Política

Chega: As razões da demissão de André Ventura

No início de abril, André Ventura pediu a demissão do cargo de presidente do Chega, prometendo candidatar-se de novo a eleições internas, em setembro. Esta não é a primeira vez que o partido entra em convulsão interna. Por Marco Matos
André Ventura, deputado e presidente do Chega. Fonte: partidochega.pt
André Ventura, deputado e presidente do Chega. Fonte: partidochega.pt

Algumas semanas antes de comemoração do seu primeiro aniversário, a 9 de abril, e num clima de subida percentual em intenções de voto segundo sondagens, o partido Chega, que promete criar um Portugal mais conservador, foi alvo de nova polémica interna, quando André Ventura decidiu pedir resignação do seu cargo de presidente, com intenção de se recandidatar em eleições internas, marcadas para setembro. Confira aqui as razões que levaram a tal decisão, assim como momentos de tensão interna que o Chega viveu no seu primeiro ano de existência.

Comunicado aos militantes: “Está nas vossas mãos!”

Foi no dia 4 de abril, em comunicado aos militantes do Chega na sua página do Facebook, que André Ventura oficializou a sua demissão da posição de presidente da direção nacional do partido, numa época de grande convulsão social, devido, entre outros fatores, a críticas de que tem sido alvo internamente, pela forma como aborda questões e projeta o seu discurso.

Fartei dos (…) que internamente estão sempre a acenar (…) que estamos a ser extremistas, que temos que nos moderar. Esta é a linha e génese do Chega, sem medo de o discurso não ser o politicamente correto”, avança André Ventura, clarificando que este é o “momento dos que andaram permanentemente a fazer sombra ao trabalho da direção nacional e ao meu trabalho no Parlamento, nas redes sociais, nos média (…) de se apresentarem a eleições, darem-se a conhecer (…) e os seus projetos para o Chega.”

No vídeo endereçado aos apoiantes do movimento, o político prometeu ainda que se candidataria de novo à presidência do partido, em eleições futuras. “Se perder a eleição para presidente, renunciarei imediatamente ao meu lugar no Parlamento”, adianta, dizendo ainda que “O Chega é demasiado importante (…) para que centenas de pessoas que chegaram aqui enviesadas pelo sistema queiram ou possam destruir o nosso projeto.”. Apela então aos militantes que façam a sua escolha nas eleições marcadas para setembro. “Está nas vossas mãos!”, conclui.

Uma questão prisional: libertar ou não os presos?

A decisão da demissão vem no seguimento de um voto apresentado na Assembleia da República sobre a declaração de novo estado de emergência por causa da pandemia de Covid-19, no dia 2 de abril, que previa a libertação de presos como uma das medidas para o estancar da propagação do vírus nas presidiárias portuguesas.

Em comunicado, no sítio do governo, explica-se que “O Perdão não abrange os crimes mais graves, nomeadamente, homicídio, violência doméstica, maus tratos, crimes contra a liberdade sexual e autodeterminação sexual, roubo qualificado, associação criminosa, corrupção, branqueamento de capitais, incêndio e tráfico de estupefacientes (excetuado o tráfico de menor gravidade), para além dos crimes cometidos por titular de cargo político”.

André Ventura votou contra. Numa publicação do Facebook, avançou, na véspera do voto, que “O CHEGA pugnou desde o início pela tomada de medidas (…) que impedissem que Portugal fosse assolado por uma enorme crise de saúde pública. Defendemos – e eu defendi pessoalmente – o Estado de Emergência. Votámos favoravelmente esta Declaração.”, mas que nunca defenderia que “o Estado de Emergência [fosse] pretexto para libertar presos das cadeias, e o Decreto (…) abre caminho para isso mesmo.

Segundo o mesmo, a decisão de voto acordou alguns ímpetos dentro do partido, que levaram a críticas acesas à sua decisão. Esta não é a primeira vez que o partido ultrapassa momentos de convulsão devido a desacordos de posição face a temas políticos e sociais.

Chega: Um partido onde a concordância nunca chegou

Ainda em tempo da coligação Basta, André Ventura causou polémica por ter faltado a um debate eleitoral na RTP, de modo a comparecer num comentário desportivo, na CMTV. Em posteriores declarações, André Ventura avançou que a “RTP não mostrou qualquer flexibilidade relativamente a um horário em que é público e notório que um dos candidatos estaria noutra estação de televisão.” Em remate, perguntou ainda: “Porque não aceitaram a substituição por outro membro da lista?”

No início de 2020, um dos principais ideólogos do Chega, Sousa Lara, demitiu-se do cargo após pressões do presidente para que este recusasse beneficiar de uma subvenção vitalícia de 1.343 euros. “Não é admissível que haja dirigentes, porta-vozes e membros de órgãos que beneficiem, mesmo que não recebam, subvenção vitalícia”, comunicou André Ventura à Rádio Observador após conhecimento da situação.

Já em março de 2020, chegou aos veículos noticiosos uma conversa do Whatsapp em que André Ventura se ameaça demitir caso o partido não se una. “Estou cansado disto”, lê-se na mensagem endereçada às distritais, “Ando pelo país a explicar às pessoas que somos diferentes, às vezes com horas de viagem e minutos de sono, e o que oiço, a quilómetros de distância, é: já viu o que está escrito nesta página do Chega? E nesta página deste dirigente? Se este ambiente continua no partido, demito-me antes do verão. Não estou para isto!”.

A mais recente desagregação do partido é a de Jorge Pires, presidente da Associação Pediátrica Oncológica do Hospital São João e ex-presidente do partido pela distrital do Porto, que se demitiu do cargo no início de abril, após perder a confiança política da sua distrital. Tal deu-se um mês depois de lhe ter sido votada uma moção de confiança. À Sábado, João Pires disse que não queria usar o Chega para promoção pessoal. ”O André Ventura e o Diogo Pacheco de Amorim convidaram-me para o Chega para replicar o que fiz no São João, a nível de causas cívicas. Mas não me revejo no rumo que a distrital está a tomar”, confessou.

Com a demissão de Ventura do seu cargo de presidente e com as eleições à vista, esperam-se mais dissoluções num partido que, recém-nascido, apresenta já um passado conturbado.

Artigo elaborado por Marco Matos. Revisto por Miguel Marques Ribeiro.