Política

Brasil: “A derrota de Trump deixa o Brasil isolado no Ocidente”

Após a relutância em reconhecer a vitória de Joe Biden e a recente omissão de Jair Bolsonaro à invasão ao Capitólio, o Brasil pode ver-se numa situação diplomática complicada. O presidente brasileiro investiu alto na aproximação a Donald Trump, de quem é admirador confesso, mas o preço que está a pagar pode trazer prejuízos às relações internacionais brasileiras. Por Tálita Mello

Trump e Bolsonaro. Fonte: Alan Santos PRJair 

O reconhecimento da vitória do democrata Joe Biden por parte de Jair Bolsonaro só veio após 38 dias do resultado da eleições americanas. O Brasil foi assim o último país do G20 a reconhecer a vitória de Biden, e a justificativa da relutância se sustentou no apoio do presidente brasileiro à tese de ter havido “muita fraude” nas eleições que derrotaram Donald Trump. Em entrevista concedida no dia 29 de novembro, em frente à escola onde votou para o segundo turno da eleição municipal no Rio de Janeiro, Bolsonaro afirmou ter informações da suposta fraude; informações que ele alega não serem divulgadas pela imprensa.

Joe Biden foi declarado eleito no dia 7 de novembro, ao atingir 273 votos no Colégio Eleitoral. Desde então, Donald Trump tem contestado o resultado, inclusive no judiciário americano, sem sucesso. A vitória de Biden foi ratificada no dia 14 de dezembro em reunião do Colégio Eleitoral dos Estados Unidos. Apoiadores de Trump invadiram o Capitólio no último dia 6, exigindo a recontagem dos votos, insuflados com as acusações do republicano de ter havido fraude eleitoral. 

A maioria dos líderes mundiais prontamente parabenizaram Biden por sua vitória, inclusive governos ideologicamente próximos a Donald Trump, e tardiamente a China, deixando o Brasil cada vez mais isolado em seu posicionamento, o que complicou-se com a recente omissão de Bolsonaro à invasão do Capitólio.

As investidas de Bolsonaro para aproximar-se à Casa Branca

Desde sua posse o presidente brasileiro tem deixado clara sua admiração a Donald Trump e sua disposição de intensificar a aproximação com a Casa Branca, tendo afirmado, logo nos primeiros meses do seu mandato, que não descartava a possibilidade de permitir a instalação de uma base militar dos EUA no Brasil.

O atual alinhamento entre Brasil e Estados Unidos se dá mais em um plano ideológico do que propriamente no de cooperação, no qual o país sul-americano não parece ter muita vantagem.

Para além do acordo de cooperação militar, firmado em 2019, que fez do Brasil um principal aliado para a caçada ao presidente venezuelano Nicolás Maduro, mas que lhe trazia poucos benefícios em contrapartida, Bolsonaro assinou, no mesmo ano, um decreto que dispensaria a necessidade de visto para norte-americanos – direito  este que, contrariando o princípio da reciprocidade, não foi estendido aos brasileiros. Ainda em 2019, os Estados Unidos deportaram dezenas de brasileiros, muitos deles algemados e separados de suas famílias. Quanto ao episódio, o presidente Brasileiro afirmou que “jamais intercederia por deportados”.

A política externa brasileira passou a seguir os ditames de Washington e agora fica, mais explicitamente, “a ver navios” com a derrota de Trump.

“Quando acabar a saliva, tem de ter pólvora”

Durante a campanha eleitoral, tanto Joe Biden quanto sua vice-presidente, Kamala Harris, criticaram duramente a política brasileira para a Amazônia. Biden chegou a ameaçar que, caso o Brasil não pare com a “destruição” da Amazônia, enfrentaria “consequências econômicas significativas”. Bolsonaro reagiu, sem mencionar o nome de Biden, dizendo que “apenas diplomacia não funciona” e que “quando acabar a saliva, tem de ter pólvora”.

A crítica de Biden tem origem no recorde de desmatamento da Amazônia registrado em 2019 e da má gestão do governo brasileiro frente às mais de 76 mil queimadas que a região sofreu entre janeiro e setembro deste ano, o maior número desde 2010.

A declaração agressiva de Bolsonaro, de ameaça de uso de armas e abandono da diplomacia, somada à relutância em reconhecer a vitória de Biden – ou mais que isso, a derrota de Trump – aumenta a insegurança das relações internacionais entre Brasil e Estados Unidos. Mais: lança o país sul-americano em um perigoso isolamento no cenário internacional. 

Invasão do Capitólio e retorno da pauta do voto impresso no Brasil 

No último dia 6, centenas de apoiantes de Donald Trump invadiram o Congresso americano durante a sessão que confirmaria Joe Biden como próximo presidente dos Estados Unidos. A invasão acabou com 5 mortos. O episódio foi duramente criticado em todo o mundo, mas Bolsonaro e o chanceler de seu governo, Ernesto Araújo, optaram pela reafirmação do apoio ao presidente republicano e recusaram-se a repudiar o ato.

Em entrevista concedida em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília, ao ser indagado sobre a invasão, o presidente brasileiro não só não condenou a invasão como aproveitou a ocasião para retomar a defesa pelo retorno do voto impresso no Brasil: “se nós não tivermos o voto impresso em 2022, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problemas piores do que os Estados Unidos agora”. Voltou, ainda, a alegar fraude nas eleições americanas e reiterou seu apoio a Donald Trump: “Mas vocês sabem que sou ligado ao Trump. Então vocês já sabem qual é a minha resposta aqui”.

Embora o presidente brasileiro tenha usado a invasão ao Congresso americano para questionar a integridade das eleições brasileiras, o sistema eletrônico de votação, adotado pelo país atualmente, é pacificamente considerado eficaz na garantia de segurança e liberdade do voto.

Ernesto Araújo, Ministro das Relações Exteriores, disse nas redes sociais que a invasão deve ser “lamentada e condenada”, embora sugerindo, sem apresentar qualquer justificação, que teria havido “participação de elementos infiltrados na invasão”.

A reação de Bolsonaro à invasão do Capitólio, endossada pelo chanceler Ernesto Araújo, dificulta ainda mais a relação com Biden e preocupa diplomatas brasileiros. Após a nota de Araújo, a 

Bolsonaro insiste em antagonizar Biden e isso traz sérias preocupações à diplomacia brasileira. De forma inédita, diplomatas distanciaram-se do posicionamento do chanceler brasileiro. Nas redes sociais, a Associação e Sindicato dos Diplomatas Brasileiros (ADB) manifestou-se em defesa da orientação pacífica das divergências e insatisfações políticas e repudiou o recurso à violência, quaisquer que sejam os seus autores.  O apoio incondicional a Donald Trump coloca o Brasil em uma situação bastante complicada e descredita a diplomacia brasileira, que pode enfrentar sérios desafios com o novo governo americano, caso Bolsonaro insista em adotar a postura de “Trump dos trópicos”.

Artigo da autoria de Tálita Mello. Revisto por José Diogo Milheiro e Marco Matos.