Política

CHIPRE: UMA DIVISÃO SEM FIM?

O Chipre, ilha mediterrânica, encontra-se, desde 1974, dividido entre domínio turco e grego. Divisão sem fim à vista para muitos cipriotas, o tema da cisão do Chipre é um assunto ainda corrente, tanto na política internacional, como também na política nacional do país.

Contextualização histórica

O Chipre localiza-se na zona este do Mar Mediterrâneo, a sul da Turquia e a leste da Grécia. É a terceira ilha mais populosa da zona Mediterrânica, albergando mais de 1 milhão de habitantes. Estado-membro da União Europeia desde 2004, o Chipre encontra-se atualmente divido entre o território grego e turco.

Em 1878, o Chipre foi colocado sob administração britânica e, em 1914, foi oficialmente anexado pelo Império Britânico. Contudo, após um sucessivo conflito entre os cipriotas e o domínio britânico, o Chipre conseguiu a sua independência, abdicando das bases de Acrotirí e Deceleia para o Reino Unido.

No entanto, a disputa colonial passou para uma disputa étnica entre os habitantes turcos e gregos da ilha, quando, segundo a constituição, estava estipulado que o cargo de vice-presidente, com poder de veto, ficaria ao encargo dos turcos cipriotas durante o governo de Makarios III.

Isto veio criar uma grande tensão entre os turcos-cipriotas e os gregos-cipriotas, que viram esta tensão despoletar graves atos de violência entre os habitantes da ilha.

A julho de 1974, os cipriotas gregos organizaram um golpe de estado que depôs o presidente Makarios III e instalaram Nikos Sampson no seu lugar.

Em resposta, a Turquia, na premissa de defesa dos interesses dos turcos-cipriotas, invadiu a parte norte da ilha – que ocupa até os dias de hoje de forma ilegal, segundo o Conselho de Segurança da ONU. Mais tarde, em 1983, declarou unilateralmente a independência do território, formando a República Turca do Chipre do Norte.

Em contrapartida, o governo grego-cipriota, que controla o sul da ilha, formou a República do Chipre, oficialmente reconhecida pela União Europeia. Como resultado, o Chipre ficou dividido pela Linha Verde, uma zona-tampão, criada pela ONU, para evitar mais conflitos entre as duas comunidades.

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A situação atual

Apesar de ter visitado a Grécia enquanto primeiro-ministro em 2010, Recep Tayyip Erdogan, agora como presidente da Turquia, visitou a Grécia em dezembro do ano passado. Foi a primeira vez, em 65 anos, que um chefe de estado turco realiza a território grego.

Numa conferência de imprensa conjunta com o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, ficou evidente o distanciamento entre os dois países vizinhos. Contudo, ambos os líderes chegaram à conclusão que está na altura de começar um novo capítulo nas relações turcas e gregas, porque só assim os dois países sairão beneficiados.

Em cima da mesa estiveram questões como o tratado de Lausanne, cujo objetivo foi de reconhecimento internacional da Nova República da Turquia, assinado em 1923, a minoria muçulmana na Trácia e ainda a questão do Chipre.

República do Chipre e República Turca do Chipre do Norte vão a votos

No passado mês, cipriotas turcos e gregos foram a eleições para decidir quem seria o próximo presidente tanto da República Turca do Chipre do Norte como para a República do Chipre.

Na República do Chipre, Nicos Anastasiades, presidente desde 2013, venceu a 1ª volta do escrutínio com 35,5% dos votos, seguido de Stravos Malas, candidato independente, que conseguiu 30% dos votos.

Contudo, a taxa de abstenção superou os 28%, a mais alta nos últimos 10 anos. O grupo que gera mais preocupação é o dos jovens cipriotas gregos, que cada vez menos acreditam num término das conversações de reunificação da ilha.

“A solução que gostaria de ver era o fim da ocupação turca. Os cipriotas turcos podiam ficar e reclamar as terras e propriedades que deixaram deste lado. O que se passa é que, infelizmente, temos políticos que constroem as suas carreiras com base na divisão cipriota”, afirma Iraklis, habitante da parte sul da ilha, numa entrevista à Euronews.

Após uma campanha eleitoral onde o foco principal era a economia cipriota e o resgate da mesma, na 2ª volta, Anastasiades e Stravos mediram forças, tendo o antigo chefe de estado saído vitorioso com 56% dos votos.

Reunir a ilha mediterrânica é a promessa de Anastasiades

No seu discurso de reeleição, Anastasiades comprometeu-se a reunir a ilha mediterrânica e melhorar a questão financeira e económica do país. Contudo, em entrevista ao Euronews, o chefe de estado da parte sul da ilha afirma que “estamos a observar o comportamento da Turquia com muita contenção, não abandonaremos os nossos direitos soberanos por causa desses desafios”.

Neste sentido, o reeleito presidente cipriota grego pretende contactar Mustafa Akinci, chefe da diplomacia da Turquia, de forma a debater quais as etapas para o futuro em relação à reunificação da ilha.

“A segurança de uns não pode representar uma ameaça para os outros. E as garantias, os direitos de intervenção da Turquia e a presença crescente de tropas turcas são coisas que representam, sem dúvida, uma ameaça para a comunidade cipriota grega”, declarou Nicos Anastasiades, em entrevista ao Euronews.

Do outro lado da ilha, na República Turca do Chipre do Norte, o Partido de União Nacional, liderado por Hüseyin Ozgürgün, venceu as eleições legislativas da parte norte da ilha com cerca de 36% dos votos. Seguido do Partido Republicano Turco, que ficou em segundo lugar com 21% dos votos.

Apesar de, nas negociações para a unificação do Chipre, as formações sociais-democratas defenderem uma solução federalista, os conservadores são favoráveis à criação de dois Estados que operem em igualdade de condições.

No discurso de tomada de posse, no Parlamento, Anastasiades reconheceu, no entanto, que uma rápida retoma das negociações de paz é “impossível”, devido à posição da Turquia que, segundo o presidente cipriota, violou a lei internacional num diferendo sobre a exploração de jazidas marítimas de gás e petróleo.