Política

OS EUA VÃO ABANDONAR O ACORDO DE PARIS. E AGORA?

Os Estados Unidos da América vão abandonar o Acordo de Paris. Em que consiste este acordo histórico e quais as implicações políticas desta saída?

O que é o Acordo de Paris?

Trata-se de um “compromisso” histórico, assinado por 175 países no âmbito da cimeira do Clima de Paris, e cujo objetivo é lutar contra as alterações climáticas e travar o aquecimento global, um dos maiores desafios do nosso século.

Para tal, a comunidade internacional, além de “reconhecer que as alterações climáticas representam uma ameaça urgente e potencialmente irreversível para as sociedades e para o planeta”, comprometeu-se a manter a temperatura média mundial “muito abaixo de dois graus celsius”, valor limite que os cientistas acreditam ser seguro em relação aos níveis pré-industriais.

Os países aderentes deverão: reduzir emissões de gases com efeito de estufa, ser transparentes na informação fornecida e atingir o pico das suas emissões “o mais cedo possível” para que, idealmente, algures na segunda metade deste século os gases com efeito de estufa e os combustíveis fósseis tenham sido abandonados quase por completo.

Trata-se de um acordo universal, mas diferenciado. Todos os países contribuem para a resolução do litígio, mas com metas e estratégias diferentes. Consta do documento, que estes devem apresentar, de cinco em cinco anos, planos nacionais com os objetivos a que se propõe cumprir, bem como ajudar os países mais pobres quanto ao financiamento.

Fonte: Climate Analytics
Fonte: Climate Analytics

Porque é que os Estados Unidos saíram?

Importa referir que uma das promessas de Donald Trump durante a campanha presidencial de 2016 foi precisamente a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris.

De acordo com o atual presidente, “o acordo é muito injusto para os Estados Unidos”, pois prevê uma drástica redução da emissão de gases com efeito de estufa, o que prejudica “ao mais alto nível” a economia norte-americana. Para o presidente, as empresas de carvão e petróleo, assim como as indústrias, são prejudicadas devido aos esforços para reduzir as emissões poluentes.

É certo que Trump sempre se mostrou muito cético e duvidoso relativamente à autenticidade das alterações climáticas. Para este, o aquecimento global não passa de um “mito”, um conceito inventado pelos chineses para prejudicar a competitividade da indústria norte-americana.

Tweet de Donald J. Trump
Tweet de Donald J. Trump

Mas nem sempre foi assim. De acordo com o jornal The Guardian, Trump foi, em tempos, “amigo do ambiente”, tendo enviado em 2009 uma carta a Barack Obama onde pedia: “por favor, permita que nós, os Estados Unidos da América, modelemos a mudança necessária para proteger a humanidade e o nosso planeta”.

E agora?

A saída dos Estados Unidos representa um enorme retrocesso político, principalmente depois dos esforços levados a cabo pela anterior presidência no sentido de diminuir as emissões. Significa também que o país deixará de desempenhar um papel de liderança no que diz respeito à procura de soluções.

Apesar da saída, foi criado um movimento chamado “We are still in“, constituído por grandes empresas, universidades, políticos e notáveis personalidades da sociedade civil, ao qual se juntaram já treze estados membros norte-americanos, compondo uma verdadeira “aliança climática“. Esta união, mesmo sem o compromisso de Donald Trump, está empenhada em alcançar as metas traçadas pelo acordo celebrado em dezembro de 2015.

A decisão da Casa Branca pode ainda levar a que outras nações abandonem o compromisso. Além disso, a quebra do acordo pode limitar as relações entre os norte-americanos e o seus aliados europeus.

Foto: Diário de Noticias
Foto: Diário de Noticias

Por cá…

O presidente Marcelo Rebelo de Sousa ressalvou que “as relações transatlânticas são uma realidade muito rica e muito importante” e declarou: “os povos perduram, as nações perduram, os presidentes passam e os governos passam”.

Insistiu ainda que “as alterações climáticas são um problema, e o negar, ainda que por razões políticas de momento esse problema, não faz desaparecer o problema”. “Há coisas que são tão óbvias na vida. É como achar que se pode tapar o sol com o dedo – o sol está lá e o dedo não tapa o sol -, ou como o defender que o sol anda à volta da terra e não a terra à volta do sol”, comparou.

Também o secretário-geral da ONU, António Guterres, considerou “absolutamente essencial” que se cumprisse o Acordo de Paris. Para Guterres, “se algum governo duvida da vontade e da necessidade global deste acordo, então há razões para que todos os outros países se unam de forma ainda forte”.

De salientar que, Portugal ratificou o acordo de Paris em 30 de setembro de 2016, tornando-se o quinto país da União Europeia a fazê-lo e o 61.º do mundo.

Cimeira do Clima | Foto: REUTERS/STEPHANE MAHE
Cimeira do Clima | Foto: REUTERS/STEPHANE MAHE