Política

RETIRADA AMERICANA PIORA SITUAÇÃO NA SÍRIA

O presidente dos EUA ordenou a retirada das forças norte-americanas da fronteira entre a Turquia e a Síria, no início do mês de outubro, dando início a mais um ciclo de tensão e guerra. Por: Luís Pinheiro
O presidente da Turquia, Erdogan, à esquerda, e o seu homólogo americano, Trump, à direita, apertam as mãos durante um encontro à margem da cimeira do G-20, realizada em Osaka, no Japão, no início de novembro de 2019. (Handout / Presidential Press Service/ AP Photo)
O presidente da Turquia, Erdogan, à esquerda, e o seu homólogo americano, Trump, à direita, apertam as mãos durante um encontro à margem da cimeira do G-20, realizada em Osaka, no Japão, no início de novembro de 2019. (Handout / Presidential Press Service/ AP Photo)

Agindo contra o aconselhamento do seu partido, Donald Trump ordenou a saída das tropas americanas da zona de conflito no norte da Síria, deixando indefesas as forças curdas, que foram os aliados mais importantes na região. Os peshmerga, como são conhecidos os soldados curdos, são responsáveis por combater e manter prisioneiros em diversos campos cerca de 10 mil combatentes do Estado Islâmico.

Perante a retirada americana, o presidente turco iniciou de imediato o seu plano de ataque às forças curdas, dois dias após a movimentação americana. Para a Turquia, os curdos são considerados um grupo terrorista, pelo que o país pretende implementar uma “zona de segurança” com uma extensão de 440 km para manter a paz entre os dois países. Os mesmos ataques provocaram centenas de mortes de civis, forçando a deslocação de milhares de sírios e a fuga de prisioneiros.

Com o cenário de guerra instalado, Donald Trump não demorou a reagir, de novo de forma polémica. Ameaçou o presidente Erdogan com “o fim da economia turca” caso este não cessasse os ataques através de uma carta que termina com a expressão “don’t be a fool”.

Mais tarde, o presidente americano afirmou que possíveis fugitivos do Estado Islâmico não eram problema ou preocupação para o país, pois estes iriam para a Europa. Por fim, o mesmo reiterou que nada deve aos seus antigos aliados curdos, uma vez que os mesmos não ajudaram os americanos na Segunda Guerra Mundial nem na guerra da Normandia.

Ao mesmo tempo que defendia o regresso das suas tropas a “casa”, o presidente americano mandava 2800 soldados americanos para a Arábia Saudita, para protegê-la dos ataques às bases petrolíferas, realizados, segundo Trump, pelos iranianos. O mesmo reiterou que a operação era toda ela paga pelos sauditas, ou seja, que o exército americano está disponível para aluguer e uso desde que os países paguem as operações.

Rússia e NATO também tomam posição

De forma menos mediática, Rússia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) começaram a envolver-se no problema. A instituição internacional marcou posição ao criticar a atuação turca e expressou a necessidade de pôr fim à operação. Por outro lado, as forças de Putin decidiram apoiar os sírio no combate à invasão turca, através do envio do seu exército. Assim, sírios, curdos e russos aliaram-se para parar a ofensiva turca na fronteira.

Dada a pressão exercida sobre o seu país, o presidente Erdogan, após reuniões com o presidente russo e vice-presidente americano, aceitou um cessar-fogo desde que as forças curdas abandonassem a região, ou seja, através deste acordo o presidente turco garantiu o seu objetivo: obter uma “área de segurança” sem ter de recorrer à força militar. Em consequência desta situação, os curdos que se encontravam na região viram-se forçados a abandonar as suas casas e a subjugarem-se a um governo sírio apoiado pelas forças russas que fizeram o acordo.

No entanto, cinco dias após o cessar-fogo, a Turquia ameaçava com o regresso dos conflitos, afirmando ter informações da presença das forças curdas na “zona de segurança”. Sem tardar, surgiu uma resposta americana que não queria qualquer tipo de conflito, mesmo que para tal fosse necessário recorrer ao reenvio das suas tropas. Surgiram então novas reuniões entre Donald Trump e Erdogan.

Prisão de líder do Estado Islâmico é vitória para Trump

A 27 de outubro surgiu a notícia bandeira para o presidente americano. O líder do Estado Islâmico, Al Baghdadi foi morto pelo exército americano na mesma região síria, junto à fronteira com a Turquia. Não se sabe qual a influência turca ou síria nesta operação, mas grandes dúvidas surgiram uma vez que a mesma se realizou dias após a reunião com o líder turco.

O conflito poderia ter ficado atenuado definitivamente para Donald Trump, mas o mesmo parece ser atraído para as decisões polémicas e a 31 de outubro determinou o regresso das suas tropas a terreno sírio para proteger 2 poços de petróleo na fronteira com o terreno turco. Já o Pentágono, o departamento da defesa americano, apresenta outra versão da estratégia, em que a mesma tem como principal objetivo combater o Estado Islâmico.

Macron alerta para o possível ressurgimento do Estado Islâmico

A Síria continua a ser um país de guerra. Milhares de habitantes tentam fugir a todo o custo para os países vizinhos e para a Europa. Ao mesmo tempo, os intervenientes internacionais continuam a discutir entre si e a trocar acusações pelo conflito, como se verificou dia 4 de dezembro, na cimeira da NATO, em que o presidente francês Emmanuel Macron criticou a ausência de ação da instituição e alertou para opossível ressurgimento do Estado Islâmico, acusando a Turquia e os Estados Unidos de permitirem que tal acontecesse.

Donald Trump continua a governar os EUA repleto de polémicas, quer seja a tentativa de “impeachment” ou o caos no médio oriente, sem ter encontrado forma de as diminuir ou solucionar, prosseguindo com o seu conturbado período de governação.

Artigo da autoria de Luís Pinheiro. Revisto por Miguel Marques Ribeiro