Artigo de Opinião

IMPERFECTUM PERFECTUM

Ouvimos cada vez mais falar da cultura da perfeição e da forma como esta afeta, hoje mais do que nunca, o dia-a-dia e a autoestima a quem a mesma é imposta.
Por Daniela Silva

A cultura da perfeição.

Talvez esta expressão não seja desconhecida por uma boa parte das pessoas que lerão este artigo. Ouvimos cada vez mais falar da cultura da perfeição e da forma como esta afeta, hoje mais do que nunca, o dia-a-dia e a autoestima a quem a mesma é imposta.

Se tivéssemos de definir um nicho de pessoas que mais são afetadas por este traço, cada vez mais corrente na nossa sociedade, a tarefa não seria difícil. Pensaríamos de imediato nas mulheres. As que não podem ser nem muito gordas, nem muito magras. Nem muito altas, nem muito baixas. As que não devem usar muita maquilhagem porque ficam artificiais, mas que sem ela ficam feias. As que não podem usar roupa muito curta porque são, de imediato, caracterizadas como “oferecidas”, mas também não devem usar roupas largas e compridas, pois não ficam “favorecidas”.

As comparações são infinitas, e todas nós, mulheres, já tivemos de as ouvir ao longo da vida. Talvez não soubéssemos o que responder, ou respondemos mal e ficamos vistas como arrogantes. E mulheres arrogantes também perdem a beleza, não é?

O estereótipo da mulher perfeita que tenta, a todo o custo, ser rompido, ainda persiste para assombrar quem dele se tenta livrar. Cada vez mais marcas e pessoas tentam alertar para que deixemos o mesmo de lado e comecemos a encarar com naturalidade questões como as que acima referi. E é através de plataformas como o Instagram que muitas destas questões são abordadas. Mas não esqueçamos que esta é, também, a fonte de vários dos problemas a este tópico relacionados. Falamos de uma cultura de vida perfeita e de beleza perfeita propagadas através de fotos e stories e que, muitas das vezes, disfarçam uma realidade quotidiana vivida por todos nós.

Mas que consequências isto terá para a nossa vida?

Acreditarmos que outra pessoa consegue fazer ou ser algo que nos parece inalcançável afeta a autoestima de qualquer um, tanto a nível físico, como psicológico. Nem todos somos capazes de entender que tudo é uma questão de perspetiva e que aceitar que ninguém é perfeito é a base para um bem-estar alcançável. Talvez nos questionemos que sorte outra pessoa terá por ter a pele perfeita, o cabelo perfeito …. A vida perfeita! Pontos como estes afetam o bem-estar e autoestima, que quando baixa é fonte de tristeza, desânimo …

Em verdade, entender que o conceito de perfeição nunca passará de algo discutível é a chave. Na minha opinião este é, inclusive, ultrapassado. A típica frase “ninguém é perfeito”, que parece ser o maior clichê, nunca pareceu mais certa. Acreditarmos que alguém possa estar livre de qualquer defeito não passa de uma utopia. E é daqui que deve nascer a aceitação. Aceitar este conceito como utópico é entender que todos somos diferentes e que o foco será sempre trabalhar em nós e por nós, para conseguir ser a melhor versão de nós próprios. Deixando de lado as cobranças e colocando o nosso bem-estar acima de tudo! Esquecendo os outros e colocando o foco, única e exclusivamente em nós. A questão é: se não somos capazes de apontar mil e um defeitos a alguém na cara, porque seríamos chamados de maus, porque é que somos capazes de o fazer connosco? Não seremos nós, também, maus connosco próprios? Talvez o segredo seja mesmo tratarmo-nos com mais carinho!

Artigo da autoria de Daniela Silva