Política

CORONAVÍRUS: OPOSIÇÃO CRITICA DEMORA DO GOVERNO MAS APOIA DECISÕES TOMADAS.

Portugal está desde ontem em 'estado de alerta' devido à epidemia do novo coronavírus. O anúncio foi feito por António Costa no final da reunião do Conselho de Ministros. Antes tinha recebido em São Bento os vários líderes partidários. A pandemia do novo coronavírus já matou mais de 5000 em todo o mundo. Por Marco Matos
O Primeiro-ministro António Costa à entrada da conferência de imprensa, no Palácio de São Bento. Foto: Expresso
O Primeiro-ministro António Costa à entrada da conferência de imprensa, no Palácio de São Bento. Foto: Expresso

Com o aumento do número de infetados e a crescente pressão de pais para que as escolas fossem encerradas, após relatos de transmissão de Covid-19 na comunidade estudantil, António Costa avançou com novas medidas de combate à epidemia, de que se destaca o encerramento imediato de todos os estabelecimentos de ensino a partir de 2ª feira, dia 16 de Março.

Os vários partidos não demoraram a reagir. Em Conferência de Imprensa, Rui Rio, líder partidário do PSD, veio afirmar que “não adianta muito encerrar as escolas e depois não cuidar que os estudantes não se venham a encontrar num outro sítio qualquer”. Criticou assim a ideia de que a quarentena é “estar de férias”, defendendo o outorgar de “medidas colaterais” para restringir a movimentação de pessoas.

Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, aproveitou para reforçar também a necessidade de todos cumprirem as medidas e seguirem os conselhos do governo, reforçando “que boa parte do combate a esta epidemia passará também pela capacidade que tivermos (…) de compreendermos a responsabilidade individual neste momento”. Afirmou que o Bloco de Esquerda apresentou três medidas principais ao Primeiro-ministro: reforço do SNS, com contratações e aquisições de equipamento; a garantia de manutenção do emprego e rendimentos das famílias e a necessidade de proteção da população mais vulnerável.

Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, reafirma a necessidade de defesa dos direitos dos trabalhadores e apoio a pequenas e médias empresas, assim como o reforço do SNS. Pediu também calma aos portugueses, e o fomentar de uma mentalidade de que “hoje quem tiver certezas certas sobre este cenário que está colocado está enganado”. Assumiu também que, em relação ao PCP, não faltará apoio à população neste momento de crise, mas que “não saí descansado [do encontro com o Primeiro-ministro] ” devido à complexidade do problema.

Ana Rita Bessa, deputada do CDS-PP, reagiu reforçando a necessidade de maior controlo nos aeroportos e transportes públicos, devido às cadeias de contágio serem mais complexas os que as medidas do Governo demonstram. Para além disso, alertou também para a sobrecarga na linha da saúde 24, o que faz com que o tempo de espera aumente consideravelmente, mesmo no pedido de kits de teste por médicos em serviço.

Também em Conferência de Imprensa, João Cotrim de Figueiredo, deputado pelo Iniciativa Liberal na Assembleia, veio defender o encerramento de todos os estabelecimentos públicos não essenciais.

Por sua vez, André Silva, do PAN, reforçou a necessidade de maior esclarecimento à população sobre a natureza diferenciada do vírus e dificuldades que ele traz e pode trazer para o país.

André Ventura, deputado pelo Chega, reforçou a demora do Governo em agir face à situação, dizendo não compreender a ainda confiança depositada na diretora da DGS. Defendeu também o assumir de ações mais drásticas, como o fecho total de fronteiras e grande controlo nos aeroportos. 

O Comunicado de António Costa

Na Conferência de Imprensa de ontem, António Costa reforçou a necessidade de um “sentimento de comunidade”, assim como um “esforço coletivo para enfrentar esta pandemia”. Afirmou também a possível revisão legislativa, face às medidas a adotar ou aperfeiçoar, assim como testemunhou a prontidão com que os vários partidos políticos se dispuseram a ajudar no enfrentar da crise motivada pelo Covid-19.

De seguida apresentou um conjunto de ações a cumprir, como o fecho dos estabelecimentos de ensino, outorgado pelo Centro Europeu para a Prevenção e Combate às Doenças, a partir de 16 de março. Tal foi seguido de um comunicado emitido hoje  no sítio do governo.

Foi também prometido o reforço do SNS, assim como mecanismos de proteção do emprego e apoios a empresas atingidas pela crise e um apoio a famílias que precisem de faltar ao emprego ou “acompanhar os seus familiares e crianças com menos de 12 anos”.

Estas e outras ações serão empreendidas até nova reavaliação no dia 9 de abril. Até lá, pelo menos, o país encontra-se em estado de alerta.

A Resposta Portuguesa

Desde os primeiro casos confirmados em Portugal, no dia 2 de março, que o Governo português tem vindo a trabalhar com a DGS para assegurar o cumprimento de medidas que possam, da melhor forma, prevenir o crescente aumento de casos em território Nacional.

Logo após confirmação destes casos, Marta Temido, ministra da saúde e Graça Freitas, diretora-geral da saúde, deram uma conferência na qual anunciaram algumas diretrizes a seguir, como a vigilância de contactos próximos dos infetados, o rastreamento de voos vindos de Itália, à semelhança do que se fazia com os vindos da China, a recomendação da utilização da Saúde 24 para rastreamento de casos e o pedido de “higienização reforçada”, entre outros.

No mesmo dia, António Costa fez uma visita ao centro de contacto do SNS 24, na qual reforçou a necessidade de seguir medidas de higiene e de procurar a Saúde 24 caso surjam sintomas.

Também no debate quinzenal de 4 de março, António Costa voltou a referir o vírus, garantindo que “desde a primeira hora tudo tem sido feito para garantir uma resposta adequada e para assegurar que nos preparamos o melhor possível para enfrentar esta epidemia”. De seguida, confortou os cidadãos, referindo as medidas portuguesas já ativadas, como o reforço do SNS 24 e o ativar de três hospitais de referência no combate à pandemia: o Curry Cabral e Dona Estefânia em Lisboa e o Hospital de São João no Porto, entre outras.

Ao longo das duas semanas que se seguiram foram adotadas novas medidas, enquanto o número de contaminados e suspeitos aumentava em Portugal. Mais de 30 unidades de saúde e 10 estabelecimentos prisionais da zona Norte – ARSN – pararam de receber visitas desde o dia 8 de março, assim como se outorgou uma quarentena em Felgueiras e Lousada, com o fecho de estabelecimentos de lazer e escolas.

No dia 9 de março foi também recomendada a suspensão de eventos em espaços abertos com mais de 5000 pessoas e em fechados com mais de 1000, assim como anunciado um plano de contingência provisório. Os voos para e de Itália foram proibidos. A decisão sobre o fecho ou não de escolas esteve continuamente a ser discutida.

Covid-19: uma pandemia em crescimento

A 31 de dezembro de 2019, a Comissão Municipal de Saúde de Wuhan, na província de Hubei, reportou 27 casos de pneumonia de causa desconhecida. Mais tarde, a 9 de janeiro foi confirmado como sendo uma nova forma de coronavírus – Sars-Cov-2, agora cientificamente nomeado de Covid-19.

O surto rapidamente se propagou pelo mundo. A transmissão comprovada de pessoa para pessoa, possivelmente por via respiratória, devido a gotículas de tosse, espirros e secreções de infetados, vieram ditar a sua rapidez. Mais de 142.900 pessoas foram até este momento infetadas ao redor do mundo, contando-se mais de 5000 mortes e mais de 70.900 recuperados. 

Os dados referentes ao novo Coronavírus fizeram com que a World Health Organization (WHO) anunciasse ontem, em comunicado, o estado de pandemia.

As Ações Governamentais a Nível Mundial

Na China, o país mais afetado com o novo Coronavírus e seu foco de origem, o governo de Xi Jinpinh decretou quarentena em várias regiões, assim como a suspensão de transportes públicos nas regiões mais afetadas e o cancelamento das comemorações do Ano Novo Chinês. A região de Wuhan, epicentro do Covid-19, entrou em paralisação. Não obstante, o político foi acusado de ter escondido a situação durante pelo menos duas semanas.

No Irão, outros dos países mais afetados, o governo decretou restrição de deslocamento entre províncias, assim como o cancelamento de eventos públicos e a libertação temporário de presos, de forma a conter a propagação do vírus.

Na Europa, e mais concretamente em Itália, o país mais afetado, o surto tornou-se descontrolado. O governo de Giuseppe Conte decidiu fechar o comércio e serviços, excetuando os considerados essenciais, colocando o país em situação de quarentena. Os eventos foram todos suspensos e proibidos, assim como as escolas e faculdades fechadas. Neste momento, os médicos têm de fazer escolhas entre pacientes, tal a escassez de meios para combater a pandemia. O Primeiro-ministro italiano não descarta a necessidade de introduzir medidas ainda mais severas.

Em conferência de imprensa, Ursula von der Leyen, nova líder da Comissão Europeia prometeu esta semana avançar com um pacote de 37 milhões de euros para fazer face à crise motivado pelo novo Coronavírus.

Texto da autoria de Marco Matos. Revisto por Miguel Marques Ribeiro.