Política

QUEM CANTA, A POLÍTICA ESPANTA

A música e a política têm andado de mãos dadas nos períodos mais conturbados da História e em Portugal a união não foi exceção. As reivindicações de liberdade em tempo de ditadura e a contestação social no auge da mais recente crise económica, serviram de inspiração a muitos artistas que usaram as letras das suas músicas como arma de arremesso.

Zeca Afonso: a luta contra a ditadura

Quando, às 22.55h do dia 24 de abril de 1974, os Emissores Associados de Lisboa transmitiram “E Depois do Adeus” de Paulo de Carvalho, estava dado o mote para um dia decisivo da História portuguesa. Através desta emissão os militares envolvidos na preparação do golpe receberam a confirmação de que deveriam ocupar as suas posições, já que o plano evoluía como esperado.

Duas horas depois, novo sinal, ou melhor, nova “canção-código”. Desta vez, “Grândola Vila Morena” de José Afonso, que havia sido proibida durante o regime ditatorial devido às suas referências camufladas ao comunismo. Através de metáforas, Zeca escondia ideais manifestamente anti-regime.

“Grândola” ficou para sempre associada à Revolução dos Cravos, embora fosse apenas um exemplo do vasto repertório de Zeca Afonso em que são abordadas questões políticas de forma dissimulada, conforme a ditadura o exigia. Os tempos conturbados que se seguiram, nomeadamente o PREC, também não deixaram os autores indiferentes, visto que todos possuíam uma opinião relativamente ao rumo que o país deveria seguir.

“A música é comprometida quando o músico, enquanto cidadão, é um homem comprometido”

 José Afonso

Sérgio Godinho: paz, pão, habitação, saúde, educação… e intervenção

Para Sérgio Godinho, a liberdade só seria uma realidade indiscutível quando “a paz, o pão, a habitação, a saúde e a educação” deixassem de ser conceitos utópicos num país maioritariamente analfabeto e a mãos com uma forte agitação social. Godinho, que voltou a Portugal depois do 25 de abril após 11 anos a viajar pelo mundo, contesta o rótulo que lhe é atribuído de “músico de intervenção”, pois considera-o redutor, dado que, para si, “intervenção é tudo”.

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Foto: Move Notícias

Os tempos mais recentes não foram, para os intérpretes nacionais, pouco ricos em termos de questões políticas, económicas e sociais. A crise de 2008 e os danos que provocou na qualidade de vida dos cidadãos foram fonte de inspiração para muitos artistas de gerações mais recentes, que se identificaram com a famosa “geração à rasca”, de quem se tornaram voz.

Nomes como Deolinda, Boss AC e Tiago Bettencourt cantaram o desalento de quem deixou o seu país na busca de emprego e condições de vida mais dignas.

Deolinda: “parva eu não sou”

Em 2011, o lançamento da música “Que Parva que Sou” dos Deolinda, num dos seus concertos no Coliseu dos Recreios, fez antever, através da reação do público, um grande sucesso que se viria a confirmar. O tema converteu-se no lema das grandes manifestações que no mesmo ano varreram o país e que contaram com um número recorde de participantes. Mesmo assim, num comunicado emitido em Fevereiro de 2011, a banda confessou que o sucesso foi inesperado e que ficou satisfeita com o debate e o diálogo criados em torno do assunto tão atual e pertinente.

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Foto: P3

Boss AC: aquele que não tirou o curso superior de otário

Também Boss AC, em 2012, com “Sexta-Feira (Emprego Bom Já)” inundou as rádios e bateu recordes nas plataformas digitais de música. Uma canção repleta de críticas sociais e ironia onde, para além de abordar questões como a precariedade e a falta de emprego, o músico faz uma sátira ao facilitismo e ao conformismo a que muitos jovens, maioritariamente o seu público-alvo, aderiram. Mesmo assim, o artista defende que o foco principal da música é incentivar a uma cidadania ativa.

“Se é verdade que muita gente tenta arranjar emprego e não consegue, também é verdade que muita gente quer as coisas de mão dada”

– Boss AC

Tiago Bettencourt: não quero pagar pelo que não fiz!

Num registo diferente, Tiago Bettencourt serviu-se do descrédito da classe política, das suas escolhas e da maior vaga emigratória dos últimos anos, só comparável às décadas de 60 e 70, para criar “Eu Não Quero Pagar”. O artista quis opor-se às “jogatas políticas” com as quais nada teve a ver e que demonstram “desonestidade, falta de respeito e amor por Portugal, o que quer dizer, pelo próximo”. O videoclipe que acompanha a música é composto por imagens vindas de todo o mundo e gravadas por portugueses que decidiram tentar uma vida melhor fora do seu país.