Política

Brexit sem acordo ameaça destruir união britânica

Vários governantes e personalidades no Reino Unido, por onde Boris Johnson, empossado primeiro-ministro a 24 de julho, andou em périplo na semana passada, mostram descontentamento com a possibilidade de um 'no deal' Brexit.

 

Neil Hall/ EPA
Neil Hall/ EPA

O Reino Unido, tal como existe hoje, formou-se através de sucessivos tratados de União entre a Inglaterra, a Escócia, o País de Gales e a Irlanda, o primeiro dos quais teve lugar em 1707. Trata-se da mais antiga união política do mundo, mas a sua continuidade pode estar em perigo, a julgar pelo que tem sido dito nas capitais das terras de Sua Majestade, e também na República da Irlanda.

As primeiras palavras de Boris Johnson como primeiro-ministro, num discurso realizado em frente ao n.º 10 de Downing Street, não deixaram margem para dúvidas: no próximo dia 1 de novembro, o Reino Unido vai estar fora da União Europeia, «no ifs, no buts» («sem ses, sem mas»).

As reacções a esta posição não se fizeram esperar. Os líderes da Escócia e do País de Gales enviaram uma carta conjunta ao primeiro-ministro britânico a pedir-lhe para retirar da agenda a saída sem acordo. Nicola Sturgeon, líder do governo escocês e do Scottish National Party, tem estado muito activa na defesa de um novo referendo sobre a independência do país.

As críticas a Johnson são assumidas também pela própria líder do Partido Conservador escocês, Ruth Davidson, que se opõe frontalmente à política ‘no deal’ de Johnson. Entretanto, alguns quilómetros para sudoeste, no País de Gales, chegam ecos de uma marcha independentista realizada Sábado passado.

Da República da Irlanda chegam igualmente posições contrárias a Johnson. O primeiro-minstro Varadkar tem-se multiplado em declarações de defesa do acordo alcançado em março entre a União Europeia e o Governo Britânico, então liderado por Theresa May, para uma saída ordenada (e que foi rejeitado no Palácio de Westminster, em sucessivas votações).

A União Europeia permanence unida e irredutível na defesa dos interesses irlandeses nesta matéria, nomeadamente na cláusula de salvaguarda que impede a existência de uma fronteira física entre as duas Irlandas (a República da Irlanda e a Irlanda do Norte).

Na quarta-feira passada, a 31 de Julho, o Sinn Féin, histórica formação política irlandesa, disse esperar que a uma saída sem acordo suceda um referendo de unificação das Irlandas. Regressa assim à agenda o discurso de reunificação anterior aos Acordos de Sexta-feira Santa, que puseram termo, em 1998, a décadas de conflito armado.

Johnson pode ter aberto uma caixa de Pandora. O novo primeiro-ministro está consciente da necessidade de preservar a aliança entre os diversos países que consituem o Reino Unido e por isso mesmo atribuiu-se o cargo de Ministro da União.

Os próximos meses serão decisivos para perceber se a decisão que os britânicos tomaram no Referendo de 2016 irá afetar não apenas a sua relação com a União Europeia, mas também a sua própria existência como país.

Autoria: Miguel Marques Ribeiro. Artigo revisto por Rita Pais Santos.