Política

CORRENTES POLÍTICAS: INTRODUÇÃO AO ANARQUISMO

O quarto "Correntes Políticas" introduz uma sub-série dedicada ao anarquismo e explora as principais características e motivações desta ideologia.

O anarquismo é uma ideologia política e filosófica, que advoga uma sociedade sem classes, apoiada na liberdade individual e na solidariedade entre indivíduos. O principal objetivo desta ideologia é acabar com a exploração do homem pelo homem. Nas palavras de Proudhon, um dos seus principais ideólogos, “O governo do homem pelo homem é servidão”. Os anarquistas vêm no estado o principal instrumento de opressão do homem e opõem-se, desde meados do século XIX, a qualquer tipo de organização baseada nesta estrutura.

Para Max Stirner, “O estado tem um único propósito: limitar, controlar e subordinar o indivíduo…”. Bakunin que, a par com Proudhon, é considerado pai do anarquismo considerava que o estado devora o indivíduo, oprime-lhe os desejos e aspirações, em nome de uma abstração.

Para além disso, Bakunin via na democracia representativa uma mera camuflagem, um método para esconder do povo “o poder despótico do estado baseado na política, nos bancos e no exército”. Já o voto é tido como uma espécie de engodo dado pelas elites à população, para manter a perceção de que têm algum poder decisório.

Foram igualmente ferozes opositores ao comunismo autoritário. Para os principais ideólogos anarquistas, o trabalhador não deveria ser apenas uma mera roda dentada na engrenagem. O indivíduo deveria, sim, ter a oportunidade de se autorealizar, e ser mais que um trabalhador. Viam também grande perigo na tomada de posse dos meios de produção por parte deste estado, temendo que o pós-revolução fosse mais gravoso para o indivíduo do que o estado pré-revolução.

Os anarquistas propõem, assim, uma sociedade alternativa, organizada “debaixo para cima através da livre associação e não de cima para baixo por uma autoridade de algum tipo”. É nas alternativas propostas que diferem os diversos ramos do anarquismo. Existem dois grandes grupos de anarquismo: o social e o individualista.

Dentro do individualista, concentram-se as ideologias que defendem que não devem existir constrangimentos à liberdade do indivíduo, quer por uma autoridade quer por um colectivo de indivíduos. Para além disto, estas são defensoras da propriedade privada e da economia de mercado. Anarcocapitalismo, agorismo e mutualismo são exemplos de anarquismo de cariz individualista.

O anarquismo social engloba as ideologias defensoras da existência de uma organização livre de indivíduos em comunidade. Esta deve promover a igualdade, solidariedade e ajuda mútua entre indivíduos. Dentro deste grupo encontra-se o anarcocomunismo, o anarcosindicalismo e o anarcocolectivismo.

Tidas como utópicas, as ideias anarquistas obtiveram repercussões práticas ao longo da história por diversas ocasiões. A comuna de Paris (1871), Catalunha (1936-1937) e o Território Livre Ucraniano (1918-1921) são exemplos, ainda que efémeros, de sociedades inspiradas em ideais anarquistas.

Na atualidade, Rojava, no Curdistão, é um exemplo de práticas anarquistas na organização de uma sociedade.

No próximo artigo desta série, será feita uma abordagem mais profunda ao anarquismo social.