Alexei Navalny, na Sibéria, teria sido encomendado pelo Kremlin, não deixaram ninguém indiferente, apesar de as fontes oficiais terem negado as acusações de forma veemente.

Navalny é um advogado moscovita de 44 anos que ficou conhecido por, enquanto acionista minoritário em várias empresas estatais, ter exigido uma maior transparência na divulgação das suas contas, acusando mesmo algumas de desviarem dinheiros públicos.

Em 2011, criou a Fundação Anti-Corrupção, através da qual publica investigações e reportagens que expõem as mentiras e os segredos do Kremlin e do setor público russo. Depois de ter recuperado num hospital de Berlim do envenenamento de que foi vítima no ano passado, o rosto da oposição a Putin foi detido à chegada a Moscovo.

Na sequência da sua prisão, no dia 21 de janeiro a equipa de Navalny publicou uma investigação sugerindo que Putin teria sido subornado por oligarcas russos com um autêntico palácio junto à costa do Mar Negro. A reportagem fala no “maior suborno da história”. A revelação poderá ter sido o catalisador das manifestações de dia 23.

Protestos em Moscovo- 23 de janeiro 2020. Fonte: Maxim Shipenkov

 

A polícia deteve mais de 2500 pessoas durante os protestos, e as imagens de violência aparentemente arbitrária por parte das forças de segurança face aos manifestantes ilustram o clima de repressão que se vive por estes dias no país. Uma aliada de Navalny foi mesmo levada pela polícia enquanto dava uma entrevista para as estações televisivas que cobriam o evento.

A mulher de Navalny também foi presa e, um pouco por todas as maiores cidades russas, o povo saiu à rua para mostrar o seu desagrado face às mentiras, corrupção e opressão de que são vítimas. Nada garante que Navalny será um bom presidente, mas os 22 anos de Putin no poder mostram falar por si.

Em 2011, os russos já se tinham manifestado contra o líder do governo e o seu partido, o Rússia Unida, depois de terem surgido suspeitas de que teria havido fraude nas eleições parlamentares.

Desde então, pouco mudou. Klemens von Metternich, antigo ministro dos negócios estrangeiros do Império austríaco, disse um dia que a Rússia “nunca é tão fraca como parece, nem tão forte como quer fazer crer”.

Se for esse o caso, então a esperança de uma nova vida para os 145 milhões de cidadãos russos ainda não morreu.

Artigo da autoria de José Diogo Milheiro. Revisto por Marco Matos