Política

Covid-19: O vírus contamina também o mercado de petróleo

Com a pandemia causada pelo novo coronavírus, diversos setores essenciais para a economia internacional foram apanhados de surpresa e os governos viram-se obrigados a encontrar soluções à pressa, em alguns casos ameaçando pôr um fim a parcerias de mais de meio século. Maynara Gonçalves
Plataformas de extração de petróleo no delta de Brent, no Mar do Norte. Fonte: www.shell.com
Plataformas de extração de petróleo localizadas no delta de Brent, no Mar do Norte. Fonte: www.shell.com

A indústria petrolífera é uma das mais atingidas negativamente pela situação pandémica que o mundo vive na atualidade, já que os aviões estão parados e as pessoas enchem os tanques dos carros com menos frequência.

A instabilidade do preço começou ainda no mês de março, o que fez com que a Arábia Saudita, maior produtora global de petróleo, propusesse à Rússia e aos países da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) uma redução conjunta da produção do commodity, a fim de que a queda abrupta do preço fosse contida.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin não aceitou o acordo, o que levou os sauditas a retaliarem por meio do aumento da sua produção petrolífera. Tal ação fez com que a oferta do bem aumentasse de forma massiva no mercado mundial, causando a maior queda diária nos preços do barril desde a Guerra do Golfo.

Um dos momentos mais decisivos até então ocorreu quando a relação histórica de 75 anos entre a Arábia Saudita e os EUA se viu ameaçada. Numa chamada telefónica realizada a 2 de abril, Trump avisou ao príncipe regente saudita que se ele não reduzisse a quantidade de barris produzidos, o presidente não poderia garantir a presença militar norte-americana no país.

De facto, uma semana antes dois senadores republicanos apresentaram uma legislação para a retirada das tropas estadunidenses, dos seus mísseis e sistemas de defesa caso o preço do petróleo não baixasse. Tal telefonema foi tido como decisivo para que os sauditas e russos conseguissem chegar um acordo, já que inicialmente Putin não era favorável à diminuição.

Depois de semanas de tensão, no dia 12 de abril, a Rússia aceitou um acordo com a Arábia Saudita para diminuir a sua produção em conjunto com os outros 21 membros da OPEP+ (união da OPEP e de parceiros não-membros da organização) e demais países produtores de crude, como o Brasil, que mesmo estando fora da organização, decidiu cortar a sua produção diária.

Porém, tal decisão não foi bem recebida pelos mercados, pois uma redução tão alta (10%, duas vezes mais do que foi cortado durante a crise de 2008) ameaçaria manter milhões de barris estocados, o que pressionaria ainda mais as cotações. De facto, no mesmo dia os preços da commodity caíram de novo.

O país que mais realizou cortes foi a Arábia Saudita, seguida pela Rússia, sendo que ambas compartilham um orçamento nacional altamente dependente das receitas do petróleo e gás. Mesmo fora da OPEP, países terceiros se manifestaram sobre a sua intenção de produzir menos petróleo temporariamente, como o caso da Noruega e do Canadá.

Além disso, a OPEP+ decidiu prolongar o corte da produção até pelo menos fins do mês de julho. Também há a possibilidade de que a organização venha a exigir que Iraque e Nigéria também empreendam cortes na produção.

Donald Trump e as reservas americanas

Antes da negociação, ainda em março, o presidente aproveitou a queda histórica dos preços para aumentar a reserva americana do óleo negro, que estava a ser negociado a valores negativos. Esse crescimento nas reservas estratégicas do país teve como consequência principal a falta de espaço para estocá-lo. Assim, os produtores americanos tiveram que recorrer a navios-tanque alugados para que armazenar a sua produção, fazendo com que o preço da mercadoria caísse ainda mais.

O líder republicano disse que se o país puder comprar petróleo ‘’por nada’’, levarão ‘’tudo o que puderem’’, e que nunca deixará a enorme indústria americana do gás e do óleo ser prejudicada. Por isso, ele pediu aos secretários da Energia e do Tesouro para elaborarem um plano para disponibilizar fundos para essas empresas, com o objetivo de que o seu futuro e respetivos empregos seja assegurado.

Ainda na mesma semana, o preço do petróleo subiu mediante permissão dada pelo presidente americano para que navios iranianos fossem atacados.

Trump foi mediador nas negociações sobre o acordo e no mês de abril usou a sua conta pessoal no Twitter para expressar o seu otimismo. A esperança de Trump é que os preços do barril de petróleo subam para que, assim, ele possa elevar mais a oferta. Contudo,  David Zylbersztajn, professor da PUC Rio e ex-diretor geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), adianta que “Se não tiver uma retomada na demanda, isso não adiantará em nada”.

Hoje os EUA são tidos como autossuficientes na questão do petróleo e caminham para uma autossuficiência energética, podendo ainda comprar de outros parceiros caso a Arábia Saudita passe a cobrar mais pelo crude. O contrário não é verdadeiro, já que os sauditas dependem das armas e proteção americana para se defenderem dos rivais da região, como é o caso do Irão.

Em maio, o preço do óleo cru recuou, e os investidores aguardavam uma decisão do presidente enquanto monitorizavam a procura. A redução do valor deu-se principalmente pelos últimos dados de estoque do crude nos EUA e pelo desenrolar de novos atritos entre Washington e Pequim, especialmente porque a questão da autonomia de Hong Kong voltou à tona.

A velha aliança entre americanos e sauditas

Proteção militar dos EUA em troca do acesso às reservas de petróleo sauditas: era isto que previa o acordo firmado em 1945, pelo então presidente americano Franklin D. Roosevelt e o Rei saudita Abdul Aziz Ibn, responsável por dar início à relação estratégica entre os dois países. Dali em diante, os EUA começaram a fornecer armamento aos sauditas e também a outros países do Oriente Médio, com destaque para o Irão. Com isso, os países da região se tornaram dependentes dos americanos ao nível do armamento, o que lhe concedeu importante influência na região – algo especialmente importante no período de Guerra Fria.

A OPEP, foi criada em 1960 na Conferência de Bagdá, capital do Iraque, com o objetivo principal de concentrar a política petrolífera de seus países membros – os maiores produtores da época e opositores das grandes companhias petroleiras multinacionais que controlavam o mercado desde o final da Segunda Guerra Mundial, em sua maioria com sedes nos EUA, Inglaterra e Holanda. Os seus membros fundadores foram Arábia Saudita, Irão, Iraque, Kuwait e Venezuela. Logo depois juntaram-se os Emirados Árabes Unidos; Qatar; Equador; Indonésia; Angola; Argélia; Gabão; Guiné Equatorial; Líbia e Nigéria.

O Choque Petrolífero de 1973 ocorreu porque a OPEP conseguiu restringir a oferta de petróleo no mercado internacional através de uma gradual nacionalização das reservas, impulsionando assim os preços do barril de crude. O Segundo Choque Petrolífero ocorreu em 1979 e incentivou os países fora da organização a adotarem políticas para reduzir a sua dependência do petróleo que vinha do exterior.

Com a pequena crise dos preços gerada pela Guerra do Golfo (1990-1991), a OPEP começou a perder o seu poder devido ao crescimento da produção de países fora da organização, o que fez com que o preço do petróleo estivesse baixo no final daquela década, aumentando substancialmente na seguinte, como consequência de uma demanda inflacionada.

Não é a primeira vez que uma redução na oferta do petróleo é deliberadamente discutida pela organização: em 2016 a OPEP, em parceria com outros países não-OPEP, acordou em limitar a produção, por meio de uma Declaração de Cooperação.

Crise pode agravar-se no futuro próximo

Mundialmente, há pelo menos 100 países produtores de petróleo. Uma crise neste setor afeta diretamente a maior parte das economias do mundo, significando uma interrupção inesperada do fluxo de comércio internacional.

Atualmente são mais de 7 milhões de casos de Covid-19 pelo planeta, sendo que a curva de contágio global não demonstra tendência de queda, algo que dificulta a previsão de uma saída viável para a crise da falta de procura, fazendo com que os governos sejam desafiados por uma situação numa escala nunca antes vista.

Artigo da autoria de Maynara Gonçalves. Revisto por Miguel Marques Ribeiro.