Artigo de Opinião

A DEMOCRACIA É UMA CHATICE

Choque, raiva, espanto, desorientação e lágrimas em contraponto com risos, suspiros de esperança e sonhos. Muitos sonhos. Foi assim o dia de ontem nos Estados Unidos da América (EUA). Donald Trump, o patinho feito, o desprezado, o “doido” e o gozado por meio mundo, será o 45º Presidente da história dos EUA.

O resultado de ontem só é surpreendente para quem andou completamente alheado do que se passou nos EUA e pelos sinais que o povo, a cada semana, ia transmitindo. Para quem, como eu, já esperava a vitória de Trump, estas eleições ficam marcadas pela inacreditável facilidade com que Donald Trump pulverizou Hillary Clinton. Como se sabe, nas eleições dos EUA, contam os delegados e não os números de votos. Problema do sistema eleitoral? Não. Problema da dificuldade em aceitarmos a voz do povo. Fosse Hillary a vencedora e ninguém tocaria nesse ponto.

Mas afinal qual foi a surpresa? Será surpreendente ver um homem que enchia 4 e 5 vezes, por dia, pavilhões com 17 mil pessoas e tinha mais 6 mil fora porque não conseguiram entrar, a ganhar contra alguém que se via aflita para ter, na maioria das vezes, 2 a 3 mil pessoas? Será surpreendente ver um homem que sozinho movia multidões a ganhar as eleições contra uma mulher que precisava de fazer, nos últimos dias, uma espécie de festival de música para ter assistência nos seus comícios?

Como movia Trump multidões? Trump falava ao coração das pessoas. Mesmo que se possa acusá-lo de dizer e fazer as coisas mais inacreditáveis, Trump fez algo que muitos políticos não conseguem fazer nos dias de hoje. Percebeu as preocupações dos americanos e de todas as suas facções. Começa a ser raro, se é que ainda existe, ter um político que consiga falar ao coração de cada um de nós. Trump teve do seu lado vários pontos a favor. Em primeiro não era político. Não estava preso a nenhum interesse. E isso foi um dos problemas para Hillary. Hillary não estava comprometida com o povo americano. Estava comprometida com os interesses que minam os EUA por dentro há vários anos. Hillary nunca se conseguiu afastar da imagem de “agente de Hall Street” e da imagem de futura Presidente dos Interesses e não dos EUA. O povo percebeu. À parte disto, Trump podia dar-se ao luxo de dizer tudo o que queria por mais inacreditável que fosse. Não teve apoios monetários de grandes empresas ao contrário de Hillary e gastou, na maioria, dinheiro do próprio bolso. Aos olhos dos eleitores, Trump, mais uma vez, destacava-se de Hillary. Trump era um ser livre. Um ser que falava e levava a verdade em que acreditava para uma América melhor. Hillary levava a mensagem dos interesses e dos negócios, muitos deles obscuros. E quem não é, no fundo do seu íntimo, o ser que está farto de políticos destes?

A somar a tudo isto, Trump teve dois apoios de peso. A própria Hillary e os media.

Hillary, porque caiu em perfeita desgraça, perante a opinião publica, com a soma de casos em que se viu envolvida. Hillary conseguiu a proeza de, aos olhos dos americanos, fazer crer que Trump era um mal menor.

Quanto aos media, foram, na minha opinião, sem o quererem, a arma secreta de Donald Trump. Muita da chama que se acendeu dentro dos americanos foi de revolta pelo que os media faziam diariamente com Donald Trump. Não só descontextualizavam frases e momentos, transmitindo a ideia errada de determinadas situações, como resolveram levar Hillary Clinton num andor, boicotando e escondendo completamente o que se passava na campanha de Trump e o crescimento diário do seu apoio. O importante era denegrir Trump. Trump, inteligente, soube catapultar esse facto e elevar-se à qualidade de mártir. A verdade é que essa posição dos média para o qual Trump chamou à atenção somada aos interesses que rodeavam Hillary e aos escândalos inacreditáveis imputados à mesma formaram a equação que nos permitiu chegar ao 45º Presidente dos EUA. Não há surpresa. É uma vitória que muitos tentaram esconder. Mas o povo é soberano.

Apesar de tudo o que estas eleições envolveram, enganem-se aqueles que pensam que este é um caso isolado. Esta é uma vitória do grito do povo que quer ser livre! Do povo que quer que olhem para os seus problemas e não para os interesses corporativos. E não. Não acabará aqui. Esta onda, para a qual muitos já chamaram à atenção, começou com a crise de 2008, deu um ar da sua graça da Grécia, chamou à atenção com o Brexit e horrorizou os desatentos com Donald Trump. E preparem-se. Há muitos mais povos a quererem gritar para serem livres. A começar com a França já em 2017.

Um último apontamento para os que criticam a escolha dos americanos, tendo-o feito já no “Brexit”, e que a tentam tornar a escolha de Trump numa escolha dos “menos letrados”, dos “campónios” dos “ignorantes”. Não se esqueçam que esse era o argumento que muitos usaram para ter regimes de força maior. Não há democracia de ricos e pobres, letrados e não-letrados. Há democracia e é soberana.