Política

O CONFLITO ISRAELO-PALESTINIANO

O conflito entre Israel e Palestina é um dos principais focos de tensão geopolítica no mundo. Para compreender o contexto e a complexidade da situação, é preciso entender as suas raízes. O JUP recua algumas décadas, para te explicar como começou a guerra.

O Mandato Britânico

Aquando do fim da I Guerra Mundial, o Reino Unido e França tinham assinado um acordo secreto: o “Sykes-Picot”. Este acordo dividia a Ásia Menor – controlada pelo derrotado Império Otomano – proporcionalmente pelo Império Francês e Britânico. A região conhecida por Palestina ficaria sob o controlo do Império Britânico.

Ao assinar este acordo, os britânicos estavam a violar dois acordos feitos anteriormente com os árabes e judeus da região. Devido ao contributo militar dos árabes durante a I Guerra Mundial contra o Império Otomano, em 1915 foi assinado um acordo entre o Sharifa Hussein bin Ali de Meca e o Império Britânico, garantindo a formação de uma nação independente e árabe na Palestina. Em 1917, é também assinada a declaração de Balfour devido à grande pressão zionista sobre as autoridades britânicas, garantindo neste caso a formação de uma nação independente e judaica na Palestina.

Os britânicos legitimam apenas o tratado de “Sykes-Picot” , administrando diretamente a Palestina de 1920 a 1945 sob um clima de tensão social e religiosa.

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Infografia: António Vieira

Durante o mandato britânico, milhares de judeus imigraram para a Palestina, temendo o crescimento do anti-semitismo europeu. Outros imigraram porque acreditavam que a Palestina era a verdadeira nação dos judeus.

Em 1936, os árabes da região, insatisfeitos com a opressão britânica e a imigração em massa de judeus, revoltaram-se: atacaram não só as forças britânicas estacionadas na região, mas também aglomerados judaicos. Os britânicos responderam com uma violenta e opressiva campanha militar, levando ao aprisionamento injustificado e à morte de dezenas de árabes.

Os judeus aliaram-se às forças britânicas com a criação de uma força paramilitar denominada de Haganah, para proteger a população judaica. Contudo, surgiram também alguns grupos judaicos mais reativos – como o Irgun ou os Lehi – que atacavam a população árabe como vingança aos ataques contra os judeus.

A revolta acabou em 1939 e conseguiu fazer com que o governo britânico renunciasse a declaração de Balfour, após a publicação do “Papel Branco”. A revolta levou também a uma maior segregação entre árabes e judeus, principalmente a nível económico.

A II Guerra Mundial e as consequências

Durante a II Guerra Mundial, vários crimes foram cometidos contra os judeus na Europa. Os judeus da Palestina declararam total apoio às forças britânicas no combate contra as forças do Eixo. Os árabes, por outro lado, não chegavam a um consenso acerca de quem apoiar. Muitos viam a vitória pelas forças do Eixo como uma oportunidade de expulsar os judeus e os britânicos da Palestina.

Os britânicos, seguindo as diretivas do “Papel Branco”, limitavam a imigração de judeus para a Palestina durante o Holocausto. Esta restrição contra os judeus levou à publicação de uma declaração de revolta pelo Irgun e o Lehi, iniciando-se uma intensa insurreição contra alvos britânicos em 1944.

Com o fim da Grande Guerra, o Império Britânico encontrava-se numa forte depressão financeira. Preservar as suas colónias e domínios pelo globo tornava-se economicamente insuportável para o povo britânico.

Na Palestina, a insurreição judaica, assim como a violência esporádica árabe, obrigava o governo britânico a alocar 100 mil soldados para a região. Em 1947, o governo britânico cedeu, por fim, à pressão financeira e internacional, oficializando o fim do mandato britânico na Palestina e pedindo ajuda à recém formada Organização das Nações Unidas, para a repartição do território entre judeus e árabes.

A Resolução 181 e a reação da Palestina

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Infografia: António Vieira

A 29 novembro de 1947, a histórica Resolução 181 é adotada pela Assembleia-Geral das Nações Unidas. A resolução propõe a divisão da Palestina em dois estados independentes, unidos por uma união económica – um Estado Judaico e um Estado Árabe. A cidade de Jerusalém ficaria sobre administração internacional.

A resolução é festejada pelos judeus, contudo o mundo árabe rejeita-a. Os árabes não aceitaram que o Estado judeu compreendesse 56% do território da Palestina, tendo em conta que os judeus eram uma minoria. Alegavam também que o território dado ao Estado árabe compreendia, na sua maioria, território impróprio para a agricultura. Imediatamente após a rejeição pelo mundo árabe, a violência explodiu na Palestina, transformando-se numa guerra civil.

Os judeus focaram-se inicialmente na defesa das suas populações. Os árabes optaram por acções ofensivas, uma vez que o seu número de guerrilheiros era muito superior ao dos judeus. A chegada de um exército de voluntários do mundo árabe, denominado de “Exército de Libertação Árabe”, agravou a situação judaica.

Contudo, durante a guerra civil, cerca de 700 mil árabes tornaram-se refugiados. Muitos fugiram da guerra, outros foram expulsos das suas aldeias pelas milícias judaicas ou abandonaram as suas casas por ordem dos líderes muçulmanos.

No dia 14 de maio, no auge da guerra civil, a Organização Mundial Zionista declarou a independência do Estado Judaico, dando-lhe o nome de Israel. Como resposta, o Egito, a Jordânia, o Iraque, o Líbano e Síria invadiram a Palestina, o que transformou uma guerra civil numa guerra regional.

O conflito chegou ao fim com o Armistício de 1949, assinado pelas nações árabes. Israel saiu vitorioso, conseguindo expandir as suas fronteiras, ocupando agora cerca de 78% da Palestina e algumas porções dos países árabes vizinhos. Jerusalém ficou dividido entre Israel e a Jordânia.

Nas duas décadas que se seguiram, um grande clima de tensão foi vivido na região, tanto entre Israel e a Palestina, como entre Israel e as nações árabes vizinhas. Deu-se também um êxodo árabe e judaico em direção à Palestina e a Israel, respetivamente.

As grandes guerras da Palestina

A tensão culmina em duas grandes guerras. A primeira, chamada de “Guerra dos Seis Dias” começa em 5 de junho de 1967 com um ataque preventivo israelita contra a força aérea egípcia. O ataque preventivo tinha como objetivo incapacitar as forças árabes que estariam a preparar-se para invadir Israel. Como resposta aos ataques, os países árabes invadiram Israel.

Contudo, sem o apoio da força área egípcia – que fora dizimada pelo ataque preventivo israelita – as forças árabes enfrentaram grandes dificuldades em avançar contra as forças israelitas. A 11 de junho de 1968, ambos os lados assinaram um cessar fogo, finalizando a guerra. As nações árabes sofreram uma derrota: Israel anexou ao seu território a Cisjordânia, as Colinas de Golã e a Península de Sinai.

A segunda guerra, a “Guerra de Outubro”, iniciou-se a 6 de outubro de 1973, durante o “Dia do Perdão” judaico: desta vez, os israelitas foram surpreendidos enquanto festejavam. Esta guerra tornou-se mais complexa do que a anterior, por envolver diretamente as duas superpotências da guerra fria: EUA e URSS.

Após a guerra de 1967, as nações árabes – principalmente o Egito – desejavam recuperar o território soberano que tinham perdido para os israelitas. A Síria e o Egito tornaram-se fortes aliados da URSS.

A URSS enviou equipamento militar para as duas nações árabes. Após uma modernização dos exércitos, a Síria e o Egito invadiram Israel. As forças israelitas, embora apanhadas de surpresa, rapidamente mobilizaram as suas forças e conseguiram cessar o avanço inicial árabe.

Israel tornou-se num aliado dos EUA e recebia também ajuda financeira e militar. A ofensiva árabe fracassou e rapidamente os israelitas lançaram uma extensa contra-ofensiva. Quando as forças israelitas estavam às portas de Damasco e perto de atravessar o Canal de Suez, as forças árabes aceitaram o cessar-fogo proposto pelas Nações Unidas a 25 de outubro. Israel conseguiu manter o seu controlo sobre a Península de Sinai a anexou mais território nas Colinas de Golã.

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Infografia: António Vieira

A entrada no século XXI

As duas grandes guerras em torno da Palestina tiveram um grande impacto social, económico e político em toda a região. O Egito afastou-se das suas intenções contra Israel e iniciou um diálogo aberto com os israelitas. Israel devolveu a Península de Sinai ao Egito em 1978, como sinal de paz entre as duas nações. A Jordânia assinou um acordo de paz com Israel, cessando todas as hostilidades.  Já o governo Sírio manteve-se resiliente nas relações com Israel, optando por não abrir nenhum diálogo de paz relevante.

O conflito Israel-Palestina passou então a concentrar-se apenas nas regiões ocupadas da Palestina, nomeadamente na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

Surgiu assim o período das “Intifadas”, as revoltas palestinianas contra a ocupação israelita da Palestina. A primeira ocorreu de 1987 a 1993, dando lugar a uma rígida resposta por parte dos israelitas. Os palestinianos conseguiram, contudo, que fossem assinados os acordos de Oslo, onde os israelitas concederam alguma independência governativa aos territórios ocupados. Nos anos que se seguiram, 0s palestinianos não viram a totalidade dos acordos de Oslo a serem cumpridas, o que deu início à segunda Intifada em 2000, que terminou apenas em 2005.

A resposta israelita à segunda Intifada foi muito mais extensa e violenta do que a primeira. As Forças de Defesa Israelitas ( IDF) utilizaram equipamento militar pesado, como o famoso tanque Merkava e esquadrões de snipers que disparavam indiscriminadamente. O governo israelita esperava que o uso excessivo de força fosse assustar os manifestantes e diminuir a insurreição. Os grupos paramilitares palestinianos responderam aos excessos das forças israelitas com uma rebelião armada.

Embora a segunda Intifada tenha chegado ao fim em 2005, a violência que explodiu na Palestina causou um precedente armado para as atuais manifestações e insurreições.

Hamas e Fatah

Os territórios palestinianos estavam sob a tutela da Autoridade Palestiniana (AP) desde os Acordos de Olso. A AP era dominada pelo partido Fatah.

Em janeiro de 2006, os Hamas – rivais dos Fatah – saíram vitoriosos na eleição palestiniana. Iniciou-se uma guerra civil entre as duas fações, culminando na divisão governativa entre Cisjordânia e Faixa de Gaza.

A reação dos dois territórios à ocupação israelita tem sido bastante diferente: os Fatah agem mais diplomaticamente, optando por procurar apoio na comunidade internacional; os Hamas preferem ações militares, nomeadamente ataques com mísseis contra território israelita.

Milhares de mísseis foram lançados contra Israel, levando a invasões militares israelitas à Faixa de Gaza, como é o caso da “Guerra de Gaza” de 2008 a 2009. Durante a guerra, Israel bombardeou intensivamente a Faixa de Gaza e posteriormente invadiu a região. A grande dificuldade entre separar alvos civis e alvos militares intensificou-se ainda mais devido ao uso de escudos humanos pelos guerrilheiros do Hamas.

O intenso ataque por mísseis levou a uma nova invasão, desta vez em 2014, que causou a morte a cerca de 2000 civis palestinianos. A denominada operação “Protective Edge”, tinha o intuito de parar os ataques por mísseis. Israel apostou, desde 2011, no uso da “Iron Dome”, um sistema de defesa anti-mísseis, que provou ser eficaz.

Os conflitos causaram grande dano na infraestrutura e economia palestiniana, fomentando um intenso stress social e demográfico. Foram também cometidos inúmeros crimes de guerra, que por Israel como pela Palestina, o que aumentou a rivalidade.

Colonização israelita

O processo de colonização da Palestina por colonos israelitas tem vindo acontecer desde o mandato britânico. Atualmente, embora Israel tenha retirado os seus povoamentos da Faixa de Gaza em 2005, tem continuado um intenso processo de povoamento na Cisjordânia e na cidade de Jerusalém.

O povoamento tem deslocado os palestinianos que habitam nas zonas a ser colonizadas e tem criado um ambiente de segregação. Este processo de colonização não parece ter fim à vista, mesmo sendo considerado ilegal pela comunidade internacional.

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Infografia: António Vieira

Reconhecimento internacional do Estado Palestiniano

A primeira Declaração de Independência da Palestina deu-se em 1988 na Argélia. Desde então, o reconhecimento internacional tem crescido substancialmente. Em 2014, 134 países reconheciam a Palestina como uma nação independente. Em 2012 a Palestina tornou-se um Estado Observador das Nações Unidas, um passo importante para se tornar num membro oficial.

Recentemente – após os EUA terem negado, pela primeira vez, o seu veto em defesa de Israel – as Nações Unidas criaram uma resolução que condena e exige o fim da ocupação militar israelita na Palestina, assim como a colonização do território.