MIGUEL DÍAZ-CANEL: O PRIMEIRO CIVIL QUE CHEGA À PRESIDÊNCIA DE CUBA – Jornal Universitário do Porto
Política

MIGUEL DÍAZ-CANEL: O PRIMEIRO CIVIL QUE CHEGA À PRESIDÊNCIA DE CUBA

Miguel Díaz-Canel, nascido depois da Revolução Cubana, é o primeiro civil que chega à presidência da ilha. Eleito a 19 de abril de 2018, é uma incógnita para a população uma vez que não se conhecem as suas ideias para os destinos do país.

As últimas semanas de abril foram marcadas pela eleição de Miguel Díaz-Canel como Presidente de Cuba. O antigo vice-presidente de Raúl Castro obteve um total de 603 votos na Assembleia Nacional do Poder Popular, ficando às portas da unanimidade. Trata-se do primeiro civil a ascender ao cargo. Com 58 anos, o novo Presidente cubano não conheceu outros líderes que não tivessem o nome Castro nem viveu tão pouco o período pré-revolucionário. É que a deposição de Fulgêncio Batista, o corolário da Revolução Cubana que conduziu Fidel Castro ao comando da ilha, aconteceu em 1959 e Díaz-Canel só nasceu no ano seguinte.

Perante a aparente novidade logo surgiram vozes esperançadas numa mudança de políticas: “Este é um momento oportuno para iniciar um diálogo essencial e construtivo sobre o futuro de Cuba”, sublinhou Erika Guevara Rosas, diretora para as Américas da Amnistia Internacional, organização que luta pela defesa dos direitos humanos, citada pelo DN.

Já Michael Bustamante, professor de História da Universidade Internacional da Flórida, nos Estados Unidos da América, e especialista em Cuba, entrevistado pelo PÚBLICO, deu mostras de acreditar que não haverá mudanças “pelo menos não imediatamente e também não no curto prazo”. Raúl Castro irá continuar à frente dos destinos do Partido Comunista Cubano até 2021, pelo menos, não saindo, por isso, completamente de cena.

As primeiras declarações de Miguel Díaz-Canel após ter sido empossado apontam para uma linha de continuidade: “Assumo esta responsabilidade com a convicção de que todos nós, revolucionários cubanos, seremos fiéis ao legado do líder histórico Fidel Castro, e também ao exemplo, valor e ensinamentos de Raúl Castro”, proferiu, em declarações recolhidas pelo Público.

As origens de Miguel Díaz-Canel

O novo líder da ilha nasceu no norte, em Placetas, na província de Villa Clara. Formou-se em engenharia eletrotécnica em 1982. Cumpriu o serviço militar obrigatório e após terminar o curso alistou-se nas Forças Armadas Revolucionárias, tendo estado em missão na Nicarágua. Trabalhou como professor na Universidade Marta Abreu de Las Villas.

No seio do Partido Comunista foi subindo degraus progressivamente desde a sua inscrição na União dos Jovens Comunistas em 1987. Entre 1994 e 2003 foi primeiro-secretário do Partido Comunista em Santa Clara, na sua Villa Clara natal, cargo semelhante ao de governador que desempenhou igualmente na província de Holguín, de onde são naturais os irmãos Fidel e Raúl Castro, entre 2003 e 2009, ano em que foi nomeado ministro do Ensino Superior.

Três anos mais tarde foi escolhido para ser vice-presidente do Conselho de Ministros e em 2013 foi nomeado vice-presidente do Conselho de Estado.

Em abril herdou um país que se encontra economicamente estagnado e a depender das exportações. A sua aliada Venezuela encontra-se imersa numa profunda crise e, por outro lado, assiste-se a um recrudescimento da tensão na relação de Cuba com os Estados Unidos da América após a chegada de Donald Trump.

O homem que em 2003, com 43 anos, se tornou no membro mais jovem de sempre a ter assento do Politburo cubano é fã dos Beatles, frequentemente apelidado de «Richard Gere cubano» em virtude dos seus cabelos grisalhos. É tido como uma pessoa acessível. Todavia, conhece-se pouco acerca das suas ideias. Isto porque Miguel Díaz-Canel preza pela discrição, sendo pouco dado ao contacto com os media.

Chegou à presidência sem o suporte do sufrágio popular, numa transição com o apoio de Raúl Castro. É algo desconhecido para a população mas, o facto de pertencer a uma geração diferente e de usar calças de ganga (em vez do uniforme militar), aproxima-o dos restantes civis. Só com o tempo se perceberá se, através da sua atuação enquanto líder do Estado cubano, Miguel Díaz-Canel conseguirá trazer mudanças para a ilha e para os seus habitantes.