Artigo de Opinião

A vacina chega à pastelaria

A pandemia está longe de acabar e só os inconscientes circulam ou festejam vitórias sem restrições. A vacina é ministrada à população portuguesa. Perante a fragilidade dos mais vulneráveis, aqui e acolá, são ludibriados critérios de prioridade, desde os autarcas à pastelaria, os senhores deputados entram na lista.

Se há coisa que gosto de fazer é ver fotografias, do passado, de agora, de momentos vividos, sejam eles de que histórias forem. Tivesse eu mais tempo e não me cansava de o fazer. Não sei explicar a razão, talvez não tenha que a ter, mas a verdade, é que me traz à memória experiências, épocas, alegrias e tristezas, eternizadas por uma lente intencional. Por instantes, o tempo pára, numa agradável sensação de nostalgia. A pandemia ficará indiscutivelmente marcada no meu álbum de memórias. Não porque tivesse ficado doente, ou alguém que me é querido tivesse adoecido, mas pela privação dos momentos em família e dos encontros com os amigos a que sempre me habituei. Sim, é isto, e apenas disto, que sinto falta. Uma liberdade que damos como um dado adquirido, e que de um dia para o outro, a Covid-19 nos tira. Relembro onde, quando e como tudo começou, e percebo agora como fomos tão naifes. Aguentamos o barco, recorrendo a remos que chegaram para a força de um mar bravio, ainda longe da sua fúria. No meio do caos que viviam as nações vizinhas, nós seguíamos em frente. Reflexo das inevitáveis medidas de confinamento, ficava uma economia débil para recuperar. Lá fora, elogiados e admirados, sentimos que fizemos o caminho certo, o melhor possível para uma corrida injusta. O mundo desejava a produção de uma vacina, e compreensivelmente, todos aguardávamos para que a ciência fizesse um milagre. Íamos cuidando dos nossos, e a aparente normalidade retornava, pouco a pouco. Tivemos o nosso e assistíamos ao desconfinamento dos outros, cada um ao seu ritmo. Confiantes na ciência e nos cientistas, ansiávamos um novo despertar. Testes e mais testes, finalmente percebemos que o caminho era por aí.

Em tempo recorde, eis que chega a vacina, e com ela a esperança da humanidade no controlo da pandemia. Os jornais abriam em uníssono anunciando o acontecimento. Surgiam laboratórios e enumeravam-se vacinas com nuances à la carte, fazendo prever os lobbies das farmacêuticas na comercialização do produto. O que parecia impensável, tornou-se agora uma realidade. A ordem era inequívoca, produzir, produzir. Mas, as vacinas não substituíam os cuidados que deviam ter continuado e Portugal relaxou. Por falta de humildade perante um vírus mutável, altamente infecioso e resistente, mas também por surdez de um governo que, sem dúvida, subestimou a opinião dos especialistas e de uma ciência exata cuja estatística antevia a tragédia.  O governo não foi prudente nas medidas, nem os cidadãos responsáveis, no que toca ao rigor dos cuidados que se impunham (e continuam a impor). Hoje, o cenário é caótico e sem moral para desculpas. Portugal tinha cometido o erro grosseiro de adiar mais um confinamento sério, perante o que acontecia no mundo e os números que pediam cautela. Talvez a intenção genuína fosse salvar a economia, como se ela pudesse ser salva na respiração boca-a-boca de uma quadra natalícia. O senhor primeiro ministro apelava ao isolamento e resguardo, mas permitia, em simultâneo e de forma contraditória, o incompreensível funcionamento das superfícies comerciais e o comércio de rua. Até o mais sensato ficaria desnorteado. A economia não aguenta e temos que levar a vida dentro da normalidade possível, apelava ele. A mensagem foi tão bem transmitida e escutada pelo povo, que o mote conveniente estava dado. E os dias que antecederam o Natal encheram-se de gente, num entra e sai das lojas como se o amanhã não existisse. E não existiu, infelizmente, para muitos, ou está suspenso por um fio, à espera de oxigénio. E a prenda lá ficou no pinheirinho, sem saber a importância que lhe deram, mas talvez tenha ajudado a economia. Há decisões difíceis de tomar, e esta era uma delas, o confinamento que se impunha a qualquer custo. Infelizmente, a medida pecou por tardia. Hoje, remediamos com o esforço de muitos o que se tornou uma missão árdua. O alarmante e impensável débito de oxigénio faz-nos tremer.  Não me apetece brincar com estas coisas, pois o problema é sério demais, mas não resisto a dizer que damos sempre por garantido recursos que não se compram ou esgotam. Num país desenvolvido como o nosso, numa galáxia tão distante da realidade de outros países, o oxigénio é um bem que nunca imaginamos faltar num cenário de prestação de cuidados médicos. Mas está a acontecer em Portugal. Ambulâncias que aguardam horas para que os doentes possam ser observados e encaminhados, com o desespero dos médicos que têm que priorizar o que já é prioritário. Faltam camas vagas onde os deitar. Em condições excecionais, são transferidos para outros hospitais, enquanto o cenário assim o permite.

Paralelamente, são ministradas as vacinas, seguindo a lista de prioridades, justa e compreensível, assim o julgávamos e confiamos. Todos assistem, jornalistas e políticos, mostrando-se eufóricos com o momento. E, eis que a mente do ser humano se revela frágil, não pela pandemia, mas porque é destituído de princípios morais e éticos. Num ato inqualificável de quem detém o poder, atropelam-se critérios e é um self-service de vacinas, sem que isso lhes consuma a consciência. Sobram vacinas e quem “está por perto” acaba sorteado, argumentam. Os casos sucedem-se, uns atrás dos outros, autarcas e familiares, com tal surrealismo que até os funcionários da pastelaria e do café vizinho são contemplados. Só faltavam os senhores deputados na lista de prioridades. Se a brincar o disse, a história torna-se real, incluídos na lista de prioridades, sabe-se lá com que critérios. A situação tem tanto de escandalosa como de abominável. Uns aguardam serenamente, outros ajudam e confortam como podem os mais vulneráveis, e há aqueles cujo espírito inquieto se revela da pior forma, assim que sentem o barco desequilibrado num mar mais turbulento. Senhor Presidente, diga-me, por favor, em que país vivo? Que caminhos estamos nós a construir?