Política

DONALD TRUMP ANUNCIA A RETIRADA DAS TROPAS AMERICANAS DA SÍRIA: “O ESTADO ISLÂMICO FOI DERROTADO”

A 19 de dezembro de 2018, Donald Trump anunciou que iria ordenar o regresso de 2000 soldados americanos da Síria. O presidente norte-americano justificou a decisão com o facto de "os E.U.A. não terem que intervir na guerra de outros países".

Donald Trump anunciou a retirada das tropas norte-americanas da Síria, no entanto, a decisão não foi bem recebida pela sua administração, pelo Partido Republicano, onde as opiniões divergem, e pela própria população americana. A notícia gerou também dúvidas e impaciência nos aliados no combate contra o Estado Islâmico.

Numa primeira fase e devido aos primeiros relatos a circular, gerou-se a ideia de que Trump iria abruptamente retirar as tropas da Síria, uma vez que o próprio não referiu quaisquer datas para a operação e expressou o desejo de que esta se realizasse de forma célere.

No entanto e perante o tumulto criado, o presidente norte-americano veio esclarecer que nunca tinha dito que a operação seria rápida, mas sim um processo com um ritmo adequado e que o combate ao Estado Islâmico continuaria durante a retirada.

De momento, apenas veículos e estruturas bélicas foram retirados da zona de guerra, pelo que todos os soldados ainda se encontram em território sírio, tendo as operações sido iniciadas no dia 11 de Janeiro deste ano.

Perante a medida anunciada por Trump foram várias a vozes que se mostraram perplexas e contra a decisão do presidente americano. Entre elas, destacam-se a de Lindsey Graham, senador republicano e um dos grandes apoiantes de Trump, que afirmou que a retirada das tropas americanas será um desastre e uma nódoa na honra dos EUA. Também James Mattis, antigo secretário de estado, apresentou a sua demissão perante a medida anunciada por Trump.

As razões de toda a tempestade

Donald Trump afirmou que o Estado Islâmico, apesar de ainda ativo, foi derrotado e que já não há razão para a permanência das tropas americanas na Síria. Referiu também que os E.U.A “não têm de intervir na guerra de outros” e que “outros países como Turquia, Rússia e Iraque devem reforçar o combate ao terrorismo em vez de dependerem dos americanos”.

Além dos argumentos dados por Donald Trump, as razões monetárias também parecem ter contribuído para o avanço da medida, uma vez que a manutenção das forças americanas em território sírio tem elevados custos para os cofres americanos. Numa altura em que o governo de Trump enfrentava um shutdown por impossibilidade de financiamento para o muro na fronteira com o México, que segundo o presidente será patrulhado pelo exército, os milhões de dólares poupados podem ser rapidamente redirecionados.

Numa outra perspetiva, a medida de Trump enfrenta vários desafios e a sua concretização pode não ser viável a curto prazo.

Um dos principais problemas e preocupações é a recuperação de poder por parte do Estado Islâmico, também conhecido por Daesh. Embora, atualmente, as áreas controladas pelo grupo terrorista sejam de dimensões mínimas, não se pode descartar uma nova investida e inversão da situação.

Também no que diz respeito à vertente internacional, é importante referir o conflito com a Rússia, grande apoiante do regime sírio de Bashar al-Assad. A Rússia surge como mais um interveniente neste cenário de guerra, financiando e fornecendo armamento e tropas ao regime sírio, o mesmo regime que é repudiado pelos E.U.A e União Europeia por acreditarem que al-Assad é o responsável por ataques terroristas contra opositores ao seu regime, dando início à guerra civil que assola o país. Desta forma, a ausência de forças americanas em território sírio pode levar a um aumento do poder e influência russa.

Fronteira que separa o norte da Síria do território turco
Fronteira que separa o norte da Síria do território turco

Outra das razões que pode dificultar a implementação da medida de Trump e uma das que mais tinta em feito escorrer é o conflito com a Turquia. Em território sírio, um dos aliados dos soldados americanos é o exército Curdo, da Federação Nórdica Democrática Síria. Estes controlam a parte norte da Síria, que faz fronteira com a Turquia. Devido a esta proximidade e divergências políticas, a Turquia é acusada de fazer diversos ataques contra esta força militar. As acusações foram sustentadas por John Bolton, concelheiro de segurança nacional dos Estados Unidos da América, que fez saber que os americanos não sairão da Síria enquanto não estiver garantida a segurança dos seus aliados Curdos.

Perante estas declarações, Recep Tayyip Erdogan, presidente turco, afirmou que as palavras de Bolton eram inaceitáveis e que a mentira de que a Turquia tinha como alvo os Curdos, não passa de uma acusação vulgar, feia e de baixo nível. No entanto no mesmo discurso, Erdogan prometeu intensificar o combate cotra o Daesh (Estado Islâmico), assim como o YPG e o PYD, grupos Curdos sírios, que são considerados como terroristas para Erdogan, conceção contrária à dos Estados Unidos da América.

Perante este impasse, o que parecia ser um telefonema de negociações bem encaminhadas entre Donald Trump e Erdogan, revelou-se mais uma falha de entendimento entre os membros do governo americano, uma vez que após as acusações de Bolton, o presidente turco recusou-se a receber o enviado de Trump.

Fotografia: Twitter Donald Trump
Fotografia: Twitter Donald Trump

Assim, o presidente dos EUA viu-se obrigado a recorrer ao seu secretário de estado Mike Pompeo, para se deslocar aos países intervenientes, como Iraque, Síria e Turquia, de forma a negociar os melhores termos para a saída dos soldados americanos de território sírio. Via Twitter, Donald Trump também fez questão de deixar uma ameaça ao regime turco, prometendo devastar o país com uma crise económica caso estes ataquem os aliados Curdos.

Fotografia: Twitter Donald Trump
Fotografia: Twitter Donald Trump

Desta forma, o que o presidente americano pretendia com uma “saída rápida” das suas tropas de zona de guerra tornou-se num problema de dimensões internacionais que atrasará o regresso dos soldados por semanas, meses ou até mesmo anos. Da mesma maneira, a guerra na Síria parece também não ter, de todo, um fim próximo.

Artigo de Luís Pinheiro. Revisto por Ana Rita Moutinho.