Artigo de Opinião

DIA DA MULHER?

Vídeo por João Pedro Figueiredo

Na passada terça-feira, dia 8, festejou-se o dia da mulher um pouco por todo o lado. Como noutro dia qualquer fui consultar as redes sociais, neste em particular por ter curiosidade no que toca às notícias sobre as mulheres e o seu papel na sociedade. Assim que entrei no Facebook, deparei-me com as frases “É o Dia Internacional Da Mulher! Um brinde à igualdade de géneros em todo o Mundo.”. Algo não batia certo. Então é o dia das mulheres de todo o mundo e vamos brindar a uma igualdade que tantas delas não têm? Brindamos nos aniversários, nas passagens de ano, nas inaugurações de empresas e vamos brindar a propósito de algo que está longe de ser uma realidade?

Entristece-me que nós, “os do ocidente”, fiquemos tão confortáveis com a ideia de que este é o dia em que corremos para comprar uma flor, em que marcamos um lembrete no telemóvel para não nos esquecermos de ligar a reservar o jantar no restaurante X, em que publicamos mil imagens e estados nas redes sociais a desejar um feliz dia da mulher como quem deseja feliz natal ou feliz páscoa. Faz todo o sentido celebrar: celebrar conquistas de mulheres que lutaram para que possamos viver num sítio melhor do que aquele em que elas viveram; celebrar conquistas como o direito ao voto (apenas em alguns países) graças ao movimento sufragista no início do século XX, e a comercialização da pílula em 1961; celebrar o contributo de mulheres como Simone de Beauvoir e Sylvia Plath para a evolução do pensamento. E se compreender o passado, este é um dos segredos para interpretar o presente e o futuro. Perceber que somos todas mulheres é o segredo para começar a fazer a diferença.

É importante que o dia 8 de Março seja um dia de reflexão. Na Índia, a violação ainda é considerada “normal” e, quando acontece, tem repercussões notórias na vida das vítimas. Em grande parte dos países do Oriente, as mulheres não têm acesso à educação e muito menos o direito ao voto. Na verdade, na Arábia Saudita só é possível votar desde 2015. Exatamente, há apenas um ano! Na China é imposto um número limite de filhos que, no caso de ser ultrapassado, exige que um aborto aconteça. Quão brutal é um aborto para o corpo e a mente de uma mulher?

Em pleno século XXI, as mulheres não podem viajar sozinhas correndo o risco de ser violadas e assassinadas, como aconteceu há bem pouco tempo com Marina Menegazzo e Maria José Coni, que partiram rumo à aventura e descoberta pelo Equador. Em pleno século XXI, eu tenho medo de viajar sozinha, tenho medo de ir sozinha para casa à noite sem ser com um amigo rapaz, tenho medo de não corresponder às expectativas que a sociedade tem para mim. Em pleno século XXI, vou chegar aos 35 anos e, se ainda não tiver filhos e uma família constituída, vou ser bombardeada com perguntas como “Então, não está na hora?” e “Já começaste a pensar em ter um bebé? Está a ficar tarde!”. E se eu não quiser ter filhos?

Estamos em 2016 e nos filmes de ficção científica realizados no século passado já se previa a existência de robôs capazes de fazer tudo por nós. Não aconteceu. As minhas previsões para 2066 vão mais além. Idealizo um planeta em que tenhamos consciência de que somos cidadãos do mundo e não devemos preocupar-nos apenas com o que está por baixo do nosso nariz. Idealizo um mundo mais justo onde “lutar pelos direitos humanos das mulheres” seja apenas um capítulo dos livros de história. Um capítulo daqueles que deixam os alunos incrédulos por se afastar da única realidade que conhecem: a da justiça e igualdade.