Política

ANGELA MERKEL: FIM À VISTA?

Depois de 10 anos como chanceler alemã, a mulher-forte da Europa enfrenta pela primeira vez uma pujante oposição nas urnas. Martin Schulz, antigo presidente do Parlamento Europeu, vai à frente nas sondagens para as eleições de 24 de setembro.

2017 promete ser um ano particularmente decisivo na carreira política de Angela Merkel: para além de completar 12 anos como chanceler alemã, concorre ainda para aquele que poderá ser o seu quarto mandato. Em caso de vitória nas eleições de 24 setembro, Merkel poderá igualar o recorde do seu padrinho político, Helmut Khol, que esteve no poder durante 16 anos. Mesmo assim, o caminho para a reeleição não promete ser um mar de rosas, já que a líder da CDU terá como principal adversário Martin Schulz, antigo presidente do Parlamento Europeu.

O ato eleitoral de setembro está envolto em circunstâncias ímpares, no que diz respeito ao contexto interno e externo, pelo que estas desempenharão um papel chave na eleição do novo líder alemão. Questões como a política de portas abertas para o acolhimento de refugiados, o futuro da União Europeia, o papel da Alemanha no projeto comum, o terrorismo, o crescimento da extrema-direita na Europa e ainda as relações com os Estados Unidos da América de Donald Trump.

Martin Schulz: Do parlamento Europeu para a Chancelaria?

Martin Schulz poderá ser o principal obstáculo de Angela Merkel na perseguição da reeleição. Chegado diretamente de Estrasburgo, Schulz assumiu a liderança dos sociais-democratas do SPD, atual parceiro de coligação da CDU, em dezembro de 2016.

Sucedeu a Sigmar Gabriel, atual vice-chanceler e ministro dos negócios estrangeiros, e os alemães parecem estar de acordo com a mudança. Segundo uma sondagem realizada pela televisão pública (ARD), a maioria do eleitorado, 64%, vê com bons olhos a candidatura do antigo livreiro em detrimento de Sigmar.

Uma das principais vantagens do antigo presidente do parlamento europeu é o facto de não ter participado no governo anterior, o que lhe dá alguma margem de manobra para atacar mais ferozmente as políticas e a governação de Merkel. Mesmo assim, Schulz prefere concentrar-se num discurso de mudança e união, defendendo que as divisões entre o povo alemão abrem caminho para o crescimento da extrema-direita no país.

Alternativa para a Alemanha: O regresso da extrema-direita à Alemanha?

Após 72 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, um partido da extrema-direita ocupa o terceiro lugar nas sondagens para as eleições alemãs.

Fundado em 2013, o Alternativa para a Alemanha (AfD) começou por ser uma força política ultranacionalista, anti-Europa e anti-moeda única que posteriormente, pela mão de Frauke Petry, evoluiu para o campo da extrema-direita, da xenofobia e da anti-imigração, deixando as questões económicas para segundo plano.

Atualmente, o AfD não tem representantes no parlamento federal alemão, mas está presente em cerca de 10 assembleias regionais, depois de ter alcançado resultados históricos nas eleições de março.

As análises feitas no rescaldo do sufrágio permitiram tirar conclusões reveladoras: apenas 26% dos eleitores afirma ter votado no Alternativa para a Alemanha por convicção, enquanto que 70% declararam  ter feito esta escolha “por estarem dececionados com os partidos do establishment”.

O ato eleitoral de 24 de setembro revestem-se também de um caráter decisivo para o partido de Petry que se desmarcou de uma candidatura ao Bundestag para se concentrar no programa interno.

Fotografia: Público/ AFP
Foto: Público/ AFP

Política de Portas Abertas

Caso Angela Merkel não consiga a reeleição no próximo mês de setembro, um dos principais motivos, senão o principal, será a política de portas abertas que a chanceler adotou e que resultou no acolhimento de 1 milhão de refugiados entre 2015 e 2016.

Embora a postura de Merkel tenha sido bastante elogiada pelos seus parceiros europeus, Merkel viu-se obrigada a recuar nas suas intenções depois da comunicação social alemã ter noticiado que a onda de ataques de cariz sexual registados em Colónia na noite de passagem de ano teria origem num grupo de refugiados sírios, informação negada pelas investigações posteriores.

Em curso está, agora, um programa de expulsão de migrantes que viram os seus pedidos de asilo rejeitados. Entre as medidas que servirão de critérios para as deportações, estão incentivos monetários para que os migrantes regressem a casa voluntariamente; a criação de gabinetes locais denominados “centros de expulsão”, que visam auxiliar os estados regionais e fazem a ponte entre a sua ação e Governo federal; e ainda livre acesso das autoridades aos telemóveis e cartões SIM dos requerentes.

As questões relacionadas com a imigração são motivo de preocupação por parte dos alemães e estes não se inibem de o mostrar. Numa outra sondagem realizada pelo instituto de pesquisas de opinião Infratest Dimap, um em cada quatro berlinenses defende que a questão “Refugiados” é um tema determinante.

Para dois em cada três eleitores da região, o fluxo de refugiados deve ser contido; um em cada três considera que o governo faz mais pelos refugiados do que pela população alemã; um em cada três diz ter medo de tantos refugiados na Alemanha. Ainda assim, registe-se que 55% dos alemães considera a chegada de refugidos como um enriquecimento para o país.

Revista Visão

Os Estados Unidos da América de Donald Trump

Durante o período de tempo em que Angela Merkel e Barack Obama coincidiram como líderes dos seus respetivos países, as relações diplomáticas pautaram-se pelo entendimento, pela colaboração e até por uma certa informalidade.

A boa disposição que marcava os encontros entre os dois chefes de Estado contrasta com o que se pode ver atualmente com Donald Trump, que chegou mesmo a designar a chanceler de “uma desgraça” e “um desastre” devido à sua política de acolhimento de refugiados.

Aquando da eleição do milionário americano, Angela Merkel reagiu em tom de aviso, mostrando-se disponível para “trabalhar de forma estreita” com o novo presidente, desde que os valores que caracterizam as duas potencias prevalecessem: “democracia, liberdade, respeito pelo Estado de direito, pela dignidade das pessoas independentemente da sua origem, da cor da sua pele, religião, género, orientação sexual ou política”. O tom de aviso não se limitou ao período inicial de Trump como presidente, tendo mesmo persistido quando os dois se encontraram pela primeira vez numa visita oficial.

Fotografia: Observador/AFP/Getty Images
Foto: Observador/AFP/Getty Images

Na primeira viagem da chanceler a território americano após a eleição de Trump, foram notórios os momentos de tensão e as diferenças ideológicas que separavam os dois políticos, nomeadamente quando o presidente dos Estados Unidos afirmou em plena conferência de imprensa conjunta que “a emigração não é um direito, mas sim um privilégio”.

Mais recentemente, o anúncio da retirada dos EUA do Acordo do Clima de Paris abriu uma grande fissura entre as duas potências mundiais.

Segundo o presidente americano, o acordo “é muito injusto para os Estados Unidos — ao mais alto nível” e descreveu-o como uma “ferida auto-infligida na economia” norte-americana, já que este consiste na “distribuição massiva da riqueza dos Estados Unidos para os outros países”.

Angela Merkel, por sua vez, manifestou a sua intenção de continuar com a implementação das diretrizes presentes no tratado: Nós estamos mais determinados que nunca, na Alemanha, na Europa e no mundo a juntar esforços”. No que diz respeito à decisão de Donald Trump, a chanceler optou por dizer que “essa decisão não pode e não vai travar aquilo que nós, por obrigação, temos de proteger”.