Política

After Truth: A desinformação e o custo das Fake News

O mais recente documentário da HBO, After Truth: Disinformation and the Cost of Fake News traz uma nova luz a este fenómeno, especialmente no panorama social americano. Por Marco Matos
After Truth: Desinformation and the cost of fake news/ Amazon
After Truth: Desinformation and the cost of fake news/ Amazon

O mais recente documentário sobre fake news da HBO, dirigido por Andrew Rossi, que chegou à plataforma no final de março de 2020, analisa o fenómeno das fake news a partir de um conjunto de case studies, pesando as causas e consequências para o panorama social contemporâneo. Por entre conspirações incluindo pizza e ataques no Facebook, o olhar de jornalistas e especialistas no assunto traz uma maior compreensão ao fenómeno em ascensão. Confira aqui alguns desses case studies.

Fake News: uma tentativa de definição neutra

O fenómeno das fake news vem ganhando terreno no debate público ano após ano. Craig Silverman, do Buzzfeed News, expõe como investiga o tema desde 2014, procurando exemplos desta prática dia após dia. Segundo este, não havia real interesse no fenómeno até 2016, quando a campanha de Trump trouxe o tópico a público, demonstrando como esta prática poderia constituir uma violenta arma política. A partir desse momento, confessa, o termo foi totalmente politizado.

Molly Mckew, estudiosa dos fenómenos de desinformação na Universidade de Georgetown, tenta trazer atenção para o tópico, avisando que “A pior parte do que está a acontecer é que estamos a fazê-lo a nós próprios”, ao se focar na forma como candidatos e grupos políticos dos EUA têm usado campanhas baseadas neste mecanismo para apelarem aos seus votantes mais leais e radicais.

Fake News: uma definição político-bélica

No entanto, nem todos aqueles que estão dentro do fenómeno o vêm desta forma. Segundo Jake Burkman, operacional político que se envolveu recentemente em polémicas com Jacob Wohl, parte da máquina de desinformação de Donald Trump, as fake news agem fora de um plano moral, ou seja, o seu utilizador não tem de gostar delas, mas apenas de as usar como arma, tal como todo o resto do mundo faz. “As notícias falsas são uma arma (…) uma boa maneira de conduzir uma história (…) Se as pessoas acreditam e reimprimem, então é reimpressa. ”, confessa este a Andrew Rossi. “As pessoas usam-nas. Estão a transformar-se numa ferramenta de guerra.”

Outro apoiante desta ideia é Jerome Corsi, conhecido operacional político e escritor, figura por detrás de algumas das maiores conspirações circundando a administração Obama. Para este, fake news tornou-se um termo politizado, utilizado para censurar ideias políticas de índole conservadora, menosprezando-as e diminuindo-as.

2015: Jade Helm 15

Mas o verdadeiro perigo das fake news começa quando estas conseguem mover quase toda a população de um local a acreditar em teorias da conspiração infundadas. Foi isto que aconteceu em Bastrop, quando, em 2015, se soube que militares iriam fazer exercícios naquela localidade.

A informação rapidamente se amplificou para um conjunto de teorias da conspiração, muito motivadas por canais como a InfoWars, de Alex Jones, e que se aproveitaram da preocupação recorrente com a falta de transparência da administração Obama. Estas, que englobavam uma rede de esgotos do WallMart e a ideia de que Obama queria colocar os seus opositores em campos de concentração na área, ficaram conhecidas como as “Conspirações do Jade Helm 15”.

À luz de tais eventos, Paul Pape, juíz do condado, realizou uma reunião aberta, para a qual convidou Mark Lastoria, porta-voz dos militares dos U.S., de modo a se explicarem as operações aos interessados. Lastoria explanou que era apenas um exercício militar de oito semanas para uma guerra não convencional. No entanto, as pessoas que compareciam na reunião tiveram dificuldade em acreditar, consumidas pelas fake news. Mark Lastoria acabou desabafando que “Todos querem que isto seja uma coisa que não é”.

Esta foi a primeira vez que uma fake new criou um alarido tão grande. Passados cinco anos, Troy Michalik, vendedor de armas em Bastrop, diz ainda não saber em que acreditar ou não. O facto de pessoas entrarem diariamente na sua loja durante o ano de 2015 para perguntar sobre tais teorias abalou para sempre a sua confiança nos meios de comunicação.

2016: Pizzagate

Comet: Restaurante do Pizzagate/ Washington Post
Comet: Restaurante do Pizzagate/ Washington Post

Em 2016, um renomeado restaurante de Washington D.C., Comet Ping Pong, conhecido por ser frequentado por personalidades mediáticas da política e jornalismo, foi vítima de uma campanha de difamação que quase acabou em disparos, quando um homem entrou armado no estabelecimento para salvar crianças que estavam a ser, supostamente, traficadas no interior.

Tudo começou no Reddit, após os e-mails de John Podesta, presidente da campanha de Hillary Clinton, terem sido vazados online. Apoiantes de Trump começaram a ler os e-mails e a criar teorias da conspiração a partir deles. Uma destas tinha por base a ideia que Hillary e o proprietário do e Comet, James Alefantis, molestavam e traficam crianças no restaurante. A teoria rapidamente foi divulgada noutras redes sociais como o 4chan, ganhando até um nome: Pizzagate.

James Alefantis pensou que o mediatismo iria acabar após de alguns dias. No entanto, as tensões cresceram e imagens da sua conta do Instagram começaram a ser roubadas para suportar a conspiração. Algum tempo depois, Edgar Welch, seguidor assíduo da InfoWars, entrou no restaurante armado, com a intenção de salvar as supostas crianças que ali estariam. Após revistar o restaurante e nada encontrar, entregou-se à polícia.

2018: Mark Zuckerberg, Dry Alabama e o escândalo do Facebook

Um dos mais recentes escândalos envolvendo fake news teve como protagonista Mark Zuckerberg e a sua palataforma, o Facebook. Acusado de não proteger os dados dos utilizadores, foi presente a uma audiência das Comissões do Judiciário e do Comércio. Nesta, Zuckerberg foi questionado sobre os problemas de privacidade, mas também sobre a abundância de fake news na plataforma. Após várias horas de audiência, prometeu trabalhar para melhorar o Facebook, suprindo algumas das lacunas existentes.

No entanto, em palestra algum tempo antes, Zuckerberg confessou que a ideia de que fake news no Facebook pudessem ter manipulado as eleições de 2016 constituía uma ideia louca, devido a estas constituírem apenas uma pequena parcela do conteúdo partilhado.

Mesmo assim, a plataforma é grandemente utilizada para fins políticos de desinformação. Exemplo disto é Matt Osborne, que criou uma rede de fake news para apoiar Dog Jounes, nas eleições do Alabama, contra Roy Moore. Esta rede era baseada numa página chamada Dry Alabama, onde este se fazia passar por um grupo de republicanos que apoiavam Roy e queriam instaurar a “Lei Seca” de novo no Alabama. Segundo este, “Dog Jounes ganhou, absolutamente. Tudo o que fiz foi empurrar um pouco desde fora”.

Artigo da autoria de Marco Matos. Revisto por Miguel Marques Ribeiro.