O CONFLITO NAS COREIAS EXPLICADO – Jornal Universitário do Porto
Política

O CONFLITO NAS COREIAS EXPLICADO

Com a recente aproximação das Coreias, é importante contextualizar o conflito. Depois de vários testes nucleares, ameaças mútuas e falta de diplomacia, o JUP relembra como a tensão na península coreana começou.

As duas Coreias estiveram juntas durante mais de cinco séculos, sob o controlo da dinastia de Joseon. Porém, a dinastia cedeu perante os japoneses, que conquistaram a península nos finais do século XIX e que a anexaram formalmente em 1910.

O domínio colonial do Japão na Coreia durou até ao fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1945, com a derrota japonesa cada vez mais evidente, as potências aliadas sabiam que teriam de tutelar os territórios ocupados pelo Japão, até haver estabilidade para se fazerem eleições. Como os Estados Unidos já teriam de administrar o Japão e as Filipinas, não mostraram muito interesse na Coreia. Por outro lado, a União Soviética deixou claro o seu desejo de controlar o país, especialmente para poder recuperar influência na Manchúria, território que perdeu para os japoneses na guerra entre as duas potências .

Na Conferência de Ialta, em fevereiro de 1945, a União Soviética tinha prometido juntar-se aos aliados no conflito no Pacífico entre dois a três meses depois da vitória na Europa. Assim, em agosto – e dois dias depois do lançamento da bomba atómica em Hiroshima – a União Soviética declarou guerra ao Japão.

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Churchill, Roosevelt e Estaline na Conferência de Ialta [Foto: Escritório de Guerra do governo britânico]
O avanço das tropas soviéticas na Coreia preocupou o governo americano, que temia que a União Soviética ocupasse todo o país. Cinco dias antes da rendição do Japão, foi delegada a tarefa da definição de uma zona de ocupação americana a dois jovens oficiais. A rapidez necessária para a conclusão da tarefa levou a que os oficiais dividissem a península coreana no Paralelo 38. Esta divisão explica-se porque as partes eram quase iguais em território e porque a capital, Seul, ficava no lado americano. Para a surpresa dos americanos, a União Soviética aceitou a divisão, mas os coreanos não foram consultados na tomada da decisão.

As forças japonesas no norte da Coreia renderam-se aos soviéticos, enquanto que no sul sucumbiram aos americanos. As duas potências tinham marcado uma reunificação da Coreia para 1948, contudo, havia um problema: os Estados Unidos queriam que a península inteira fosse capitalista e a União Soviética queria que todo o território fosse comunista.

A Coreia do Sul foi entregue ao anti-comunista Syngman Rhee enquanto que a Coreia do Norte foi governada por Kim II-sung, que tinha servido no exército soviético. Em 1950, Kim II-sung invadiu a Coreia do Sul, iniciando-se a Guerra da Coreia. A guerra provocou a morte de três milhões de coreanos e a divisão entre os dois países mantém-se até hoje. Por nunca ter sido assinado um acordo de paz, a guerra ainda não acabou.

A tensão nuclear

A tensão internacional intensificou-se em janeiro de 2003, com a saída da Coreia do Norte do Tratado para a Não-Proliferação de Armas Nucleares.

Em 2005, a Coreia do Norte aceitou desistir do seu programa nuclear, se a comunidade internacional lhe fornecesse assistência energética e cooperação económica. Apesar deste aparente alívio da tensão, em julho e em outubro de 2006 a Coreia do Norte testou mísseis de longo alcance. Em 2009, o país revelou a realização de novos testes nucleares, que são condenados pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Já em janeiro de 2013, a Comissão Nacional de Defesa da Coreia do Norte prometeu continuar a realizar testes nucleares, desafiando os Estados Unidos. Essa promessa cumpriu-se um mês mais tarde, com a realização do terceiro teste nuclear, o primeiro desde a ascenção do atual líder, Kim Jong-un.

Líder norte-coreano Kim Jong-un. Foto: Reuters
Líder norte-coreano Kim Jong-un. Foto: Reuters

Nos finais de março de 2014, a Coreia do Norte disse estar a preparar outro teste nuclear. A tensão intensificou-se com a emissão de projéteis para território sul-coreano, que retaliou na mesma moeda.

Recentemente, em 2017, Kim Jong-un começou o ano com a possibilidade do país em breve testar o lançamento de um míssil balístico intercontinental. Essa possibilidade concretizou-se em julho do mesmo ano, segundo o governo. Donald Trump respondeu a esta ameaça afirmando que “fogo e fúria” iriam cair sobre o país inimigo. Setembro trouxe outro incidente, com a realização do sexto teste nuclear. Este teste causou um sismo de 6.3 de magnitude, com Pyongyang a afirmar que o instrumento testado era uma bomba de hidrogénio cerca de oito vezes mais potente do que a bomba de Hiroshima.

As tentativas de aproximação

Apesar de, atualmente, se falar sobre uma potencial solução de paz, a verdade é que esta já não é a primeira vez que isso acontece.

Em 1992, as duas Coreias assinaram uma declaração pela desnuclearização da península, onde concordaram em não testar ou produzir armas nucleares, para além de aceitarem inspeções de verificação mútuas.

Quatro anos mais tarde, o líder sul-coreano, Kim Dae-jung apela ao fim do clima de tensão entre as Coreias. Kim Dae-jung foi o orquestrador de uma reunião diplomática em 2000, que lhe valeu o Nobel da Paz. A reunião repetiu-se em 2007.

Kim Dae-jung Foto: Junko Kimura/Getty Images AsiaPac
Kim Dae-jung Foto: Junko Kimura/Getty Images AsiaPac

Em 2008, Pyongyang dava novos sinais de progresso, ao destruir uma torre utilizada para a produção nuclear e ao reunir-se com a comunidade internacional. Contudo, as conversas diplomáticas não resultaram devido à recusa do país de deixar inspetores internacionais acederem livremente a localizações nucleares.

A aproximação mais recente iniciou-se em janeiro, com a chamada da Coreia do Norte à Coreia do Sul através da Zona Desmilitarizada das Coreias (uma linha de segurança que protege as fronteiras dos países). As duas nações concordaram também no envio de atletas norte-coreanos aos Jogos Olímpicos de inverno realizados na Coreia do Sul.

Em abril, os dois países reuniram-se pela primeira vez em onze anos. Na reunião foi acordada a desnuclearização da península, com Kim Jong-un a afirmar que as Coreias “estão ligadas por sangue como uma família e compatriotas que não podem viver separadamente”. Num gesto simbólico, Pyongyang voltou a partilhar o fuso horário de Seul e convidou jornalistas estrangeiros para testemunhar a destruição das localizações nucleares.

Kim Jong-un and Moon Jae-in a 27 de abril de 2018 [Foto:Korea Summit Press Pool]
Kim Jong-un and Moon Jae-in a 27 de abril de 2018 [Foto:Korea Summit Press Pool]
Seja a do Norte ou a do Sul, ambas as Coreias continuam a afirmar que o seu empenho no diálogo diplomático. Resta saber se a paz está próxima ou se o ciclo de ataques será retomado.