Política

Eleições Lituânia: Vitória conservadora com coligação de centro-direita

O resultado marca uma mudança de rumo num país liderado, desde 2016, por uma coligação entre os Verdes e três partidos mais pequenos. A eleição dos conservadores poderá ter efeitos no país, após uma eleição marcada pelos constrangimentos da pandemia de Covid-19.
Por Filipe Pereira
Parlamento lituano (Seimas). Fonte: https://lithuaniatribune.com/labour-code-reform-package-presented-at-lithuanian-parliament/

 

O Futuro: No próximo cruzamento, vire à direita

No dia 26 de outubro, Ingrida Simonyté, da União Nacional-Democratas Cristãos Lituanos (HU-LCD), de centro-direita, venceu a segunda ronda das Eleições Legislativa, assumindo assim o cargo até aqui ocupado por Saulius Skvernelis, da União de Agricultores e Verdes da Lituânia (LFGU). É expectável que os nacionais-democratas negociem agora com os partidos liberais para assegurar a maioria parlamentar (correspondente a 71 assentos no ‘Seimas’).

O HU-LCD obteve 25,7% dos votos e 50 lugares no Seimas, longe da maioria absoluta, e já negoceia com os 2 principais partidos de direita, o Movimento Liberal e o Partido da Liberdade, que também conseguiram assento parlamentar. 

Antes mesmo da primeira ronda de eleições esperava-se que, independentemente do vencedor, houvesse a necessidade de uma coligação. Com a vitória de Ingride Simonyté, a coligação que vai governar a Lituânia nos próximos 4 anos será de centro-direita

Ingride Simonyté, futura Primeira Ministra da Lituânia. Fonte: https://www.lb.lt/en/news/ingrida-simonyte-is-proposed-to-the-board-of-the-bank-of-lithuania

No dia 9 de novembro, foi assinado o acordo para a coligação entre 3 partidos. As pastas ministeriais serão distribuídas em função da representatividade de cada partido no Seimas. O acordo estipula a legalização casamento homossexual, com o HU-LCD a autorizar o voto independente dos seus deputados nesta matéria, por existir “uma diferença de opiniões” dentro do partido. Assegura ainda atração de investimento e uma diminuição na regulação do mercado.

O Passado: A União de Agricultores e Verdes da Lituânia

Em 2016, os Verdes ganharam as eleições nacionais. Governados desde o nascimento da democracia no país apenas por dois partidos, pelos sociais democratas ou pelo HU-LCD, os lituanos manifestaram a vontade de mudar de rumo.

Durante a legislatura, o partido ficou associado a uma conduta populista. Apelou aos apoiantes cristãos e conservadores e tornou-se um forte fator no combate aos direitos da comunidade LGBTQI+. Esta posição levou os Verdes da Lituânia a ficar de fora do Partido Europeu dos Verdes no Parlamento comunitário.

Andzeij Puksto, Professor da Universidade Vytautas Magnus acusou o Governo da LFGU de apresentar “sinais autoritários” ao tentar uma reforma judicial semelhante à que o Partido da Lei e da Justiça implementou na Polónia.

A Campanha: Covid-19 contagia o debate

A campanha foi centrada no aumento exponencial do desemprego durante a 1ª vaga da pandemia no país. O incremento foi de 5% entre fevereiro e outubro deste ano, uma subida de 9% para 14% num país com cerca de 3 milhões de habitantes. A indignação com o desemprego é sustentada por acusações de falta de apoio do Estado aos diferentes negócios. Em resposta, o Governo lançou, pouco antes das eleições, um pacote de 2 mil milhões de euros para ajudar a economia e atenuar os efeitos da pandemia. 

A fragilidade do sistema de saúde foi outro dos temas quentes. A oposição acusou o governo de se concentrar excessivamente no combate à pandemia e de deixar “milhares de pacientes sem cuidados de saúde adequados” no que diz respeito a situações não relacionadas com o novo Coronavírus. 

Saulius Skevernelis, Primeiro Ministro incumbente da Lituânia Fonte: https://www.15min.lt/tema/saulius-skvernelis-3890

 

A gestão que fez da situação pandémica foi, de resto, o grande bastião do LFGU durante a campanha. No dia 30 de outubro, a Lituânia tinha um total de 14 824 casos e 165 mortes por COVID-19, pelo que os apoiantes dos Verdes assinalam como notável o esforço do Governo de Skevernelis, sobretudo em comparação com os outros países da União Europeia. 

Vytautas Dumbliaskas, Professor de Ciência Política em Vilnius, comunicou à Euronews que o partido de Skevernelis não chegava aos dois dígitos nas sondagens antes do choque, mas que a pandemia “tem sido um desastre para a maioria, mas uma verdadeira bênção para os Agricultores”.  

 

No dia 7 de novembro, o JUP publicou um artigo sobre o impasse político na Bielorrúsia. Sabia que…

a Lituânia é um dos principais opositores do regime de Lukashenko na Bielorrússia. Recebeu Svetlana Tsikhanouskaya, uma grande opositora de Lukashenko e ofereceu-lhe proteção em todas os encontros que teve com líderes da UE.

Monika Bickauskaité, Assistente no Fundo Marshall Alemão dos Estados Unidos, apontou a ligação entre a Lituânia e os EUA no combate à ciberameaça russa. Os dois países vão lançar um centro de cibersegurança, sob liderança lituana em 2021. 

Bickauskaité elogiou o trabalho de Linas Antanas Linkevicius, Ministro dos negócios estrangeiros, que deve abandonar a pasta com o início da nova Legislatura. A Assistente espera uma continuidade por parte do novo Governo na abertura económica que Linkevicius motivou.

Artigo da autoria de Filipe Pereira. Revisto por Marco Matos e José Diogo Milheiro.