Política

Brasil: a história dum país em vertigem

O filme “Democracia em Vertigem”, realizado por Petra Costa e nomeado este ano para o Óscar de Melhor Documentário pela Academia de Hollywood, faz o retrato da história política do Brasil das últimas décadas. Por Rafaela Miranda
Fotograma do filme documentário 'Democracia em Vertigem', de Petra Costa. Fonte: democraciaemvertigem.com
Fotograma do filme documentário ‘Democracia em Vertigem’, de Petra Costa. Fonte: democraciaemvertigem.com

O documentário aborda a subida e a queda de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, antigos presidentes brasileiros, bem como a subida ao poder do atual presidente, Jair Bolsonaro.

A obra combina uma profunda análise dos factos com as memórias pessoais da realizadora, através de fotografias e vídeos, alguns deles amadores, que mostram as partes ocultas, tanto do regime militar, como das presidências de Lula e Dilma.

Costa começa a contar esta história a partir do período do regime militar e fá-lo através das memórias de seus pais, ativistas contra a ditadura, de forma a justificar parte do seu interesse pelos problemas políticos do seu país e a fazer uma ponte de comparação entre o passado brasileiro e os eventos atuais.

O período de Lula da Silva

Lula entra no cenário político a partir de 1979, aquando da greve do sindicato metalúrgico ABC, liderada por ele. Um ano depois, cria o Partido dos Trabalhadores (PT) e candidata-se à presidência do país três vezes consecutivas, sem sucesso. Foi finalmente eleito em 2003, pois optou por criar uma coligação com o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). No seu mandato, introduz uma medida que irá mudar o rumo do Brasil – o Programa Bolsa Família. Com ela, cresce o número de afro-latinos nas universidades, a taxa de desemprego diminui, e o Brasil torna-se a sétima economia mais poderosa a nível mundial. Lula governa o país por dois mandatos e deixa o cargo de presidente com uma taxa de aprovação de 87%.

Porém, a partir de 2014 a opinião pública sobre Lula começa a mudar com o seu possível envolvimento na Operação anticorrupção Lava Jato, conduzida pelo juiz Sérgio Moro (o qual se inspirou na operação italiana Mãos-Limpas), encarregue de investigar a Petrobras, uma empresa petrolífera brasileira, e o pagamento de propinas a vários políticos para que estes fizessem concessões e outro tipo de favores que a beneficiassem.

Como resultado desta investigação, Lula foi condenado a doze anos de prisão por ter recebido um triplex duma empreiteira, algo que nunca chegou a ser realmente provado.

Neste documentário, Lula é retratado como resiliente, determinado e injustiçado. Para Costa, Lula é um símbolo da resistência e da esquerda brasileira.

A presidência de Dilma

Dilma é apresentada como sucessora de Lula. Esta já é uma figura conhecida no Brasil, não só pela sua vasta carreira política, mas também pelo facto de ter sido uma das maiores ativistas no período do regime militar, chegando até a ser presa e torturada.

É no seio da operação Lava Jato, que procurava combater a corrupção, que Dilma é acusada de cometer “pedaladas fiscais” e que o país entra em recessão. Como resposta, a presidente implementa um plano de austeridade, quebrando, assim, a sua promessa de campanha. Consequentemente, o desemprego e a pobreza aumentam, a taxa de aprovação do seu governo cai para 8% e começam a surgir grupos de direita com um mote de anticorrupção.

Porém, na eleição presidencial de 2014, Dilma volta a ganhar, derrotando Aécio Neves, o qual suspeita de corrupção e pede auditoria das urnas. Depois do seu pedido ter sido negado, luta para que Dilma seja impeached.

Este contexto leva a que, em dezembro de 2015, Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, mais tarde condenado a quinze anos de prisão por ocultar milhões de dólares em subornos, abra o processo de impeachment de Dilma. Após ser destituída, em agosto de 2016, Michel Temer, até então vice-presidente, sobe à liderança do país. Apesar de várias acusações de suborno e corrupção, mantém-se no poder até 2019, ano em que é substituído por Jair Bolsonaro.

À semelhança de Lula, Dilma também é retratada como tendo sido vítima de injustiças e de jogadas realizadas por figuras económica e financeiramente poderosas. A cineasta reforça esta imagem através das entrevistas exclusivas com a ex-presidente e fazendo uma aproximação da sua história de vida à da sua própria mãe.

O papel dos media

Segundo o documentário, verifica-se que os media brasileiros adquiriram, a partir da operação Lava Jato, um papel de extrema importância, atuando como uma espécie de juízes dos alegados crimes cometidos por Lula e Dilma. A opinião pública formava-se a partir do que se lia nos jornais ou do que se via nos programas informativos televisivos; e ondas de protestos e manifestações começaram a surgir por todo o país, colocando uma maior pressão na condenação de Lula e no impeachment de Dilma.

A ascensão de Bolsonaro

Embora o documentário não mostre em detalhe a vida do atual presidente nem o caminho que percorreu para se tornar o líder do Brasil, apresenta-o como a ascensão da extrema-direita ao poder, como o saudosismo da ditadura militar, que deve ser travado, segundo a cineasta. Esta mostra, nos últimos minutos da longa-metragem, a divisão criada entre o povo brasileiro com a sua eleição, bem como o retorno de atitudes e políticas que incentivam a violência e a intolerância.

Bolsonaro, apoiado pelas elites que visam garantir os seus interesses de mercado, ganha as eleições presidenciais de 2018 após a condenação de Lula da Silva, que o obriga a desistir da corrida eleitoral. Assim que sobe ao poder, nomeia Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato, ministro da Justiça.

Impacto do documentário

O filme de Costa obteve reações distintas. A nível mundial, a cineasta foi aplaudida pelo seu trabalho, sendo este nomeado para o Óscar de Melhor Documentário. Porém, a atual administração do seu país acusou-a de ser uma “ativista anti-Brasil”, chegando a ser apelidada de “canalha” pelo filho do presidente1. Dilma Rousseff, alvo de estudo deste documentário, veio em defesa de Costa, escrevendo no Twitter: “Petra foi até serena na escolha das palavras, ao dizer uma pequena parte do que os brasileiros e o mundo já sabem: o Brasil é governado por um machista, racista, homofóbico, inimigo da cultura, apoiador de ditaduras, da tortura e da violência policial, e amigo de milicianos.”.

 Texto da autoria de Rafaela Miranda. Revisto por Miguel Marques Ribeiro.