Artigo de Opinião

PARA QUE SERVE A UNIVERSIDADE?*

*Algumas das ideias apresentadas neste texto têm por base o excelente livro de Andrew Delbanco: College – What it was, is, and should be. Princeton University Press, 2012.

O debate sobre o papel da universidade é antigo e controverso. E a chamada “crise de valores” que o atravessa também. Já em 1894, Mark Twain, no seu livro Pudd’nhead Wilson, escreve sobre um jovem que deixa a sua pequena vila no Missouri para ir estudar na Universidade de Yale e regressa com pouco para mostrar, a não ser duas novas competências: beber e jogar. Em 1974, o eminente ensaísta Lionel Trilling, que foi toda a vida professor na Universidade de Columbia, queixava-se que os seus estudantes viam a universidade como um “mero processo de acreditação com um objectivo final puramente socioeconómico”. E hoje, as queixas dos professores sobre os alunos repetem-se, como no passado, desde a fraca preparação no secundário até a incapacidade para escrever um parágrafo de forma organizada e sem erros. Ou então, e mais recentemente, as queixas paradoxais sobre a necessidade de mais tutoria, mais rigor e acompanhamento, quando há precisamente poucos anos se promoveu através do Processo de Bolonha a famosa autonomia e a redução do tempo de contacto…

A Universidade não pode estar afastada dos desejos de muitos estudantes e respectivas famílias. De facto, uma das razões para a existência das universidades é económica. Acredita-se que, existindo cada vez mais pessoas com formação superior, a economia melhora e a capacidade das pessoas com cursos superiores terem um bom desempenho económico e melhores empregos também é expectável. Uma outra razão para a sua existência é política, embora frequentemente esquecida pelos próprios políticos. A base da existência do nosso sistema político é a opinião das pessoas. E quer se acredite totalmente ou não, são os cidadãos informados que podem fazer a diferença entre a demagogia e os argumentos sensatos. Há cerca de 100 anos atrás, John Alexander Smith da Universidade de Oxford dizia aos seus estudantes que “nada do que vão aprender no vosso curso será de extraordinária importância, a não ser, se estudarem bem, a capacidade de detectar um homem a dizer asneiras, que do meu ponto de vista é o principal objectivo, se não o único, da educação”. Existe contudo uma terceira razão (para além das questões económicas, da competitividade e da cidadania) para a existência de uma universidade, que por ser vaga e difícil de articular, raramente é citada. E esta função é meramente individual. É a capacidade de criar seres humanos que sentem prazer em pensar e que alcançam a felicidade através do pensamento e reflexão ou, como dizia Judith Shapiro a um grupo de estudantes sobre o que deviam esperar da universidade, “you want the inside of your head to be an interesting place to spend the rest of your life”.

Infelizmente, os nossos estudantes e professores, tantas vezes sufocados pelos trabalhos constantes e burocracia desproporcionada, parecem perder esta oportunidade que a universidade deveria oferecer para pensar e reflectir conjuntamente sobre o que os rodeia, de forma tranquila e com prazer, antes que a vida os engula.