Artigo de Opinião

ASSOCIAÇÃO 25 DE ABRIL FORA DAS COMEMORAÇÕES DOS 40 ANOS

Rui Pedro Pinto
Rui Pedro Pinto

Ao contrário do que aconteceu nos últimos dois anos, em que se recusou a marcar presença, a Associação 25 de Abril mostrou-se disponível para comparecer nas cerimónias comemorativas dos 40 anos da Revolução dos Cravos, que ocorrem tradicionalmente na Assembleia da República. Apesar desta aparente disponibilidade, os militares faziam depender a sua presença da possibilidade de usarem da palavra, de pleno direito, no protocolo da festividade.

Até aqui tudo parecia correr de feição: os capitães de Abril recuavam na sua posição extremada de ficarem ausentes da comemoração e os portugueses em geral viam enriquecida a cerimónia com a presença daqueles que, bem ou mal, foram os actores principais do evento que ali se celebrará. Não fosse o “inconseguimento”, por parte da nossa presidente da AR, em implementar um regime de mecenato que financiasse o certame, e tudo seria um mar de rosas (ou, neste caso, de cravos).

Ainda a possível presença dos capitães não passava de um mero pedido incapaz de, por si só, gerar todo o circo mediático que se lhe seguiu e já várias vozes afetas à maioria parlamentar PSD/CDS-PP demonstravam a sua discordância com este pedido, defendendo que os militares não devem ter direito a intervir porque “as cerimónias sempre se realizaram com este formato e é assim que devem continuar”. Este modelo de discurso torna-se ainda mais ridículo e desprovido de sentido se atentarmos ao seu carácter altamente reversível. Por exemplo, as legislaturas sempre ocorreram com Governos que respeitavam o Tribunal Constitucional e era assim que devia continuar…

Ora, como o leitor deve facilmente ter percebido (se não ficou esmagado com a qualidade e irrefutabilidade do argumento citado) estamos aqui perante uma dissertação ilustrativa de um conservadorismo bacoco que em nada dignifica a liberdade que supostamente deveria ser celebrada, ainda com mais fervor, naquele dia e naquele espaço que é, por excelência, o lar da Democracia. De nada interessa festejar o 25 de Abril com grande pompa e circunstância, com cravos na lapela e discursos eloquentes repletos de citações de Churchill se aquilo em que aparentemente se acredita é a rigorosa antítese dos valores que ali se tentam relembrar. Estes senhores pecam enquanto se confessam…

Negar o direito aos capitães de Abril de intervirem nas comemorações da Revolução que estes planearam e levaram a cabo é um acto vil, de completo desprezo por tudo o que nos foi oferecido por estes operacionais, máxime pela liberdade de expressão que, paradoxalmente, permite hoje a estes parlamentares proferirem declarações tão infelizes como as que aqui replicamos. O raciocínio que deve presidir à resposta a dar a este problema tem que ser precisamente o contrário: permitir que os oficiais usem da palavra é uma correcção e uma oportunidade de remissão de uma injustiça histórica uma vez que estes deveriam ter tido, desde sempre, o direito de discursarem nesta cerimónia. A simples presença destas personalidades não expressa, nem de perto nem de longe, a enorme gratidão e respeito que todos nós, enquanto portugueses, devemos nutrir por estes homens.

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